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Os 10 anos do iPhone: o que mudou desde o lançamento da Apple

Smartphone da empresa de Steve Jobs teve grande impacto econômico e cultural, criando facilidades e dilemas na vida contemporânea

     

    O iPhone começou a ser vendido às 18h de 29 de junho de 2007 nos Estados Unidos. O aparelho havia sido apresentado por Steve Jobs, fundador da Apple, meses antes, em janeiro, como um “iPod de tela grande com comandos de touchscreen, um telefone celular revolucionário e um equipamento inovador de comunicação via internet”.

    Dez anos e mais de 1 bilhão de unidades vendidas depois, o aparelho não só mudou a forma como as pessoas se comunicam como se tornou o ícone de um tempo — e inaugurou uma era em que quase metade da população mundial carrega no bolso um smartphone. De quebra, criou novos hábitos de consumo — de informação, imagens e até de chicletes — e fez da Apple a maior empresa do planeta em valor de mercado, à frente de gigantes petrolíferas que cresceram no século 20 no ritmo da Revolução Industrial.

    Ou seja: o lançamento do iPhone representou um fenômeno de grande impacto econômico e cultural. Ele abriu caminho para uma rotina comum a muita gente: hoje, você acorda com o despertador do celular, dá uma olhada nos e-mails, checa as redes sociais, vê a previsão do tempo antes de se vestir, chama um carro ou prevê quantos minutos vai levar para ir ao trabalho, tira uma foto e posta a imagem, lê jornal, troca mensagens com amigos e família, combina o almoço, o jantar, e risca as tarefas feitas no dia — tudo com o celular (ah, e ainda pode fazer uma ligação).

    Abaixo, o Nexo reconta a história do iPhone e destaca algumas mudanças produzidas após o lançamento do aparelho, há dez anos.

    O projeto Purple

    O iPhone começou a ser pensado em salinhas secretas a que poucos tinham acesso na sede da Apple, na Califórnia. O projeto chamava-se “Purple” (roxo, em inglês), ninguém sabe muito bem por quê — segundo um novo livro que conta a história do aparelho. “Criou-se uma panela de pressão com um bando de gente muito inteligente dentro e um ‘deadline’ impossível, e uma missão impossível, então ouvia-se que o futuro de toda empresa dependia daquilo”, diz Andy Grignon, engenheiro envolvido na criação do iPhone, sobre como foi criado o telefone multiuso.

    O projeto Purple começou em meados de 2005. Mas, segundo reportagem da revista “Wired” de 2008, Steve Jobs vinha alimentando a ideia de construir um telefone desde 2002, quando percebeu que as pessoas andavam carregando vários dispositivos ao mesmo tempo, como celular, tocador de MP3 e palmtop. Primeiro, então, em 2004, Jobs procurou a Motorola. A ideia parecia boa: juntar a fabricante do celular de maior sucesso à época, o Razr, com a Apple, fabricante do tocador de MP3 mais popular, o iPod. Foi lançado em setembro de 2005 o Rokr, que acabou sendo um fracasso total - ele era lento, pesado e feio.

    Durante o processo de produção do Rokr, Jobs já havia ficado insatisfeito com o produto e com a relação com a Motorola. Decidiu construir dentro da Apple seu próprio telefone. E deu a largada no projeto Purple após fazer uma parceria com a Cingular, uma empresa de telecomunicações que ajudaria no lançamento do iPhone. Jobs nomeou Scott Forstall, executivo da Apple, como chefe do projeto, e ele foi recrutando os engenheiros e designers, que trabalhavam em times isolados, sem saber exatamente a cara final do produto que estavam montando.

    Os primeiros protótipos deram muito errado. A três meses do anúncio que Jobs faria do iPhone em janeiro de 2007, o produto ainda estava longe de estar pronto. Foram consumidos US$ 150 milhões no processo. Mas com muitos gritos e pressão exercida por Jobs, o aparelho acabou mostrando-se viável a tempo. E Jobs pôde apresentar o vistoso iPhone, com o design feito por Jony Ive, que já era responsável pelo visual arrojado e clean do iPod e do iMac.   

