Os planos do Banco Central chinês de lançar uma moeda digital

Instituição estuda a criação de novo meio de troca digital desde 2014. E já começou a realizar testes

 

Criada em 2009, o bitcoin é um meio de troca virtual que possibilita realizar transações on-line diretamente entre um indivíduo e outro, sem passar por bancos ou empresas como a PayPal. Isso é possível porque o registro das transações é mantido em um arquivo digital compartilhado cuja autenticidade é verificada pelos membros da comunidade. Isso evita fraudes sem a necessidade da atuação de um intermediário centralizador. Essa tecnologia é chamada de “blockchain”.

Ela é a base de mais de 200 mil transações diárias que usam a bictoin. Além de moedas como o dólar, uma bitcoin pode ser programada para representar outras unidades de valor, como ações de uma empresa, ou o certificado digital de uma propriedade, por exemplo.

Diversos países já estudaram a possibilidade de criar moedas digitais que seriam controladas, no entanto, por bancos centrais. Elas não teriam aplicaç��o tão ampla quanto a bitcoin, e seriam uma versão virtual daquelas empregadas em seus territórios. Desde 2015, o Equador tem uma moeda do tipo, mas em escala reduzida.

Entre economias de peso, a China é o país que dá mais acenos em direção a uma moeda digital. Apesar de não haver um cronograma, a instituição já começou a testar uma versão do “renminbi”, garantida pelo governo e com o mesmo status legal de uma nota física.

Um relatório de pesquisa publicado em 2016 pelo Banco Central chinês e citado pela agência de notícias Bloomberg indica como essa moeda poderia funcionar.

Ela seria produzida pelo Banco Central e transferida para os bancos comerciais, que por sua vez fariam com que chegasse a empresas e à população em geral. Os consumidores poderiam recarregar seus celulares ou computadores com as moedas, e transferi-las para realizar compras. Vendedores poderiam, por sua vez, depositar o dinheiro em suas contas junto aos bancos comerciais.

Assim como ocorre com o bitcoin, haveria um arquivo comum para a administração do renminbi digital, mas os últimos relatórios do Banco Central sobre o assunto apontam que esse arquivo não necessariamente processaria todas as transações. Ele poderia servir, no entanto, para verificar periodicamente “quem é dono do que”, segundo análise publicada em junho de 2017 pela revista “MIT Technological Review”, ligada à universidade americana Massachusetts Institute of Technology.

A moeda seria, portanto, menos descentralizada e versátil do que o bitcoin, e seria de responsabilidade do Banco Central chinês.

Os ganhos com uma moeda digital

Custo menor

Manter dinheiro físico traz diversos custos: produção e reposição de notas, destruição de notas velhas ou de versões obsoletas, estoque, proteção contra roubos físicos e combate à falsificação. Isso é especialmente caro em um país com 1,4 bilhão de habitantes como a China.

Atualmente, o uso de pagamentos pela internet é comum em grandes cidades do país, mesmo para situações cotidianas, como ir ao supermercado. Mas para que isso ocorra é necessário recorrer ao intermédio de serviços financeiros, como bancos, que representam um custo extra. Para depositar dinheiro na conta de um professor de inglês, ou pagar uma mercadoria pela internet é necessário acessar o aplicativo de um banco, por exemplo.

Com uma moeda digital, essas transações ocorreriam diretamente entre comprador e vendedor ou fornecedor de um serviço, como já ocorre com a bitcoin. Um smartphone poderia ser utilizado para realizar a transferência diretamente. Ao diminuir esses custos, uma moeda digital, em tese, democratizaria o acesso a serviços financeiros.

Internacionalização do renminbi

A criação de uma versão digital do renminbi facilitaria seu uso em investimentos e trocas internacionais. Isso poderia contribuir para acelerar o processo de internacionalização da moeda, tornando-a mais relevante globalmente.

Rastreabilidade e controle

Normalmente, moedas digitais usam códigos ou chaves rastreáveis. Isso significa que é possível verificar cronologicamente em quais transações elas foram usadas. Esse tipo de moeda poderia auxiliar, portanto, o governo chinês a acompanhar mais de perto as transações digitais, que ocorrem com frequência crescente, e tomar medidas de combate à corrupção ou contra a retirada ilegal de dinheiro do país. Em uma declaração de 2016, o Banco Central chinês afirmou que uma moeda digital poderia “ampliar o controle do fornecimento e circulação de dinheiro”, o que serviria para combater lavagem de dinheiro e evasão fiscal.

Juros negativos

Um instrumento utilizado por economias que apresentam deflação, ou seja, a tendência de queda dos preços e desaceleração econômica são os chamados juros negativos. Eles consistem em cobrar uma taxa sobre o dinheiro dos bancos comerciais que fica depositado junto ao Banco Central. Dessa forma, os bancos são impelidos a colocar o dinheiro de volta na economia na forma de empréstimos. Há casos em que os bancos repassaram a taxa para os clientes, ou seja, os correntistas pagariam para deixar o dinheiro depositado.

Um fator que diminui o efeito da aplicação de juros negativos por bancos centrais, no entanto, é o fato de que os clientes podem simplesmente sacar seu dinheiro, guardá-lo em suas casas e esperar que ele passe a valer mais,como ocorre em uma situação de deflação de mercadorias e serviços. Analistas sugerem, no entanto, que, com o avanço de uma moeda digital e a decadência do dinheiro em papel, o Banco Central teria controle o suficiente para criar mecanismos que puniriam a estocagem de dinheiro. Ou seja, os juros negativos, que hoje são uma política pouco ortodoxa, seriam mais facilmente aplicáveis devido ao controle sem precedentes que o governo teria sobre o dinheiro.

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