‘Harry Potter’ ameaça as corujas? Pesquisadores investigam comércio das aves na Indonésia

Na série de livros e filmes, elas são animais de estimação dos bruxos. Cientistas averiguaram vendas de corujas desde os anos 1970 para entender efeito da saga

    Em 26 de junho, o mundo de Harry Potter completou 20 anos. O bruxo protagoniza uma das séries de ficção mais bem-sucedidas da história, seja em livros ou filmes, com milhões de fãs e uma marca com valor de mercado por volta de US$ 15 bilhões.

    Na série de fantasia criada pela britânica J.K. Rowling, as corujas são companheiras e animais de estimação de diversos personagens bruxos, incluindo o protagonista. A elas também cabe entregar cartas e outras correspondências.

    Agora, dois cientistas da Universidade Oxford Brookes, no Reino Unido, levantam a possibilidade — destacando que ainda não há provas —  de que a popularidade estrondosa dos livros e filmes de Harry Potter pode ter tido um efeito negativo para a natureza: o aumento do interesse comercial por corujas na Indonésia, com caça predatória e ameaça a algumas espécies.

    Os antropólogos Vincent Nijman e Anna Nekaris foram ao país asiático e atestaram o aumento expressivo no número de corujas à venda em mercados de aves, em comparação à época em que “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, o primeiro livro da série, ainda não havia sido publicado ou virado filme.

    Os resultados foram publicados no artigo “The Harry Potter effect: The rise in trade of owls as pets in Java and Bali, Indonesia” (Efeito Harry Potter: O aumento do comércio de corujas como animais de estimação em Java e Bali, na Indonésia), que saiu na edição de julho de 2017 da revista “Global Ecology and Conservation”.

    Como a pesquisa foi feita

    Entre 2012 e 2016, os pesquisadores foram 109 vezes a mercados de aves em diferentes cidades das ilhas de Java e Bali. Eles contavam e anotavam manualmente quantas corujas viam e qual era a espécie.

    Os cientistas compararam os dados coletados a levantamentos sobre o comércio de aves feitos desde o final da década de 1970. Constataram que da segunda metade dos anos 2000 em diante, os mercados passaram a ter muito mais corujas — no número absoluto, na variedade de espécies e na proporção em relação a todas as aves à venda. O primeiro livro da saga é de 1997, mas a popularização mundial ocorreu mesmo após a estreia nos cinemas, em 2001.

    As corujas como mercadoria na Indonésia

    As aves são, em quase todos os casos, capturadas da natureza e vendidas nos mercados. Os preços atuais em Java e em Bali podem variar entre US$ 6 e mais de US$ 100.

    Antes de 2002, considerando estudos distintos, a proporção de corujas em relação à quantidade total de aves vendidas nos mercados era de no máximo 0,06%. Após 2008, estava sempre entre 0,43% e chegou a 1,44%. Isso significa um aumento entre 7 e 24 vezes. O número absoluto também aumentou drasticamente.

    13 mil

    é o número estimado de corujas vendidas em 2016 em Java e Bali, segundo o artigo

    De acordo com a pesquisa, há 11 espécies naturais de Java ou Bali, mas nos mercados se vendem mais — o que significa que espécies originárias do exterior ou de outras partes da Indonésia são capturadas e transportadas para esses locais.

    Comum na Indonésia, o comércio de aves é também um indicador social: espécies mais raras e vistosas costumam ficar restritas aos mais ricos.

    Os autores afirmam que a disseminação da internet no país também influenciou. Ao longo dos anos foram criados sites e fóruns de fãs de Harry Potter e de pessoas com corujas em casa, que compartilhavam dicas e experiências sobre como cuidar do animal.

    Em 2001, ano do primeiro filme, apenas 2% da população indonésia tinha acesso à internet. Em 2016, era 20%.

    “Harry Potter tornou normal ter corujas como animais de estimação”

    Vincent Nijman

    autor do artigo “Efeito Harry Potter: O aumento do comércio de corujas como animais de estimação em Java e Bali, na Indonésia”

    A legislação indonésia não proíbe especificamente o comércio de corujas, mas veta a comercialização de animais cuja caça não é regulada — justamente o caso.

    O problema é que, segundo os cientistas, as autoridades não agem em favor das aves. As vendas ocorrem normalmente, sem nenhum perigo de represália ou apreensão por parte de algum órgão regulador. Apenas uma espécie de coruja (Otus beccarii) é diretamente protegida por lei no país.

    Por serem animais noturnos, mesmo uma queda brusca da população na natureza pode ser difícil de perceber em um período de poucos anos.

    Quase nenhuma das espécies verificadas pelos pesquisadores está ameaçada de extinção. Mas a caça e o comércio indiscriminados são sinais negativos para a preservação a longo prazo.

    Corujas não se adaptam a gaiolas, mesmo se estas forem grandes. O tamanho e os hábitos desses animais, incluindo as necessidades nutricionais, os tornam difíceis de serem domesticados. Morar em uma casa comum é extremamente prejudicial às corujas.

    Causa não pode ser comprovada

    Apesar de os autores do artigo demonstrarem como as corujas estão mais populares, eles deixam claro que não é possível atestar cientificamente que os dois fenômenos (sucesso da saga Harry Potter e mais vendas de corujas na Indonésia) estão conectados.

    “Durante nosso estudo, as corujas eram frequentemente chamadas de ‘Burung Harry Potter’ (pássaros de Harry Potter), e quando falávamos sobre corujas com os vendedores eles com frequência mencionavam Harry Potter. Mas apenas isso não demonstra uma relação causal entre os livros e filmes de Harry Potter e a popularidade das corujas como animais domésticos na Indonésia”, dizem no artigo.

    Nijman e Nekaris indicam que houve uma resposta tardia do comércio em relação à publicação dos livros e exibição dos filmes. Não houve um aumento expressivo logo após “A Pedra Filosofal” — isso ocorreu apenas anos depois na Indonésia, atraso que atribuem ao acesso precário à internet no começo do século. Essa demora dificulta uma comprovação.

    Caso não é inédito

    Já foram registrados outros casos parecidos após filmes de sucesso que mostram animais. Espécies de peixe-palhaço, como o protagonista de “Procurando Nemo” (2004), passaram a ser retiradas da natureza com mais frequência após o filme, o que causou preocupação de efeito similar na sequência “Procurando Dory” (2016). Antes disso, com “101 Dálmatas” (1996) houve um aumento de procura pela espécie de cachorro — e o abandono de muitos deles pouco tempo depois. Até “Jurassic Park” (1993) entra nesse grupo: apesar de mostrar dinossauros, após o filme houve um crescimento do comércio global de iguanas.

    Um dos problemas em casos como esses é adquirir os animais por impulso, com pouca informação sobre os cuidados específicos de que necessitam ou mesmo sem permissão legal. Também é comum se desinteressar pouco tempo após a compra, levando a maus-tratos ou à morte do animal.

    Embora empiricamente se verifique aumento no interesse comercial, é sempre complicado comprovar uma correlação direta entre fenômenos desse tipo ou responsabilizar alguma empresa ou entidade pela captura indiscriminada de animais direto da natureza.

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