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Lúcio Funaro: o delator do mensalão que agora começa a falar na Lava Jato

Amigo de Eduardo Cunha desde a década de 1990, corretor faz ligação direta entre Temer e esquemas de corrupção no Fundo de Investimentos do FGTS em delação

     

    Quando o Ministério Público fechou o primeiro acordo de delação premiada do caso mensalão, em 2005, com o corretor de câmbio Lúcio Bolonha Funaro, incluiu a condição de que ele deveria se comprometer a não cometer novos crimes. Doze anos depois, os dois lados participam novamente de uma tentativa de acordo semelhante, agora na Lava Jato.

    Funaro prestou depoimento à Polícia Federal na quarta-feira (14) em que acusou diversos nomes do PMDB, incluindo o presidente Michel Temer, de desvios de dinheiro e corrupção passiva em esquemas com a Caixa Econômica Federal.

    Ele está preso preventivamente desde julho de 2016, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Sépsis, um desdobramento da Lava Jato, e foi em busca de empresários e operadores de esquemas de corrupção envolvendo o Fundo de Investimentos do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço), o FI-FGTS.

    O corretor é apontado pelas investigações como o principal operador não só do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, também preso na Lava Jato, mas como peça-chave de outros esquemas ilegais do PMDB na Câmara.

    A suspeita é de que o esquema funcionava da seguinte maneira: políticos indicavam diretores para a Caixa Econômica Federal. Esses diretores, por sua vez, faziam liberações de financiamentos de dinheiro do FI-FGTS para determinadas empresas em troca de propina. O dinheiro da propina era, então, repassado ao político.

    Funaro e a Lava Jato

     

    A participação de Funaro em esquemas de corrupção do PMDB apareceu em julho de 2016 com a delação do ex-vice-presidente da Caixa Fábio Cleto - que foi indicado por Cunha ao cargo.

    Cleto fazia parte do Comitê de Investimento do FI-FGTS, composto por 12 membros e administrado pela Caixa. Ele tinha influência no grupo para viabilizar a aprovação de repasses do fundo a empresas pré-determinadas por Cunha.

    Segundo Cleto, o deputado depois era pago por essas empresas beneficiadas. Funaro teria a responsabilidade de receber o dinheiro e lavá-lo antes de repassar a membros do PMDB - incluindo Cunha.

    Por que ele é um problema para Temer

     

    Em depoimento à Polícia Federal no inquérito em que Temer é diretamente investigado, Funaro afirmou que o presidente da República fez “orientações” e “pedidos” sobre duas dessas “operações” no FI-FGTS. Os valores pagos pelas empresas beneficiadas - BR Vias (dona da Gol) e LLX (de Eike Batista) - chegaram a aproximadamente R$ 20 milhões, segundo Funaro.

    Esse dinheiro teria sido então usado para financiar campanhas políticas do PMDB, como a de Temer à vice-presidência em 2014, a de Paulo Skaf ao governo de São Paulo em 2014 e de Gabriel Chalita à prefeitura de São Paulo em 2012 - as duas últimas a pedido do presidente.

    O Ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Moreira Franco, e seu antecessor, Geddel Vieira Lima, também teriam recebido comissões pagas por empresas a Funaro por operações feitas no FI-FGTS.

    Além disso, o ex-diretor do grupo Hypermarcas Nelson Mello afirmou em denúncia de 2016 que Funaro, ao lado de outro empresário, Milton Lyra, era responsável por pagar propinas da empresa a diversos parlamentares do PMDB. Entre eles Cunha, Renan Calheiros, Romero Jucá e Eunício de Oliveira. Todos os peemedebistas negam ilegalidades. Lyra também nega e afirma que nunca agiu “em nome de qualquer parlamentar”.

    À polícia Furaro entregou registros de ligações de Geddel do início de junho. Nelas, o corretor diz que o ex-ministro tentava sondá-lo se estava mesmo disposto a fazer uma delação premiada.

    Como um corretor é usado por políticos

    Em geral, a figura do corretor - ou doleiro - é um elo de ligação entre todos os grandes casos de corrupção na política brasileira. Ele é o responsável por fazer o dinheiro recebido por políticos chegar ao exterior livre de declarações às autoridades fiscais sobre sua origem.

    Funaro, contudo, sempre rejeitou o rótulo de doleiro. Desde os 16 anos (hoje tem 42) trabalha no mercado financeiro e ficou milionário apostando na bolsa de valores. Uma de suas atividades era fazer operações de câmbio, especulando com a alta ou a queda de moedas estrangeiras.

    Funaro conheceu Cunha ainda na década de 1990, quando o ex-deputado era presidente da Companhia Estadual de Habitação do Rio de Janeiro. Foram apresentados por Albano Reis, então presidente da Assembleia Legislativa do Rio e cujos filhos eram amigos pessoais do corretor, segundo a revista “Piauí”.

    Desde então a relação entre ambos foi bastante próxima. Funaro, por ser conhecido tanto no meio empresarial, prestando seus serviços de corretor a empresas, quanto no meio político, era um bom interlocutor entre os dois mundos.

    Chegou a ser corretor também de fundos estatais, e por meio da amizade de longa data com Cunha acabou se tornando peça importante na corrupção do PMDB, ora atuando como operador  - como no caso do FI-FGTS -, ora como agente central de aparelhamento de órgãos estatais para facilitar contratos a empresas e receber dinheiro por isso - uma delas, a JBS, como delatou Joesley Batista à Polícia Federal sobre a ação de Funaro e Cunha no Ministério da Agricultura.

    O papel de Funaro no mensalão

     

    O mensalão foi o primeiro grande escândalo do governo petista, quando Luiz Inácio Lula da Silva ainda estava em seu primeiro mandato, em 2005. Lúcio Funaro foi o primeiro delator dessa investigações contra a corrupção,quando a prática de colaborações premiadas ainda não era adotada de forma tão disseminada quanto atualmente.

    Seu nome apareceu pela primeira vez na CPI dos Correios, que investigou o mensalão, como um dos operadores do esquema. Uma empresa sua que estava registrada em nome de laranjas, a Garanhuns Empreendimentos, foi a responsável por receber um cheque da empresa de Marcos Valério, publicitário que já havia atuado em um esquema com o PSDB em Minas e acabou sendo o responsável por criar o esquema de pagamentos aos políticos aliados do governo Lula.

    A partir daí, descobriu-se que Funaro foi a ponte para que o líder na Câmara do Partido Liberal à época, Valdemar Costa Neto, recebesse R$ 6,5 milhões em propinas. Costa Neto foi condenado no julgamento do mensalão, que levou também para a cadeia a cúpula do PT, incluindo José Dirceu, ex-homem forte do governo Lula.

    Em sua delação do mensalão, Funaro forneceu documentos de transações e informações sobre as atividades de sua empresa Garanhuns no esquema, além de confessar integralmente os crimes que cometeu e seus cúmplices. Acabou condenado por lavagem de dinheiro, mas não foi preso graças ao acordo de delação.

    Caso venha a fechar uma nova delação, agora com a Lava Jato, Funaro não será o primeiro a ter uma colaboração premiada no passado, voltar ao crime e depois fechar uma nova colaboração. Foi exatamente o que fez o doleiro Alberto Youssef.

    Pego pelo juiz Sergio Moro no esquema do Banestado, Youssef fechou um acordo no início dos anos 2000. Livre das penalidades, foi pego de novo cometendo crimes mais de dez anos depois, pela Operação Lava Jato, da qual também se livrou após revelar o que sabia sobre o esquema da Petrobras.

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