O que foram, afinal, as Jornadas de Junho de 2013. E no que elas deram

‘Nexo’ traz 5 análises, de protagonistas e estudiosos do movimento, sobre as manifestações que mexeram com o Brasil

     

    O mês de junho de 2013 ficou marcado por uma onda de protestos que, a partir de São Paulo, se espalhou por várias cidades brasileiras, mobilizando milhares de pessoas no que se tornaria, naquele momento, a maior série de manifestações de rua desde o movimento pelo impeachment do presidente Fernando Collor, 21 anos antes.

    Originalmente, os manifestantes se opunham ao aumento no preço das passagens de ônibus, de R$ 3 para R$ 3,20. Aos poucos, no entanto, a pauta se ampliou. A frase “não é por R$ 0,20”, escrita em vários muros da capital paulista, deixou claro o desejo de extrapolar a reivindicação original.

    A violência policial - cujo ápice ocorreu no dia 13 de junho, quando a PM de São Paulo atacou manifestantes no cruzamento da avenida da Consolação com a rua Maria Antônia, deixando mais de 150 feridos - despertou a solidariedade de pessoas que, até então, não tinham se envolvido com o movimento. Essa adesão ampliou a convocatória das marchas seguintes e, ao mesmo tempo, tornou os protestos mais diversos do ponto de vista ideológico.

    Desde sua origem, o Movimento Passe Livre, grupo responsável pela mobilização inicial das chamadas “Jornadas de Junho”, reivindicou para si um caráter horizontal, livre da agenda dos partidos políticos tradicionais e com líderes que se revezavam como negociadores e porta-vozes.

    A relutância - ou a dificuldade - em definir uma agenda centralizada de reivindicações claras faz com que as interpretações sobre a origem e as consequências das jornadas variem até hoje, a depender de quem analisa o fenômeno.

    O Nexo fez uma única pergunta a cinco pessoas que participaram das marchas ou de seus desdobramentos posteriores: O que foi e no que deu tudo aquilo? Abaixo estão as respostas:

    ‘Em 2013, Avenida Paulista comportou todos, em 2015 foi espaço de polarização’

    Esther Solano

    Doutora em ciências sociais e professora da Unifesp (Universidade Federal do Estado de São Paulo), autora de diversos estudos acadêmicos e artigos sobre os protestos de Junho de 2013

    “Em junho de 2013, as ruas foram ocupadas, em catarse, por diversos segmentos sociais. Em 2014, no contexto da eleição presidencial, as ruas e as redes se polarizaram. O antipetismo era o fator de coesão dos  verde-amarelos que, em 2015, pediram o impeachment de Dilma Rousseff se apropriando das mesmas ruas. A narrativa do impeachment foi combatida com a narrativa do golpe, e a avenida Paulista, onde couberam todos em 2013, se transformou em espaço de polarização em 2015. No coração desta dinâmica de enfrentamento social, o PT e seus significados. Dilma é destituída, a Lava Jato avança e, na mesma Paulista onde o populismo antipetista era gritado, o slogan agora é a antipolítica, “faxina geral”. Do outro lado, #ForaTemer. O que temos em comum em 2017? Ninguém apoia Temer nem suas reformas, mas não conseguimos nos unir contra elas. Derivamos num país dividido e com um perigoso sentimento de negação política.”

    ‘Muitos dos que estavam ali se odiavam’

    Bruno Torturra

    Jornalista, fundador do Estúdio Fluxo e um dos idealizadores do Mídia Ninja, que transmitiu os protestos de 2013 ao vivo na internet, e do qual Torturra participou somente até aquele ano 

    “As manifestações só ganharam aquele volume todo porque tiveram a participação de pessoas que, no fundo, discordavam profundamente de tudo o que havia levado as primeiras pessoas às ruas. Então, o que deu volume tirou os contornos ideológicos. Foi uma reunião de forças que nunca mais voltaram a estar juntas. Isso ficou claro sobretudo na marcha de mais de 1 milhão de pessoas, após a repressão de 13 de junho. Tive a impressão de que muitos dos que estavam ali se odiavam, mas ainda não tinham descoberto isso - punks, anarquistas, patriotas nacionalistas, membros de partido. Junho abriu uma janela para a rua. Cada vez mais acho que foi um fenômeno comunicacional com implicações políticas, mais do que um fenômeno político com implicações comunicacionais. E acho injusto culpar junho pelo impeachment. Isso é algo que só veio mais tarde, em 2014, com a Copa e os partidos tentando recuperar o protagonismo, num ano eleitoral. No fundo, junho criou um certo trauma, pois foi uma energia que não se realizou.”

