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O que está levando milhares de jovens às ruas da Rússia

Geração que nasceu e cresceu sob sucessivos governos de Vladimir Putin vem tomando dezenas de cidades russas para pedir renovação

    Milhares de manifestantes saíram às ruas de mais de cem cidades russas na segunda-feira (12) para protestar contra a corrupção no governo do presidente Vladimir Putin e por um conjunto de causas difusas que alimentam uma onda crescente de insatisfação no país.

    O líder russo está no poder há 18 anos ininterruptos, tendo exercido, de maneira intercalada, dois mandatos como primeiro-ministro (1999-2000 e 2008-2012) e outros dois como presidente (2000-2008 e 2012-até hoje).

    Os protestos foram liderados por jovens que cresceram sob governos de Putin e nunca conheceram uma alternativa política capaz de derrotá-lo nas urnas.

    Na Rússia, o primeiro-ministro atua como chefe do governo, coordenando assuntos internos e os trabalhos dos ministérios, enquanto o presidente responde por assuntos de Estado, de defesa e de política externa.

    Putin — que foi membro da KGB, o serviço secreto do extinto regime soviético, e que dirigiu o Serviço Federal de Segurança antes de entrar na vida política — é tido como um superpresidente, que exerce influência determinante sobre o atual primeiro-ministro, Dmitri Medvedev, num contexto político no qual o Judiciário, o Parlamento, a imprensa e a sociedade civil organizada se mostram frágeis diante das investidas presidenciais.

    Detenções e processos

    Por ordem do governo, os protestos de segunda-feira foram reprimidos pelas forças de segurança. A justificativa é a de que as manifestações ocorreram sem prévia comunicação e autorização das autoridades.

    De acordo com dados coletados pela ONG oposicionista russa OVD-Info, 866 pessoas foram detidas. As que forem acusadas de participar de marchas sem autorização (que não tenham sido previamente informadas às autoridades) podem ser detidas por 15 dias. As pessoas que forem acusadas de agressões a membros das forças de segurança podem pegar penas maiores.

    Entre os detidos está o principal nome da oposição: Alexei Navalny, um advogado, ativista político e blogueiro de 40 anos que já concorreu à Prefeitura de Moscou e anuncia publicamente que pretende disputar a presidência da Rússia na eleição programada para ocorrer em março de 2018, embora uma condenação criminal, de fevereiro de 2017, o impeça de concorrer, segundo as regras atuais.

    Navalny ficou conhecido depois de comprar ações de empresas petrolíferas, participar de reuniões de acionistas e divulgar publicamente o conteúdo das conversas, que incluíam esquemas de corrupção. Os casos envolviam empresas como a Gazprom e a Rosneft, que fazem parte da lista das 150 maiores empresas do mundo, elaborada pela revista “Fortune” em 2016.

    O ativista já havia passado dois períodos de 15 dias na cadeia anteriormente: primeiro em 2012, logo após a eleição de Putin para o mandato atual, e, mais recentemente, em 26 de março de 2017, numa onda de protestos semelhante à desta segunda-feira (12).

    Perspectiva de renovação e de nacionalização

    Dois aspectos estão sendo considerados promissores pelos responsáveis pelas convocatórias das últimas manifestações contra Putin.

    O primeiro deles é a faixa etária dos envolvidos. Com cada vez mais jovens saindo às ruas, acredita-se que a Rússia tenha perspectivas promissoras de renovação política.

    O segundo elemento é a nacionalização dos protestos. Mesmo cidades consideradas mais conservadoras e afastadas de Moscou, como Omsk Vladivostok, Rostov-on-Don e Krasnodar tiveram grandes atos.

    “Não consigo me lembrar dos velhos tempos, como dizemos, qual foi a última vez que a Rússia teve manifestações com tantas pessoas em tantas cidades diferentes”, disse Georgy Alburov, vice-diretor da Fundação Anti-Corrupção, fundada pelo opositor Navalny.

    Pauta diversa com alvo em comum

    Uma das bandeiras mais visíveis dos protestos é a luta anticorrupção. Com o fim do regime soviético, em 1991, emergiu na Rússia um sistema capitalista marcado pelo tráfico de influência de figuras do governo, pagamentos de propina e ação de poderosas máfias locais.

    A inexistência de imprensa livre e a pouca presença de organizações da sociedade civil realmente independentes dificultou a fiscalização do poder público durante anos, no longo processo de abertura.

    Nesse cenário, a figura forte de Putin se solidificou, deixando na sombra por quase duas décadas qualquer outra personalidade política que pudesse rivalizar com ele.

    Atrás da bandeira da luta contra a corrupção vêm também demandas por mais oportunidades econômicas e também reclamações contra despejos imobiliários e políticas de gentrificação numa Moscou que se prepara para receber a Copa do Mundo da Fifa de 2018.

     

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