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Por que não há grandes mobilizações contra o governo, segundo este professor

Enquanto presidente é alvo de denúncia criminal, ruas refluem e movimentos, numerosos em 2016, desaparecem. Filósofo diz que, apesar do discurso indignado, permanência de Temer é conveniente para todos os lados

     

    Sindicatos e movimentos sociais críticos a Michel Temer realizaram nesta sexta-feira (30) uma greve geral com atos, paralisações e bloqueios de ruas em determinados pontos do Brasil. O objetivo era protestar contra as reformas do governo e pedir a saída do presidente.

    Em São Paulo, a mobilização culminou com um ato na avenida Paulista, fechada para o trânsito de veículos no início da noite. No Rio, a marcha chegou ao fim na Cinelândia, com discursos contra as mudanças trabalhistas e contra Temer.

    Não existe um levantamento preciso e centralizado a respeito do alcance dos protestos e do índice de adesão à paralisação das diferentes categorias em todo o país, mas os próprios organizadores admitem que eles foram bem menores do que na greve geral de 28 de abril, quando a mobilização foi expressiva.

    O jornal “Folha de S.Paulo” descreveu a existência de atos na sexta-feira (30) “em pontos localizados”. Na capital paulista, trens, ônibus e metrô circularam normalmente. Brasília, Rio de Janeiro, Salvador e Belo Horizonte também registraram manifestações pontuais.

    A greve geral ocorre na mesma semana em que o Supremo Tribunal Federal encaminhou à Câmara dos Deputados uma denúncia criminal contra Temer, acusado de crime de corrupção passiva. É a primeira vez que um presidente da República enfrenta uma acusação por crime comum no exercício do mandato. São necessários votos de dois terços dos deputados para que a denúncia avance.

    A revolta dos brasileiros, no fim, têm sido mais visível nas redes sociais e nas pesquisas de opinião do que nas ruas, num quadro bastante diferente daquele que levou ao impeachment de Dilma Rousseff em 2016, quando centenas de milhares de pessoas ocupavam o espaço público e batiam panelas contra a corrupção.

    Para entender por que isso acontece, o Nexo fez três perguntas ao filósofo e professor de gestão de políticas públicas da USP Pablo Ortellado, que nos últimos anos tem se dedicado à pesquisa acadêmica sobre os movimentos de rua no Brasil.

    Para ele, apesar de haver alguns movimentos na rua atualmente, as lideranças que têm poder real de mobilização não estão fazendo convocações porque veem em Temer um governo indesejado, mas, ainda assim, conveniente.

    Por que não há mobilizações expressivas?

    Pablo Ortellado O processo de mobilização precisa de convocantes que tenham legitimidade e poder de convocação. Esses convocadores - que conquistaram essa capacidade de convocação nos últimos anos - não estão se esforçando para mobilizar as pessoas. Eu me refiro a todos eles, tanto ao MBL [Movimento Brasil Livre, que liderou uma parte expressiva das manifestações contra a presidente Dilma Rousseff] quanto aos grupos de esquerda. Estão todos em silêncio. Todo mundo finge que está numa página, mas está noutra. Eles vociferam contra corrupção, mas não convocam protestos.

    'O trabalho sujo [do governo Temer] é conveniente para os dois lados'

    A esquerda também critica, mas não convoca. Aparentemente, a esquerda acha que o mais conveniente é deixar o Temer sangrar, de maneira a favorecer uma eventual candidatura [do petista Luiz Inácio] Lula [da Silva] na próxima eleição [presidencial de 2018]. De quebra, essa omissão nas ruas acaba favorecendo a estratégia de Temer de enfraquecer a Lava Jato, o que favorece todos os envolvidos. O trabalho sujo é conveniente para os dois lados.

    Do lado da direita, está o temor de que qualquer grande protesto possa ser a favor de Lula e possa comprometer a agenda de reformas liberais impulsionada pelo governo Temer. O Vem Pra Rua rompeu isso [marcando para o dia 27 de agosto a Marcha Contra a Impunidade e pela Renovação]. Veremos com que empenho.

    O que diferencia este momento do momento em que milhares iam às ruas na época do impeachment?

    Pablo Ortellado No impeachment [de Dilma], havia lideranças comprometidas e com grande capacidade de convocatória. Não tenho a menor dúvida de que se houver empenho a insatisfação popular está aí, para ser usada.

    Porém, não basta as pessoas estarem insatisfeitas. É preciso empenho. E esse empenho não pode estar só nas redes. Estão todos indignados, mas ninguém age de maneira prática.

    Protestos, hoje, poderiam mudar o rumo de alguma decisão em Brasília?

    Pablo Ortellado Teriam de ser muito grandes. Pressão política, para ser efetiva, tem que ser muito grande. Em circunstâncias normais, uma boa mobilização já funciona. Só que, agora, é a própria sobrevivência dos políticos que está em jogo. Por isso, uma quantidade de manifestantes que, em outros casos, seria normal, desta vez não será suficiente. É preciso algo maior.

    E teria de ter algo que ocorresse simultaneamente nos dois campos [da direita e da esquerda]. Não precisaria ser necessariamente de maneira coordenada. Isso já seria pedir demais, não vai acontecer. Mas poderia, em tese, haver convocações simultâneas. Assim, se pressionaria o sistema político de maneira mais eficiente.

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