Foto: Reprodução/Youtube FGV

Samuel Pessoa, o mediador Rubens Cysne, Nelson Marconi e Nelson Barbosa durante o debate
Samuel Pessoa, o mediador Rubens Cysne, Nelson Marconi e Nelson Barbosa durante o debate
 

O Brasil viveu, entre 1994 e 2014, duas décadas de melhoras de índices econômicos. Em um primeiro momento foi controlada a hiperinflação, depois conseguiu-se uma certa estabilidade no dólar, a diminuição do desemprego e o aumento de renda da população em geral.

Nos últimos três anos, no entanto, o país mergulhou em uma das mais graves e profundas crises econômicas de sua história. Durante esse período, o PIB (Produto Interno Bruto), soma de tudo que a economia produz, diminuiu 7,7% e muitas das melhorias conquistadas nas décadas anteriores foram perdidas.

Entre os economistas, um tombo desse tamanho motiva há tempos discussões acaloradas sobre as causas, os erros de diagnósticos e reações. Em meio a muitas opiniões diferentes, é comum a menção a duas escolas que entre os economistas são chamadas “ortodoxa” e “heterodoxa”.

Ortodoxia e heterodoxia em economia é uma distinção que se faz entre correntes acadêmicas. Os ortodoxos são os que fazem sua pesquisa em linha com a maioria, as teorias já fundamentadas e mais replicadas ao redor do mundo. Os heterodoxos são os que propõem um pensamento diferente do estabelecido, novas formas de enxergar e lidar com as variáveis da economia.

No Brasil, com os governos do PT, ganhou corpo a definição de que a política econômica pós 2008 era heterodoxa. Os que ficaram do outro lado, ortodoxos, criticaram a intervenção na economia e os incentivos fiscais que o governo concedia para aumentar a produção, às custas do equilíbrio nas contas públicas. Por isso ficou comum que, em um paralelo com a política, os ortodoxos brasileiros fossem associados a uma direita liberal e os heterodoxos a uma esquerda que aceita intervenções na economia em busca de desenvolvimento.

O debate

No fim de maio, o Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas) reuniu nomes importantes ligados aos dois pensamentos para debater a crise nas contas públicas no Brasil e sua relação com a crise econômica atual.

De um lado, o ortodoxo Samuel Pessoa, crítico da política econômica dos governos petistas e assessor econômico da campanha de Aécio Neves em 2014. Do outro, o ex-ministro da Fazenda e do Planejamento de Dilma, Nelson Barbosa, e o economista Nelson Marconi.

Durante o debate, Pessoa fez várias críticas às políticas que chamou de heterodoxas. Já seus oponentes tentaram deixar claro que se incomodam com o rótulo e ressaltaram que a escola heterodoxa abriga pensamentos variados.

O Nexo mostra a avaliação dos economistas sobre alguns dos principais temas do país atualmente. A íntegra pode ser assistida aqui.

O início da crise

Samuel Pessoa

Pessoa avalia que os erros da política macroeconômica aconteceram na reação à crise de 2008, quando o governo abriu mão de impostos para incentivar a economia. A resposta à crise pelo lado fiscal foi, na opinião do economista, um erro já que o país tem juros altos e o nível de endividamento já era alto. Um pouco de relaxamento no controle das contas eleva o risco país e os juros pagos, o que torna mais difícil controlar a dívida

Nelson Barbosa

O economista considera acertada a reação à crise internacional, com uma expansão do gasto moderada em 2009, 2010 e uma melhoria em 2011. A partir daí, segundo ele, o cenário internacional piorou e a política praticada não ofereceu as respostas corretas. “Na virada de 2012, os efeitos da consolidação fiscal com a virada da conjuntura internacional provocou uma desaceleração da economia muito mais rápida do que era esperada por todos. Isso gerou o expansionismo [fiscal]”, explica.

O lado fiscal no governo Dilma Rousseff

Samuel Pessoa

Na visão de Pessoa, entre 2010 e 2014, houve “um grande processo de desaceleração”, mas que foi causado por um problema de perda de eficiência do lado da oferta. Na análise dele, o governo agiu do outro lado, para incentivar a demanda em um quadro de desemprego baixo e sem muita possibilidade de ampliação de consumo. A consequência do incentivo foi o aumento de despesas e o descontrole das contas públicas.

Nelson Marconi

Marconi acredita que o principal problema das contas públicas é a queda de receita, não o aumento da despesa. Ele avalia que o processo de ampliação de gastos do Estado aconteceu ininterruptamente nos últimos 20 anos e o que gerou a crise fiscal foi a diminuição da arrecadação. “O Estado veio crescendo ao longo do tempo, o desequilíbrio é recente”, argumenta Marconi.

Problemas na meta de superávit

Nelson Barbosa

Barbosa considera a meta de superávit primário o principal problema da Lei de Responsabilidade Fiscal. Ele argumenta que ela é pró-cíclica, ou seja, incentiva o aumento de gastos em momentos de bonança e aprofunda a recessão em tempos de crise. Barbosa sugere que a meta anual seja de gasto, admita poupanças em anos de bonança e déficits moderados em anos de queda de receitas.

Samuel Pessoa

O economista concorda que a Lei de Responsabilidade Fiscal e o superávit primário podem aprofundar a recessão no curto prazo. O problema, segundo ele, é que quando há problema de dívida extrema, como é o Brasil atualmente, não há outro jeito. Isso porque “não há expansão fiscal autofinanciável”, ou seja, um aumento de gastos do Estado que se pague totalmente com melhora na economia e na arrecadação. Ou seja, gastar mais, por mais que gere algum retorno, aumenta o problema de dívida.

Papel do BNDES

Samuel Pessoa

O economista critica fortemente a política de desenvolvimento industrial baseada em empréstimos subsidiados a grandes empresas e vê um componente “ideológico” na escolha. Ele diz que os R$ 400 bilhões investidos no BNDES ajudaram a deteriorar as contas públicas e não trouxeram resultados para o país. “Para mim, é uma leitura equivocada da experiência do leste asiático. Acham que a Coreia ficou rica porque tinha o BNDES dela e não porque tinha o melhor sistema educacional do mundo”.

Nelson Barbosa

Barbosa concorda parcialmente com a crítica de Pessoa à política do BNDES, mas separa a atuação do governo em dois momentos. Em um primeiro momento, segundo Barbosa, a injeção de recursos no banco para reanimar a economia, entre 2009 e 2010, seguiu uma tendência mundial de aumentar a quantidade de dinheiro no mercado. Essa teria dado bons resultados, inclusive um crescimento acima da média mundial nos dois anos. “A segunda injeção, que acontece a partir de 2012, essa foi excessiva. Isso não deu resultado. Não dá para jogar no mesmo balaio”, reconhece.

 

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