Qual a importância do Qatar no Oriente Médio

Seis países cortaram relações diplomáticas e transporte viário, marítimo e aéreo com emirado. As razões ainda não estão claras

 

Seis países anunciaram na segunda-feira (5) o corte de relações diplomáticas e consulares com o Qatar, além de fecharem suas fronteiras terrestres, marinhas e aéreas para proibir a circulação de pessoas e mercadorias.

Arábia Saudita, Bahrein, Egito, Iêmen, Emirados Árabes Unidos e as ilhas Maldivas declararam oficialmente o rompimento. Além deles, um governo de transição da Líbia, não reconhecido internacionalmente, também entrou na lista. O governo central líbio, contudo - esse sim reconhecido pelas Nações Unidas - se declarou neutro na briga.

A região do Oriente Médio

 

A justificativa oficial dos seis países é que o governo do Qatar vem, há tempos, patrocinando grupos terroristas e trabalhando para desestabilizar a paz na região árabe. O governo qatari se mostrou surpreso com o evento, o qual julga ser “baseado em várias alegações fabricadas e em mentiras”.

O país, por causa do isolamento, corre o risco de sofrer com desabastecimento de comida e de outros produtos básicos, além de não conseguir importar materiais usados para construir os estádios para a Copa do Mundo da Fifa de 2022, colocando a organização do evento em risco.

Para entender esse conflito e seus possíveis impactos internacionais, é preciso entender a origem do país e suas relações na região do Oriente Médio.

O que é o Qatar

 

Ex-colônia britânica, o Qatar conquistou sua independência em 1971. No ano seguinte, Khalifa bin Hamad Al Thani tomou o poder e passou a reinar no país, mas submetido ao poder da Arábia Saudita - vizinho maior e mais poderoso.

O Qatar é um emirado, ou seja, seu governo é centralizado em uma dinastia monárquica islâmica, e seu chefe de Estado é o emir. Em 1995, o então emir Khalifa, que reinava por mais de 20 anos, foi deposto por seu próprio filho, Hamad.

Formação de alianças

O novo líder adotou uma nova política para o país. Ele queria ter mais liberdade perante a Arábia Saudita para poder se desenvolver economicamente, uma vez que o Qatar está localizado sobre a maior reserva de gás natural do mundo. Mas ao mesmo tempo, por ser territorialmente insignificante, precisava se proteger dos sauditas.

A tática adotada pelo novo emir foi de buscar apoio de qualquer aliado que conseguisse. Entre eles estavam Israel, Irã, grupos islâmicos espalhados por países da região que não estavam no poder de seus países e, por fim, os próprios EUA.

O Qatar se transformou então em um aliado chave para os americanos. Sobretudo com a “guerra contra o terror” - declarada após o ataque às torres gêmeas em 2001 - e com a guerra no Iraque, o Qatar e sua base aérea representavam um posicionamento estratégico perfeito para os EUA.

Os americanos conseguiram acesso a uma base de lançamento de mísseis a apenas 700 km de distância da capital iraquiana, e bem no meio do Oriente Médio, região importante para a política externa dos EUA.

Influência regional

 

Com todo esse processo histórico, os qataris conseguiram equilibrar sua segurança interna e evitar um avanço saudita em seu território. Ao mesmo tempo, desenvolveram a indústria de extração de gás natural e se tornaram o país com o maior PIB per capita do mundo.

Em 1996, o país também lançou a rede de notícias Al Jazeera, com um canal de TV via satélite fundada pelo governo, mas com produção independente. Dessa forma, passou a influenciar a opinião pública na região, uma vez que boa parte do Golfo Pérsico passou a ter acesso a uma fonte de notícias sem controle dos governos nacionais, acessível por meio de uma antena.

Com a Primavera Árabe em 2010 e as sucessivas quedas de governos na região, o Qatar passou a apoiar de forma mais incisiva os grupos árabes que buscavam tomar o poder em países com instabilidade interna, rivalizando com a Arábia Saudita, que sempre teve a mesma estratégia.