    O lançamento, o marketing e recepção

    Em 2007, a Nokia era a principal produtora de telefones celulares no mundo. E o Blackberry era o smartphone mais popular, especialmente entre executivos, por permitir enviar e-mails sem que a pessoa tivesse que se sentar em frente a um computador. Mas desde que o iPhone foi anunciado, em janeiro daquele ano, gerou-se grande expectativa sobre o novo produto da Apple.

    A apresentação do aparelho feita por Steve Jobs num seminário da Apple na Califórnia virou notícia no mundo inteiro. Parte do sucesso da empresa devia-se ao carisma de Jobs e seu talento para o marketing. Ao anunciar produtos, ele subia ao palco de calça jeans e com um tom despojado e cool contava, sem modéstia, qual era a próxima revolução da tecnologia que havia planejado.

    Foto: Apple/Divulgação
    Steve Jobs na apresentação do primeiro iPhone, em 2007, na Califórnia
     

    No jornal “Folha de S.Paulo”, em 10 de janeiro daquele ano, dia seguinte ao anúncio de Jobs, a palavra “iPhone” aparece pela primeira vez na capa: “Apple lança o iPhone, celular com iPod”. O novo aparelho chamava a atenção por fazer ligações, tocar música, passar vídeos, tirar fotos e permitir conexão a internet. Quando o iPhone chegou efetivamente às lojas, em 29 de junho, como descreve outra reportagem da “Folha”, havia “uma nuvem de histeria” em torno do lançamento.

    Já o texto do correspondente nos Estados Unidos da revista inglesa “The Economist”  escreveu sobre o fervor “religioso” que cercava novo iPhone. O repórter fez parte da fila em uma das 164 lojas que a Apple tinha à época nos EUA e conta como funcionários começaram uma contagem regressiva pouco antes de abrirem as portas aos consumidores. Os primeiros compradores do iPhone eram celebrados como heróis.

    O site Cnet, conhecido pela avaliação de produtos tecnológicos, republicou a resenha do iPhone feita na época, o veredito, então, foi:  “Apesar da falta de algumas importantes funções, uma rede de dados lentos e uma qualidade de ligação que não entrega o que promete, o iPhone da Apple é um novo marco na integração de um telefone celular e um tocador de MP3”. O aparelho vendeu 6 milhões de unidades no mundo no primeiro ano de mercado. No Brasil, o iPhone só chegou às lojas mais de um ano depois, em 28 de setembro de 2008.

    A mudança cultural

    Uma das grandes qualidades do iPhone não foi exatamente ter inventado, por exemplo, a tela touchscreen, mas foi o fato de reunir em um só aparelho uma série de tecnologias que já existiam de forma esparsa em outros equipamentos.

    Assim, se até o lançamento do iPhone a conexão à internet em aparelhos móveis ficava restrita a executivos que usavam Blackberry, o aparelho da Apple tratou de massificar o acesso à rede. Com uma tela sensível ao toque, imagens de alta qualidade e um sistema de operação amigável mesmo para quem não era ligado em tecnologia, o iPhone colocou a internet nos bolsos e ao simples alcance dos dedos das pessoas.

    Isso mudou o jeito como as pessoas passaram a lidar com o trabalho e a tecnologia. Encerrado o expediente, o dono de um iPhone podia continuar trocando e-mails e conferindo relatórios pelo celular. A vida off-line passou a ser cada vez mais rara. E a facílima operação do aparelho pelo simples toque tornou-o acessível para crianças, formando gerações conectadas antes mesmo de saber falar. Hoje em dia, um bebê de 17 meses consegue escolher uma música no iPhone sem dificuldade.

    Com as novas versões e atualizações do iPhone, que passaram a ser lançadas quase que anualmente, o aparelho foi ficando cada vez mais funcional — e parecendo indispensável aos usuários. Em 2008, a Apple lançou a loja de aplicativos, que fez com que os iPhones não apenas pudessem mandar e-mails ou conferir a temperatura do dia — por meio dos programas que já vinham instalados de fábrica no aparelho —, mas também pudessem fazer reservas e avaliar um restaurante, observar as estrelas, comprar e ler livros, ver filmes ou simular um instrumento musical. Além de gerar todo um novo mercado: o de aplicativos lançados por desenvolvedores independentes pelo mundo. Quando foi ao ar, a App Store tinha 500 aplicativos; hoje, tem mais de 2 milhões. 

