Por que o crack não é o único problema de quem está na cracolândia

Mais de 30% dos frequentadores da região não usam a droga, aponta pesquisa da ONU encomendada pelo governo do Estado de São Paulo

 

Dependentes químicos, usuários de crack, “zumbis” ou “cracudos” são alguns dos termos utilizados, frequentemente de forma pejorativa, para se referir genericamente à população de mais de 1.000 pessoas que se reúne na cracolândia, no centro de São Paulo.

Uma pesquisa encomendada pela Coordenadoria de Políticas sobre Drogas da Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo mapeou quantos e quem são esses indivíduos. Ela indica que nenhum dos termos acima capta completamente a realidade do local: mais de 30% dos frequentadores não usam crack, e 13% nem ao menos bebem.

Divulgado no início de junho de 2017, o levantamento é o retrato mais atualizado do público da cracolândia. Ele foi executado pelo Pnud (Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas) antes da grande operação policial no local no final de maio.

Além de trazer informações sobre o uso de drogas, ele aponta outras vulnerabilidades de quem é atraído à cracolândia. Entre elas estão nível educacional baixo, ausência de fontes de renda, de moradia e de redes de apoio social, como a familiar.

Como foi feita a pesquisa

Foram realizadas duas pesquisas na cracolândia, uma em 2016 e outra em 2017. Como o local de concentração de pessoas muda com o tempo, o perímetro foi adaptado em cada ano.

Perímetros das pesquisas

 

As contagens das pessoas na cracolândia foram realizadas por dois pesquisadores em seis dias. Eles usaram um contador manual portátil que mantinham no bolso de seus jalecos.

Para detalhar o perfil dos frequentadores, foram realizadas entrevistas com 139 pessoas em cada um dos dois anos. Pelos cálculos do estudo, esse era um número representativo em 2016. Pessoas agitadas ou com comportamento agressivo, no pico do efeito do crack ou usando a droga, não foram incluídas.

709

Pessoas foram contadas na cracolândia em 2016

1.861

Pessoas foram contadas na cracolândia em 2017

Quem são os frequentadores da cracolândia

O crack não é usado por todas as pessoas que se reúnem na cracolândia. Cerca de 33,5% não usam a droga, aponta a pesquisa. Por outro lado, 20,6% usam tanto crack quanto álcool e cocaína.

Nem todos na cracolândia usam crack

 

Os dados de 2017 apontam que a maioria dos frequentadores é formada por homens (63,3% do total), mas houve um forte aumento na proporção de mulheres durante o período das duas pesquisas. Elas eram 16,8% em 2016 e se tornaram 34,5% em 2017. Quase metade das pessoas não chegou a completar o primário. E 10,4% têm alguma deficiência física.

Maioria de homens com baixa escolaridade

 
 

De onde são os frequentadores

As pesquisas indicam que, apesar de se concentrar no centro de São Paulo, a cracolândia não é frequentada apenas por quem é da cidade. Segundo informações de 2017, 12% dos frequentadores vêm do interior do Estado, 31% de outros Estados, e 3% de outros países.

Auxiliar pessoas a voltarem a seus locais de origem é uma das estratégias utilizadas desde 2003 pela prefeitura para tentar reduzir a concentração no local. Em entrevista concedida em junho de 2017 ao portal UOL, o secretário de Assistência Social, Filipe Sabará, afirmou que a prefeitura considera ampliar o programa.

Mais de 40% não são da cidade

 

Uma proporção de mais de 33% daqueles que começaram a usar drogas viveu por pelo menos um mês na rua antes de aderir ao hábito. O resto começou a usar drogas antes mesmo de viver na rua. A maior parte das pessoas tinha vivido na própria casa ou na de familiares antes de ir para a cracolândia.

Situação anterior

 

As vulnerabilidades dos frequentadores

Os frequentadores da cracolândia são vulneráveis a uma série de problemas que não estão necessariamente ligados ao uso abusivo de drogas.

A maioria vive em situação de rua e troca sexo por drogas ou dinheiro. Cerca de 6% têm HIV, bem acima da proporção de 0,39% encontrada na população brasileira em geral.

Situação de rua, violência, prostituição e doenças

 
 
 

Qual o apoio aos frequentadores

Quando questionados “com quem você poderia contar?”, 57% dos participantes afirmaram que recorreriam a suas famílias. Apesar disso, 44,7% não mantêm contato com essa rede de apoio, e 42% dizem não possuir indivíduos a quem recorrer. Quase 36% das pessoas afirmam que contam com serviços sociais, de ONGs ou do Estado, por exemplo.

Serviços sociais são fonte de apoio

Mais da metade de quem frequenta a região não tem nenhum tipo de renda. Uma minoria exerce atividades remuneradas e 22,7% dependem de programas de transferência, como o Bolsa Família.

Programas de transferência são principal fonte de renda

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto trazia um gráfico sobre nível educacional de frequentadores da cracolândia com dados de 2016, e não 2017, como indicado. As informações foram corrigidas às 17h do dia 29 de junho de 2017.

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