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Como notícias falsas e curtidas artificiais se tornaram um mercado mundial

Grandes eventos políticos como Brexit, eleições americanas e o impeachment de Dilma foram marcados por distorções. Há serviços especializados em manipular o debate on-line

 

As redes sociais estiveram entre as bases dos protestos da Primavera Árabe, que se iniciaram em 2010, derrubaram regimes e reconfiguraram a política no Norte da África e no Oriente Médio. O evento histórico é um exemplo do potencial que têm de viabilizar a troca de informações, o debate e a organização entre cidadãos.

Esses ambientes aparentemente livres e isentos têm, no entanto, sido borrados por uma série de fatores que vão da profusão de notícias falsas com títulos sensacionalistas ao destaque artificialmente concedido a grupos e links via perfis comandados por robôs.

As mentiras reforçam a visão de mundo dos leitores com o objetivo principal de ganhar tráfego e vender anúncios. A campanha presidencial americana de 2016, por exemplo, foi marcada por notícias falsas, como a de que o casal Clinton comandava uma rede de prostituição infantil. A informação levou um homem a abrir fogo em uma pizzaria em Washington.

Uma reportagem de novembro daquele ano do site Buzzfeed mostrou como um grupo de jovens da cidade de Veles, na Macedônia, foi um fator de influência ao criar mais de 140 sites pró-Trump, surfando no acirramento da disputa.

O conteúdo falso era compartilhado massivamente no Facebook, gerando tráfego e ganhos financeiros com anúncios via Google AdSense.

Isso quer dizer que não se tratavam de anunciantes que fechavam acordos diretamente com sites de notícias falsas cujo conteúdo editorial desejavam propagar, mas que o faziam através da ferramenta do Google, que remunera de acordo com o tráfego.

De acordo com um levantamento do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas de Acesso a Informação da USP, na semana em que a Câmara autorizou a abertura do impeachment da ex-presidente Dilma Roussef, em abril de 2016, três das cinco matérias mais compartilhadas no Facebook no Brasil eram falsas. Entre elas estava uma intitulada “Presidente regional do PDT ordena que militância pró-Dilma vá armada no domingo: 'Atirar para matar'”.

Profissionais do mercado publicitário consultados pelo jornal “Folha de S.Paulo” para reportagem publicada em fevereiro de 2017 estimaram que o site de notícias falsas Pensa Brasil, sediado em Poços de Caldas, em Minas, faturava em fevereiro de 2017 de R$ 100 mil a R$ 150 mil por mês com a venda de anúncios.

Como o foco é obter tráfego via sensacionalismo, notícias com orientações políticas opostas são criadas, sem se ater necessariamente a uma agenda específica. Independentemente disso, contribuem para afastar a política da realidade.

O mercado da manipulação

Além desse empreendedorismo de sites de notícias falsas focados em tráfego, há também no mercado uma gama de ferramentas com poder de alterar o foco do debate e da opinião pública de forma coordenada.

Isso pode ser feito não só com notícias inventadas, mas também inflando páginas de discussão, tópicos ou perfis via seguidores, comentaristas e curtidas artificiais. Essas estratégias aumentam, por sua vez, a visibilidade de páginas para o público de carne e osso, que vota e protesta. O objetivo é fazer o internauta comum acreditar que se trata de um movimento natural e embarcar nele.

Um estudo publicado no dia 19 de junho de 2017 como parte do Projeto de Pesquisa em Propaganda Computacional, ligado à Universidade de Oxford, destaca informações anteriormente divulgadas pelo jornal “O Estado de S. Paulo” segundo as quais perfis robôs do Twitter, ou seja, contas artificiais, foram usados na campanha presidencial de 2014 tanto pela candidatura de Dilma Rousseff (PT) quanto Aécio Neves (PSDB) para promover seus candidatos. O buzz em volta de cada um dos dois era inflado artificialmente.

Após as campanhas, 16 milhões de perfis robôs de Aécio se juntaram ao grupo Revoltados On-line, no Facebook, e 4 milhões ao Vem Pra Rua. Os dois grupos faziam oposição a Dilma e comandavam as manifestações que acabaram por ajudar a derrubar a petista. Páginas pró-Dilma e PT, por outro lado, ganharam 3 milhões de robôs.

O trabalho também cita uma empresa chamada Brasil Liker, que vende curtidas no Facebook a partir de perfis registrados no Brasil. Cinquenta curtidas custam R$ 4,99, e 3.000, R$ 200. “Esses números dão uma ideia de como esses serviços podem ser baratos, especialmente quando automatizados ou subcontratados em outros países, como China ou Índia”, diz o estudo.

Regimes políticos também fazem uso desses intrumentos para manipular o debate público a seu favor. O centro de pesquisa publicou relatórios focados em outros países, como a Rússia. De 1,3 milhão de contas publicando regularmente sobre política no Twitter entre 2014 e 2015 na língua russa, 45% eram robôs. O governo Vladimir Putin os usava a seu favor.