     

    Além disso, o iPhone teve grande impacto na cultura visual. Como lembra o banco de imagens Shutterstock em uma retrospectiva sobre as tendências lançadas pelo aparelho da Apple, em uma década muita coisa mudou. A qualidade das câmeras acopladas ao iPhone transformou todo mundo em fotógrafo amador. Fotos e vídeos passaram a ser feitos na vertical, alinhados com a orientação do aparelho. Selfies viraram uma nova forma de expressão. E até mesmo artistas reconhecidos, como David Hockney, passaram a fazer desenhos com o telefone celular.  

    O iPhone teve ainda efeitos inesperados na economia mundial: ele levou a uma queda no consumo de chicletes, segundo o diretor-geral da Mondelez, conglomerado multinacional de alimentos. É que as pessoas na fila de espera do supermercado passaram a olhar para o celular — e não mais pegar por produtos por impulso antes de fechar a compra no caixa.  

    A maior empresa do mundo

    A Apple já vinha bem desde o lançamento do iMac e do iPod, no começo dos anos 2000, recuperando a imagem da empresa, que, nos anos 1990, quase faliu. Mas é o iPhone que turbina em escala exponencial os lucros da companhia de Steve Jobs.

    O aparelho é considerado como um dos produtos mais lucrativos da história. Ele fez da Apple, atualmente, a empresa mais valiosa do mundo, à frente de gigantes tradicionais como Coca-Cola, Disney, Toyota e McDonald’s — e à frente também de gigantes da tecnologia, como Google e Facebook.

    US$ 19 bilhões

    foi o que a Apple faturou em 2006, antes do iPhone

    US$ 216 bilhões

    foi o que a Apple faturou em 2016

    63%

    é quanto o iPhone representa no faturamento da Apple

    O grande trunfo da Apple é que, mesmo com a crescente concorrência de smartphones que operam com o sistema Android, desenvolvido pelo Google, ela continua sendo a empresa que gera mais lucros. No mundo, atualmente, 86% dos celulares usam Android, e apenas 13% usam o sistema iOS, da Apple.

    No entanto, 83% do lucro gerado no mercado de smartphones no mundo é da empresa criada por Steve Jobs, segundo dados compilados em artigo da revista “Forbes”. Enquanto os aparelhos que usam Android, fabricados por empresas como Samsung e Huawei, são os mais vendidos em números absolutos — e chegam a representar 95% do mercado em países emergentes como o Brasil—, o iPhone da Apple tem uma clientela fiel que paga preços consideravelmente mais altos por seus aparelhos, rendendo mais lucro para os acionistas da empresa.

    Dilemas contemporâneos

    Ao mesmo tempo em que o iPhone inaugurou uma era de facilidades e conveniências nas tarefas diárias, o aparelho e seus similares trouxeram uma nova discussão sobre privacidade e segurança. Isso porque os usuários do smartphone passaram a ter todos os seus movimentos e informações registrados no telefone — e ficaram mais expostos do que nunca à ação de hackers e governos.

    Em março de 2016, a Apple entrou em uma disputa legal com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que solicitava à empresa a quebra de sigilo das informações de um iPhone para resolver um caso de terrorismo. A Apple se negou a fazê-lo, argumentando que poderia abrir uma porta à vigilância ilegal de dados dos usuários de iPhone por parte do governo e mesmo de agências de espionagem estrangeiras.

    Outro problema gerado pela generalização do uso de smartphones impulsionada pela Apple é a superexposição da vida privada — que afeta a relação de pais e filhos, por exemplo. A facilidade de uso dos telefones criou ainda um novo transtorno, a dependência dos celulares — que já é tratada por psicólogos e combatida por organizações como a Time Well Spent, de um ex-funcionário do Google.  

    O smartphone idealizado por Steve Jobs também ajudou a inventar um problema ortopédico: o “text neck” (“o pescoço de texto”, ou a postura encurvada que as pessoas fazem para conferir o celular). Quando inclinamos a cabeça cerca de 60º para frente para olhar o telefone, colocamos uma pressão extra de até 30 kg no pescoço - podendo causar dores na região ou mesmo na coluna, nos braços, com casos mais extremos de inflamação grave nos nervos.

     

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