    ‘Cidadão, empunhado de seu telefone, pode fazer política’

    Humberto Laudares

    Cientista social, doutor em economia e colunista do Nexo. Estava fora do Brasil em junho de 2013, mas fez parte de iniciativas que tentaram organizar a insatisfação popular na forma de novos movimentos como o socialdemocrata Onda Azul

    “O maior legado das manifestações de 2013 foi deixar claro que o cidadão, empunhado de seu telefone, pode se organizar e fazer política. Nesse sentido, 2013 foi um grande grito de insatisfação com a representação política, com as mais diferentes mensagens e sotaques. No entanto, encorajou muitos movimentos da sociedade civil, com diferentes pautas e vertentes ideológicas, a se manifestar nos anos seguintes. Diria que inspirou também outros movimentos a se organizarem para atuar em rede. Espero que 2013 invada 2018, só que dessa vez o cidadão não ocupe o lado de fora do Congresso Nacional, mas a representação política de fato após as eleições. O ano de 2013 protestou contra essa política arcaica. Quem sabe a sociedade amadureceu o suficiente para renova-la dessa vez.”

    ‘Junho nunca deixou de ser uma luta por transporte em São Paulo’

    Francisco Ximenez

    Militante do MPL (Movimento Passe Livre), que esteve na origem da mobilização social de Junho de 2013

    “Hoje, já passados quatro anos do inflamável mês de junho de 2013, com uma conjuntura política nacional completamente diferente, após a queda da aliança de classe que guiou a política econômica nacional por uma década e meia, costuma-se ver Junho a partir da suas consequências, esquecendo-se do fundamental: O que estava em jogo nos grandes e pequenos atos, nas barricadas erguidas no centro da cidade e na paralisação dos trens pelos próprios usuários, ao caminharem pelos trilhos revoltados com as falhas do precário serviço de transporte que usam cotidianamente para se deslocar pela cidade, durante Junho? Por maiores que sejam suas implicações, Junho de 2013 não deixou de ser nem por um minuto uma luta contra a forma de organização do transporte na cidade de São Paulo e em outras grandes e pequenas cidades do Brasil. Contra o aumento do esforço cotidiano das pessoas para pagarem uma tarifa absurda para ir e voltar do trabalho, dinheiro que é tirado da alimentação, do aluguel, do lazer, da saúde etc. das famílias da classe trabalhadora pobre e periférica R$ 0,20 que faltam a muita gente que deixa de usar o transporte ‘público’ por não ter como  pagar, população que em 2010 já era de cerca de 37 milhões de brasileiros. Em Junho, tal qual como as lutas travadas contra as atuais ‘reformas’, estava posta uma mesma questão: o que deve prevalecer, o interesse dos empresários em lucrar com a precarização das condições de trabalho e vida dos e das trabalhadoras ou as demandas reais e necessárias destas últimas?”

    ‘Até hoje, nenhuma autoridade foi responsabilizada pela repressão’

    Juana Kweitel

    Diretora-executiva da ONG Conectas Direitos Humanos, que interpelou o governo de São Paulo diversas vezes sobre o uso da força policial contra manifestantes

    “Do ponto de vista dos direitos humanos, as Jornadas de Junho de 2013 podem ser lembradas como marco na disputa pelas ruas como espaço de exercício da política e da cidadania. Não tanto pela adesão massiva ou pela estratégia de reivindicação - que não são propriamente novas para o​s movimento​s​ socia​is -, mas pela reação violenta ​das autoridades e das forças de segurança A repressão daquela noite [13 de junho de 2013] se repetiu muitas vezes desde então, consolidando uma visão bastante problemática de como o Estado deve lidar com ​os protestos sociais. Essa tendência foi ​consolidada, em grande medida, com a conivência do sistema de Justiça, em especial do Ministério Público, incapaz de exercer seu dever legal de averiguar abusos da polícia. ​Até hoje, nenhum agente ou autoridade foi responsabilizado pela violência daquela noite.”

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