Publicado em 13 junho de 2017 pela empresa de cibersegurança Trend Micro, o relatório “A máquina de notícias falsas” detalha algumas das ferramentas e táticas à disposição no mercado. O documento foi citado em junho de 2017 pela revista “MIT Technological Review”, ligada à universidade americana Massachusetts Institute of Technology.

Os pesquisadores analisaram empresas que atuam no mercado de criação e difusão de notícias falsas e inflação de páginas e links em Rússia, China, países do Oriente Médio e de língua inglesa. Além de grupos de interesse político e governos, essas ferramentas também podem ser usadas por empresas e artistas interessados em se promover.

Exemplos de ferramentas de manipulação

O site gratuito classtools.net permite criar um link com uma chamada de notícia falsa que pode ser compartilhada nas redes. Ele é citado como exemplo pelo relatório de como pode ser simples criar elementos de confusão.

Serviços mais profissionalizados também estão disponíveis. Na China é possível pagar cerca de US$ 15 ao serviço Xiezuobang por um artigo de 500 a 800 palavras que será divulgado em sites virais. Os textos buscam legitimidade com frases como “segundo nossas investigações jornalísticas”.

O serviço Boryou Public Opinion Influencing System monitora 3.000 sites e fóruns e afirma ser capaz de influenciá-los com postagens manuais e automáticas.

A companhia ftx9 contata usuários influentes das redes sociais Weibo e WeChat para promover conteúdo de interesse do cliente. A postagem de uma celebridade do WeChat com 10,7 milhões de seguidores custa, por exemplo, US$ 69,5 mil -o relatório não deixa claro se isso inclui a divulgação de notícias falsas ou apenas algo mais brando, como o endosso de uma linha de pensamento ou produto.

O mercado chinês também possui serviços que permitem manipular enquetes on-line com votos em determinada direção. O serviço Weibosu vende 5.000 votos na Weibo por US$ 51.

Na Rússia, o serviço SMOService promete fazer com que um vídeo apareça na página principal do YouTube por dois minutos a um custo de US$ 621. O serviço de língua inglesa Quick Follow Now promete que 2.500 seguidores retuitem um link a um custo de US$ 25.

Com base nos dados obtidos, os pesquisadores criaram algumas simulações de estratégias para, por exemplo, inflar campanhas eleitorais ou instigar protestos. A pesquisa falha em especificar, no entanto, a qual país cada uma das simulações se refere.

Os exemplos são, portanto, anedotas que apontam algumas das ferramentas disponíveis no mercado e as estratégias que poderiam ser construídas a partir delas.

Como inflar uma campanha

Se um país propusesse um referendo facilitando a venda de armas para uso pessoal, por exemplo, uma entidade a favor da medida teria uma série de ferramentas a seu alcance.

Por exemplo: contratar a criação de sites de notícias falsas focados no tópico de interesse a um custo de US$ 3.000 cada. “Pelo menos cinco websites que se diferenciam entre si podem ser comprados para prover um semblante de confiabilidade para o leitor.”

Popular os sites com notícias falsas pró-venda de armas, dizendo, por exemplo, que pesquisas apontam que a venda de armas traria maior segurança para quem não é criminoso, teria um custo de US$ 5.000 cada. Mantê-los com conteúdo atualizado e funcionando ao gosto do cliente custaria US$ 5.000 por mês, ou US$ 6.000 por ano.

Promover esses sites em plataformas como YouTube custaria cerca de US$ 3.000 por mês. A campanha também poderia comprar repostagens em mídias sociais e comentários positivos ao conteúdo promovido. Em paralelo, seria possível comprar comentários negativos em páginas de instituições a favor do desarmamento.

Para funcionar, uma rede de distribuição desse conteúdo deveria divulgar não só notícias falsas, mas também verídicas, “borrando a linha entre fato e ficção”. Um serviço do tipo custaria cerca de US$ 10 mil por mês. Ele poderia trazer uma mistura de pesquisas inventadas com falas reais de políticos apoiadores da facilitação da venda de armas.

Com isso, a rede de distribuição ganharia certa legitimidade. Assim que a data do referendo se aproximasse, a campanha poderia surfar na respeitabilidade construída e aumentar o volume de notícias falsas veiculadas.

Como instigar um protesto de rua

Segundo o relatório, seria possível instigar protestos de rua, pela revogação do mandato de um político, por exemplo, através de uma custosa campanha on-line. Ela envolveria, por exemplo, inflar 20 grupos de discussão contrários à visão do político em questão com mil infiltrados, a um custo de cerca de US$ 40 mil.

Serviços de produção de conteúdo falso para incitar a ideologia dos grupos poderiam ser comprados, assim como curtidas que ampliariam o alcance do conteúdo: US$ 6.000 seriam o suficiente para comprar 40 mil curtidas.

Comprar 10 notícias falsas sobre, por exemplo, um caso extraconjugal inventado, promovidas através de 50 mil tuítes e curtidas de 100 mil visitantes, custaria US$ 27 mil. Viralizar 50 vídeos relacionados ao affair fictício no Youtube custaria US$ 25 mil.

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