Por que os atentados no Irã reacendem a tensão entre xiitas e sunitas

Ataque é o primeiro da história na capital iraniana a ser reivindicado pelo Estado Islâmico. Dezessete pessoas morreram

     

    O Estado Islâmico reivindicou a autoria de dois ataques simultâneos na capital do Irã, Teerã, que mataram pelo menos 17 pessoas e deixaram pelo menos outras 37 feridas na quarta-feira (7). É a primeira vez que o grupo armado assume um atentado em território iraniano.

    Os alvos escolhidos foram o Parlamento nacional e o mausoléu do primeiro aiatolá do país, Ruhollah Khomeini, líder da revolução islâmica de 1979 que estabeleceu o modelo político, social e religioso vigente até hoje no Irã. O aiatolá é um líder religioso islâmico com um importante poder político no país.

    Das 12 vítimas fatais, 11 morreram no Parlamento, que precisou ser evacuado enquanto os terroristas faziam reféns. A outra vítima morreu no mausoléu, que fica próximo da capital Teerã.

    Ao condenar o ataque, o governo iraniano não apenas acusou o Estado Islâmico como estendeu a responsabilidade ao governo da Arábia Saudita. A relação se dá pelo fato de que os sauditas são Wahabitas, uma corrente radical do sunismo, da qual o Estado Islâmico também faz parte. Para o Irã, os sauditas apoiam o avanço do Estado Islâmico em seu território de forma velada.

    O ataque expõe a rivalidade entre diferentes atores no Oriente Médio que se originaram por discordâncias religiosas. Essa discordância nem sempre é suficiente para explicar os conflitos que opõem diferentes países e grupos no Oriente Médio, mas no caso do ataque no Irã ela aparece como o principal fator de motivação.

    Xiitas e Sunitas

     

    A principal divisão existente no islamismo se dá entre sunitas e xiitas, que discordam sobre como deveria se dar a sucessão de Maomé, profeta fundador da religião muçulmana no século sete. Para os sunitas, o novo líder do islã deveria ser eleito, enquanto os xiitas acreditavam que o cargo pertencia a um descendente de Maomé.

    O Irã é um país de maioria xiita e a Arábia Saudita tem maioria sunita. Ambos são os líderes regionais de blocos que conglomeram outros países, além de grupos independentes, que seguem uma das duas vertentes do islã.

    A divisão, que nasceu ainda no ano de 632, tem importantes repercussões nos dias de hoje. Os xiitas são minoria - cerca de 10% a 13% dos muçulmanos do mundo - e pregam uma interpretação mais restrita dos escritos religiosos. Já os sunitas são maioria e, em alguns casos, seus governos são mais próximos diplomaticamente do ocidente - como é o caso da Arábia Saudita, por exemplo.

    1,6 bilhão

    de pessoas são muçulmanas no mundo

    O sunismo, porém, também tem grupos armados extremistas opositores das potências ocidentais - como são os casos da Al-Qaeda e do Estado Islâmico.

    Mas o jogo de poder fica mais complicado. Embora a Arábia Saudita oficialmente lute contra o Estado Islâmico, um relatório de 2009 da então secretária de Estado americana, Hillary Clinton, aponta para o fato de que o governo saudita apoiou financeiramente os dois grupos.

    É difícil, portanto, traçar uma linha clara entre os interesses religiosos e político-diplomáticos dos governos. Pode-se, contudo, identificar os conflitos em que estão envolvidos e que lado apoiam.

    O envolvimento nos conflitos regionais

     

    Tanto Irã quanto Arábia Saudita estão envolvidos em conflitos que opõem as duas vertentes do islamismo, cada um apoiando, militar e economicamente, um dos lados da batalha.

    Embora o Irã, entre seus apoios, patrocine também grupos armados de forma menos velada, a Arábia Saudita é tida como o país que sustenta o maior número de facções violentas, mas de forma indireta. A lista abaixo mostra alguns dos principais casos.

    Quem o Irã apoia

    Na Síria

    O Irã é um dos únicos atores estatais a apoiar a continuidade do presidente sírio Bashar al-Assad, ao lado da Rússia. Assad é alauíta, uma corrente mais liberal do xiismo, e os grupos rebeldes são, em maioria, sunitas.

    No Iêmen

    O conflito no país é visto como uma ‘guerra por procuração’ entre Irã e Arábia Saudita. Lá, os iranianos apoiam o movimento rebelde Houthi que tenta tirar o atual presidente, Hadi, do poder. Os Houthi apoiam o presidente destituído, Saleh, que é xiita.