Participação em conflitos regionais

Egito

O Qatar apoiou o grupo chamado Irmandade Muçulmana, que tomou o poder em 2012. Eles ficaram no governo por apenas um ano, quando um golpe substituiu o grupo por uma coalizão militar apoiada pela Arábia Saudita e que rege o país até hoje.

Iêmen

O país vive uma das piores crises humanitárias do mundo por causa de uma guerra que vem desde 2011. Lá, EUA e sauditas apoiam o governo, mas o Qatar financia grupos rebeldes.

Palestina

O Qatar é acusado de patrocinar o Hamas, grupo palestino que controla a Faixa de Gaza e é tido como terrorista por governos como EUA, Israel e União Europeia.

Síria

Embora o Qatar apoie grupos rebeldes na Síria, assim como os EUA e sua coalizão internacional, os americanos acusam os qataris de agirem paralelamente para evitar a formação de uma oposição unificada contra Bashar al-Assad no país, o que impede os diálogos de paz.

Iraque

Em 2016, membros da família real qatari foram libertados de um sequestro no Iraque depois do governo enviar um helicóptero de resgate. Governos da região apontaram a possibilidade de que havia milhões de dólares nesse helicóptero para pagar o resgate, o que também seria um financiamento do terror.

Irã

O Qatar é aliado histórico do Irã, que por sua vez é o maior rival da Arábia Saudita na região e tampouco possui laços de amizade com os EUA. Os dois compartilham a extração de uma das maiores reservas de gás do mundo que existe na fronteira marítima das duas nações.

Influenciar a política regional é, para muitos países - como EUA e a Arábia Saudita - uma forma de garantir segurança interna ao mitigar a articulação de forças opositoras externas.

Os sauditas, portanto, enxergam o Qatar como uma força independente perigosa para a sua própria estabilidade e segurança interna - sentimento compartilhado por outros governos na região, como os Emirados Árabes, por exemplo.

Ao isolar o Qatar diplomática e geograficamente, os vizinhos no Oriente Médio dão um duro golpe na independência do país, que precisa exportar para acumular capital e continuar agindo internacionalmente.

O papel dos EUA

 

A instabilidade recente, que atingiu seu ápice com o corte de relações entre os vizinhos, começou a se desenhar no fim de maio, com a visita de Donald Trump à capital da Arábia Saudita, Riad.

Nessa visita, o presidente americano fez um discurso contra o terrorismo pedindo para que os governos locais do Oriente Médio agissem de forma ativa contra grupos armados. Semanas depois, os vizinhos usaram o argumento do terrorismo para bloquear o Qatar.

As duas ações não têm nenhuma relação confirmada, até porque, aparentemente, o racha na região vai contra os interesses americanos de criar união no combate ao Estado Islâmico - grupo extremista responsável por boa parte dos atentados terroristas atuais. Mas um tweet de Donald Trump sobre a situação levantou suspeitas de sua participação na articulação regional árabe.

Em sua página na rede social, o presidente americano disse: “durante minha recente viagem ao Oriente Médio eu disse que não pode mais haver financiamento de Ideologia Radical. Líderes apontaram para o Qatar - vejam!”

 

A rede de notícias americana CNN noticiou que investigadores americanos, por outro lado, acreditam que a crise tenha começado depois de a Rússia plantar notícias falsas na agência estatal qatari, o que teria aprofundado a crise.

O secretário de Estado americano, Rex Tillerson, falou sobre o embate. Ele disse que não existe possibilidade da aliança que combate o Estado Islâmico - e que congrega quase todos os envolvidos na briga, incluindo Qatar e Arábia Saudita - sofrer qualquer tipo de abalo.

Tillerson pediu para que os governos resolvam suas questões por meio do diálogo. Antes de assumir como secretário, Tillerson foi CEO da petroleira Exxon Mobil. A empresa é a principal investidora privada na extração de gás na reserva norte do Qatar - a compartilhada com o Irã.

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