A identidade de Banksy pode ter sido revelada. Para além do nome, por que sua obra importa

Artista que surgiu nas ruas de cidade britânica e se tornou venerado no mundo todo tenta se manter anônimo há mais de duas décadas

    Temas

    Em uma conversa informal, o DJ, produtor e grafiteiro conhecido como Goldie fez uma declaração que serve agora como mais uma evidência para quem se arrisca há mais de duas décadas a adivinhar a identidade do artista inglês Banksy, até hoje anônimo. A fala aconteceu em um podcast chamado “Distraction Pieces”. Em meio a um assunto sobre a comercialização do grafite e como “em seu centro” essa arte ainda não é compreendida, ele diz (ouça o trecho em inglês):

    “Me dê uma bubble letter [fonte comum no grafite] e coloque em uma camiseta, aí escreva ‘Banksy’ e estamos feitos. Agora podemos vendê-la… Sem ofensas ao Robert, eu acho ele um artista brilhante. Acho que ele mudou a arte de cabeça para baixo”

    Ao referir-se a Banksy como Robert, o DJ reforçou suspeitas de que o artista seria Robert del Naja, músico e vocalista da banda Massive Attack. O fato de, logo após, mudar o assunto de forma oscilante e repentina também sugere que Goldie tenha notado seu deslize.

    A relação de Goldie com Robert del Naja tem origem em Bristol, cidade inglesa onde del Naja nasceu e ambos já fizeram trabalhos de grafites no início dos anos 1990. Naja, além da música, também se dedicou à arte e ao grafite assinando suas obras como “3D” (incluindo ícones para os álbuns da sua banda).

    Quem é Banksy

    Coincidência ou não, os primeiros trabalhos de Banksy apareceram em Bristol, cidade que ficou famosa pela arte de rua, hoje promovida pelo turismo local.

    Inspirado pelo grafiteiro francês Blek le Rat, começou seu trabalho fazendo stencil [técnica que consiste na aplicação de tinta sobre uma placa recortada] na década de 1990. Além do estilo distinto e reconhecível, ganhou fama por suas obras sarcásticas, com temas de críticas sociais e políticas, usualmente contra guerra e o capitalismo.

    O artista já gravou seus desenhos em paredes de diversos países do mundo – Austrália, Estados Unidos, Israel, Jamaica, Canadá, etc–, fez instalações, dirigiu um filme (“Saída pela loja de souvenirs”, de 2010), inaugurou na Inglaterra um parque temático chamado Dismaland ("familiar para anarquistas principiantes”), bem como um hotel (com ares de museu e galeria) em frente a um muro que separa os territórios de Israel e Palestina.

    Sua popularidade e a transformação do seu status de vândalo a ícone de um movimento cultural gerou a criação do termo “efeito Banksy” para se referir à maior aceitação do grafite no espaço urbano e como peça de valor em galerias.

    Sobre as obras Banksy, o curador do Museu de Arte Moderna de São Francisco, John Zarobell, disse: "Ele mistura stencil, escrita à mão livre e depois joga tinta na parede, como [o pintor americano] Jackson Pollock. Há um nível de arte de rua, feito por jovens com tinta spray, e o nível dele [Banksy], que tem um efeito pictório bastante desenvolvido”.

    A declaração de Zarobell foi registrada no documentário “Saving Banksy”, que retrata o frenesi em torno do artista e da comercialização da suas obras – recortadas das paredes – sem sua autorização. Assim, alguns de seus trabalhos já foram vendidos por milhões para celebridades como Brad Pitt e Angelina Jolie.

    Em resposta, Banksy retratou um leilão com a frase “Eu não acredito que vocês, imbecis, realmente compram essa merda”.

    Banksy: “Eu não acredito que vocês, imbecis, realmente compram essa merda”
    “Eu não acredito que vocês, imbecis, realmente compram essa merda”

    No rastro de Banksy

    O anonimato de Banksy acabou por atrair ainda mais atenção sobre seu trabalho e sua obscura figura. Em 2008, o jornal britânico “The Mail On Sunday” publicou o que acreditava ser a descoberta da identidade do artista. Ele teria sido identificado em uma foto tirada na Jamaica em 2004 como sendo Robin Gunningham, um homem de 34 anos que demonstrara grande talento para artes durante o colégio. À época, porta-vozes de Banksy responderam como sempre respondem a essas suspeitas: não confirmando, nem negando.

    Em 2016, o jornalista Craig Williams tornou pública sua investigação sobre Banksy em seu blog. Partindo de uma teoria que relacionava aparições de stencils de Banksy em cidades que a banda Massive Attack se apresentava, ele constatou que o mesmo aconteceu em São Francisco (EUA), Boston (EUA) e Toronto (Canadá). 

    Ele lembrou o fato de que tanto del Naja quanto Banksy já mencionaram existir uma amizade entre eles. Robert del Naja, “uma grande influência” de Banksy, aparece no documentário do artista em 2010 falando sobre a relação entre eles em Bristol. Banksy assina o prefácio do livro “3D & the Art of Massive Attack”, de del Naja, e diz: 

    “Quando eu tinha uns 10 anos de idade, um garoto chamado 3D estava pintando muito as ruas. 3D parou de pintar e formou a banda Massive Attack, o que pode ter sido uma coisa boa para ele, mas foi uma grande perda para a cidade”

    Banksy

    Prefácio do livro “3D & the Art of Massive Attack”

    Williams não chega a uma conclusão apontando diretamente del Naja como Banksy. O jornalista considera plausível, inclusive, a teoria de que ele não seria uma só pessoa, mas sim um grupo de arte e ativismo. O uso da técnica stencil, que não deixa evidente um “traço” de artista específico, seria um facilitador para isso.

    O jornalista encerra seu argumento dizendo que “talvez a afirmação de que Banksy é apenas uma pessoa não seja a mais adequada”.

    “Em vez disso, ele é um grupo que, ao longo dos anos, seguiu o Massive Attack por aí e pintou paredes em seu tempo livre. E, talvez, encabeçando esse tal grupo esteja del Naja. Um artista multidisciplinar à frente de um dos grupos seminais na história recente da música britânica, ao mesmo tempo sendo o artista de rua mais venerado do planeta. Isso seria legal.”

    Craig Williams

    Jornalista

    O que ele (?) já fez

     

    “Flower Chucker” – Belém, Palestina

     

    “No Future Girl Balloon” [Sem futuro] – Southampton, Inglaterra

    'No future girl balloon'

     

    “If graffiti changed anything it would be illegal” [Se grafite mudasse alguma coisa, ele seria ilegal] – Londres, Inglaterra

    'If graffiti changed anything'

     

    “I don’t believe in Global Warming” [Eu não acredito em aquecimento global] – Londres, Inglaterra

    'I don't believe'

     

    “EU star” [Estrela da União Europeia] – Dover, Inglaterra

    'EU star'

     

    “Cave painting” [Pintura rupestre] – Londres, Inglaterra

    'Cave painting'

     

    “Girl with a balloon” [Garota com balão] – Londres, Inglaterra

    'Girl with a balloon'

     

    “Follow yours dreams ‘Cancelled’” [Siga seus sonhos ‘Cancelado’] – Boston, EUA

    'Follow your dreams'
     
     

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