    No Líbano

    O Irã apoia o Hezbollah, um partido xiita libanês que possui um braço armado e foi criado para combater a invasão israelense no país em 1982. O grupo, por outro lado, conta com oposição de sunitas ao redor do mundo.

    Quem a Arábia Saudita apoia

    Na Síria

    Se o Irã apoia o governo, a Arábia Saudita apoia os grupos rebeldes de oposição que tentam derrubar o presidente Assad. Os sauditas atuam ao lado de forças como os EUA e a União Europeia na guerra síria.

    No Iêmen

    Da mesma forma, os sauditas apoiam o governo sunita que tomou o poder no Iêmen após derrubar o ex-presidente xiita Saleh. A Arábia Saudita é a líder de uma coalizão militar que intervém no país em apoio ao atual presidente Hadi.

    No Líbano

    A Arábia Saudita lidera um movimento regional que classificou, em 2016, o Hezbollah em um grupo terrorista, passando assim a ter uma justificativa formal para perseguir o grupo e seguir apoiando financeiramente os sunitas do Líbano que se opõe ao partido xiita.

    O Qatar, em evidência por causa do bloqueio diplomático imposto por seus vizinhos no início de junho, é mais um caso, embora seja peculiar. O país não é palco de um conflito armado, mas foi acusado pelos sauditas de apoiar grupos terroristas ao lado do Irã.

    A vontade de atacar o Irã

     

    O Estado Islâmico promove, regularmente, ataques terroristas em diversos países do Oriente Médio. A região, inclusive, é onde mais pessoas morreram vítimas do grupo, embora ele também promova atentados em território europeu e americano. Mas o ataque em Teerã quebrou o histórico do Irã nunca ter sido atacado por esses extemistas.

    Isso acontecia porque o grupo armado surgiu como um braço da Al-Qaeda antes deles se separarem definitivamente em 2014. E a Al-Qaeda tem a política de não atacar o Irã, uma vez que tem no país um polo logístico para suas operações e diversos combatentes presos pelo governo, segundo disse William McCants, do Brookings Institute, em entrevista à “PRI”.

    Desde que os grupos se separaram, o Estado Islâmico passou a focar no Irã pelas divergências religiosas e pelo fato do país ser o grande líder xiita do Oriente Médio.

    Os locais dos ataques de quarta-feira (7) - o Parlamento, sede do poder, e o mausoléu, símbolo da liderança religiosa que transformou o Irã no que é hoje - são significativos nesse sentido.

    Ainda segundo McCants, o ataque pode ter a intenção de forçar o governo iraniano a perseguir de forma mais ativa os sunitas dentro de seu país, o que levaria essa população a se revoltar e “apoiar a causa” do Estado Islâmico.

    As acusações contra sauditas e americanos

     

    O ataque acontece em um contexto mais amplo de instabilidade na região. Em 20 de maio, o presidente americano, Donald Trump, foi a Riad, capital saudita, e instruiu seus aliados a punir de forma mais veemente governos que “patrocinam o terror” no Oriente Médio.

    Duas semanas depois, liderados pela Arábia Saudita, um grupo de países cortaram relações com o Qatar acusando-o de apoiar terroristas. Dois dias depois, o Estado Islâmico atacou o Irã.

    Na lógica iraniana, dado o histórico de que a Arábia Saudita já apoiou de forma velada tanto a Al-Qaeda quanto o Estado Islâmico, e dado o fato de que os sauditas são alinhados religiosamente com esses grupos armados, consequentemente os sauditas estão por trás dos atentados.

    “A opinião pública mundial vê esse ataque terrorista - que aconteceu uma semana depois do presidente dos EUA ter um encontro com o chefe de um dos governos reacionários da região - como muito significativo. O fato do Daesh [sigla em árabe para Estado Islâmico] ter assumido a responsabilidade pelo ataque é também considerada como uma mostra de que eles [sauditas] estavam envolvidos nesse ato brutal”

    Guarda Revolucionária Islâmica

    Elite do exército iraniano, em nota oficial

    O governo da Arábia Saudita rechaça a tese, afirmando que não existe nenhuma prova de que extremistas sauditas tenham participado do ataque. O governo americano publicou uma nota lamentando o atentado. Trump, porém, insinuou que o Irã foi vítima do atentado por “apoiar o terrorismo”.

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