Rocha Loures é preso. Como Temer se refere ao ex-assessor flagrado com uma mala de dinheiro

Ex-assessor é descrito pelo presidente como ingênuo, decente e de boa índole. Elogios acompanham expectativa sobre adesão a possível delação premiada

    Flagrado pela Polícia Federal recebendo uma mala com R$ 500 mil em dinheiro e correndo com ela numa rua de São Paulo, Rodrigo Rocha Loures, ex-assessor especial do presidente Michel Temer, é tido pela Procuradoria-Geral da República como o homem que pode ligar os pagamentos da JBS ao Palácio do Planalto.

    Neste sábado (3), Loures foi preso por determinação do Supremo. Foi ele quem, no dia 6 de março, marcou o encontro do empresário Joesley Batista, um dos donos da empresa de processamento de carnes, com o presidente Temer, no Palácio do Jaburu, residência oficial.

    No encontro ocorrido na garagem do palácio — que teve início às 22h38 e não constava na agenda presidencial —, Temer disse a Joesley, entre outras coisas, que o empresário poderia procurar Loures para resolver problemas que a empresa tivesse com órgãos públicos.

    Temer não sabia, mas o diálogo estava sendo gravado pelo empresário. O áudio foi entregue à Procuradoria-Geral da República como parte de um acordo de delação premiada dos donos da JBS. Nele, o presidente se refere a Loures como alguém de sua “mais estrita confiança”.

    Menos de um mês depois deste episódio no Jaburu, um emissário da JBS entregou uma mala com R$ 500 mil em dinheiro para Loures, numa pizzaria de São Paulo. Avisada previamente do acerto pelos donos da empresa, a Polícia Federal filmou Loures correndo pela rua e entrando num táxi depois de colocar a mala no bagageiro do automóvel.

    Uma hora depois, Loures telefonou para o cerimonial da Presidência da República e confirmou presença num voo com Michel Temer, ocorrido dois dias depois, de Brasília para São Paulo.

    Qual a situação de Loures hoje

    Além de assessor de Temer, Loures era suplente de deputado federal pelo PMDB do Paraná.

    Depois que Osmar Serraglio, deputado do mesmo Estado, foi indicado por Temer para o Ministério da Justiça, em fevereiro, Loures assumiu a vaga na Câmara deixada pelo então novo ministro. Com isso, Loures passou a ter foro privilegiado — o que significa que ele só poderia ser julgado dali em diante por instâncias superiores da Justiça, o que é visto como uma espécie de blindagem nesses casos.

    Porém, em maio, Temer decidiu trocar o ministro da Justiça, indicando Torquato Jardim para o lugar de Serraglio. Para preservar o foro privilegiado de Loures, era importante que Serraglio não reassumisse a vaga de deputado federal. Por isso, o presidente ofereceu a Serraglio o Ministério da Transparência.

    Mas o plano não funcionou como esperado. Serraglio se recusou a ir para a Transparência e reassumiu o posto na Câmara dos Deputados. Com isso, Loures acabou perdendo a vaga de deputado e o foro no meio da investigação. O Supremo, porém, não enviou o caso dele à primeira instância, pois entendeu que os crimes atribuídos a Loures podem estar conectados com autoridades que têm foro privilegiado. Entre elas, o presidente da República.

    A possibilidade da delação

    A prisão de Loures a pedido do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, aumenta a pressão sobre o ex-assessor de Temer e a possibilidade de ele aderir a um acordo de delação premiada, como é comum na Operação Lava Jato.

    Neste caso, possíveis conexões com Temer, caso existam, podem emergir, dificultando ainda mais a situações do presidente, que já é alvo de uma investigação aberta no Supremo por corrupção passiva, organização criminosa e obstrução da Justiça.

    ‘Duvido que ele faça delação’

    Em entrevista à revista “IstoÉ”, publicada nesta sexta-feira (2), ou seja, antes da prisão do ex-assessor, Temer falou sobre a possibilidade de que Loures celebre um acordo de delação premiada com a Justiça.

    “Acho que ele é uma pessoa decente. Eu duvido que ele faça uma delação. E duvido que ele vá me denunciar”, disse o presidente. “Primeiro, porque não seria verdade. Segundo, conhecendo-o, acho difícil que ele faça isso. Agora, nunca posso prever o que pode acontecer se eventualmente ele tiver um problema maior, e se as pessoas disserem para ele, como chegaram para o outro menino, o grampeador [Joesley]: ‘Olha, você terá vantagens tais e tais se você disser isso e aquilo’. Aí não posso garantir.”

    Assim como sua antecessora, Dilma Rousseff, Temer também põe em dúvida as delações premiadas da Lava Jato, sugerindo que confissões vêm sendo extraídas de maneira irregular — com benefícios sendo oferecidos para que citações sem fundamento sejam feitas.

    Desde que o caso veio à tona, Temer vem se referindo a Loures de maneira elogiosa, mesmo depois de o seu ex-assessor ter sido flagrado em vídeo correndo pela rua com uma mala de dinheiro vivo.

    Um ‘coitado’ de ‘boa índole’

    Na primeira entrevista que concedeu sobre o assunto — ao jornal “Folha de S.Paulo” do dia 22 de maio — Temer repetiu quatro vezes a expressão “boa índole” para descrever o caráter de Loures.

    “Ele é um homem, coitado, ele é de boa índole, de muito boa índole. Eu o conheci como deputado, depois foi para o meu gabinete na Vice-Presidência, depois me acompanhou na Presidência, mas um homem de muito boa índole”

    Michel Temer

    Presidente da República, se referindo a Loures, em entrevista, no dia 22 de maio

    Ao ouvir a frase acima, os jornalistas que faziam a entrevista, insistiram: “Ele [Loures] foi filmado com R$ 500 mil, que boa índole é essa?”. Temer respondeu: “Sempre tive a convicção de que ele tem muito boa índole. Agora, que esse gesto não é aprovável.”

    O ‘ingênuo supremo’

    Na entrevista à “IstoÉ”, Temer voltou a elogiar Loures. O ex-assessor foi chamado de “uma pessoa decente” pelo presidente.

    Ao ouvir isso, os jornalistas perguntaram: “Pelo que conhece dele, o senhor esperaria que ele andasse por aí com uma mala com R$ 500 mil em dinheiro vivo de um empresário?”. Temer respondeu:

    “Confesso que não. É até surpreendente. Não sei a que atribuir isso, se atribuo à ingenuidade suprema, porque o sujeito pegou uma mala numa pizzaria”

    Michel Temer

    Presidente da República, se referindo a Loures, em entrevista no dia 2 de junho

    Loures contratou para sua defesa o advogado Cezar Roberto Bitencourt. Ele é um conhecido crítico das delações premiadas. A contratação foi vista, por isso, como um sinal de que o ex-assessor de Temer não pretende, pelo menos por enquanto, entregar informações à Justiça em troca de benefícios.

    “É no mínimo arriscado apostar em que tais informações [fornecidas à Justiça por meio de acordos de delação premiada], que são oriundas de uma traição, não possam ser elas mesmas traiçoeiras em seu conteúdo”, escreveu Bitencourt em artigo no site Consultor Jurídico, em dezembro de 2014.

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