O mapa que mostra como a Amazônia está se tornando uma floresta mais rala

Pequenas queimadas, proximidade com áreas abertas, caça e corte seletivo diminuem a biodiversidade, mesmo onde a mata continua de pé

Com aumento de 30% no ano, o desmatamento da floresta Amazônica chegou a 8.000 quilômetros quadrados em 2016. A retirada da vegetação colabora com a emissão de gases do efeito estufa e diminui drasticamente a biodiversidade.

Os dados de desmatamento dizem respeito, no entanto, apenas às áreas que perderam completamente a cobertura vegetal. Logo, eles não captam a degradação da mata pela caça ou por incêndios de pequeno e médio porte, pela exploração seletiva de madeira, pela fragmentação e pela proximidade a áreas abertas.

Há locais que, apesar de não ficarem completamente sem árvores, passam a ter uma floresta mais rala e seca devido a fatores como esses. Como a degradação afeta uma área total maior, seus efeitos negativos são comparáveis aos do desmatamento total. É para esse tipo de problema que a plataforma Floresta Silenciosa chama atenção.

Lançada na terça-feira (20), ela foi criada pela a startup brasileira de jornalismo Ambiental Media em parceria com a Rede Amazônia Sustentável, que reúne mais de 30 instituições, entre elas Embrapa, Instituto Ambiental de Estocolmo (Suécia) e Universidade de Lancaster (Reino Unido). O foco é no Estado do Pará, que concentra 25% da Amazônia brasileira e enfrenta projetos de redução de áreas de proteção.

A plataforma traz um mapa dividido em polígonos entre 20 km² a 50 km² que mostra o nível de perda de biodiversidade ocasionado em adição ao desmatamento. Em entrevista concedida ao Nexo, a pesquisadora da Embrapa Joice Ferreira explica que os polígonos representam a perda adicional de biodiversidade causada pela degradação, ou seja, aquela que é suplementar à que ocorre apenas pelo desmatamento.

Por exemplo: se um polígono teve desmatamento de 30% de sua área, e não perdeu 30%, mas 50% de sua biodiversidade, isso indica que mesmo as áreas que continuaram com floresta foram afetadas, e ele teve uma perda de biodiversidade de 20 pontos percentuais adicionais.

Por isso, a plataforma serve para defender a ideia de que, além de manter a cobertura florestal, é importante tomar medidas para que a floresta não se torne mais pobre.

A Floresta Silenciosa também inclui outras informações, como um mapa dividido não em pequenos polígonos, mas cinco grandes subdivisões do Estado. Na região do Tapajós, a maior delas, a degradação corresponde por 55% da perda de biodiversidade.

Há também um mapa que destaca fatores que contribuem para a degradação, como estradas, fogo e madeireiras, além de reportagens que abordam os problemas.

Como a biodiversidade foi medida

Os dados vêm de um estudo publicado em junho de 2016 na revista “Nature”. Chamado “Distúrbio antropogênico em florestas tropicais pode duplicar a perda de biodiversidade por desflorestamento”, ele criou um método de cálculo chamado “Déficit de Valor de Conservação”. Como é impossível acompanhar todas as espécies, como parâmetro foram utilizadas espécies de árvores, aves e besouros, contabilizadas em áreas de floresta intacta e comparadas com áreas degradadas.

O estudo coletou material em 381 pontos da floresta no Pará. Foram levadas em conta 1.538 espécies de plantas, 156 espécies de besouros e 460 espécies de aves ao todo. No total, 500 áreas privadas foram visitadas.

“Descobrimos que, apesar da degradação não ter impacto visual tão drástico [já que a floresta continua existindo], como ela ocorre na Amazônia inteira — até mesmo na unidade de conservação — o impacto para a biodiversidade é tão grande quanto o do desmatamento”

Joice Ferreira

Pesquisadora da Embrapa e uma das coordenadoras da Rede Amazônia Sustentável

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