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Qual o impacto da saída dos EUA do acordo do clima de Paris

Donald Trump cumpre promessa de campanha e deixa o tratado ambiental afirmando que vai voltar com uma nova proposta

O presidente americano Donald Trump anunciou, no dia 1º de junho de 2017, que vai retirar os EUA do Acordo de Paris. Assinado em 2016, o documento é a maior iniciativa diplomática do mundo para combater o aquecimento global.

A decisão vai contra a maioria da opinião pública do país — inclusive entre os republicanos —, e coloca os EUA ao lado de Síria e Nicarágua como os únicos três países que ficam de fora. A Síria ficou de fora pela guerra, e a Nicarágua por achar o acordo muito pouco rígido.

O acordo, do qual o Brasil é um dos signatários, busca reduzir as emissões de gases que causam o aquecimento global, sobretudo o gás carbônico (CO2). A idea é que essa redução evite que a temperatura média do planeta suba mais de 2ºC até o fim do século 21.

2,7ºC

é a estimativa de aumento da temperatura média global até o fim do século 21 caso os países mantenham o nível atual de emissões

Trump afirmou, contudo, que a saída é acompanhada pelo início imediato de novas conversas diplomáticas. Nelas, serão negociados novos termos seja para os EUA voltarem ao mesmo acordo ou para criar um inteiramente novo, que esteja dentro dos “interesses americanos”.

A justificativa da saída

Trump justifica que a saída do acordo é uma forma de preservar a economia americana. Para ele, manter a promessa de redução nas emissões carbônicas é prejudicial para a produção energética do país, baseada na queima de carvão, petróleo e gás, e consequentemente geraria custos muito altos para a indústria nacional se adaptar.

Ele ainda afirma que países que competem economicamente com os EUA — a China principalmente — usam o acordo para tentar vencer a concorrência no mercado global, sem estarem de fato comprometidos com a causa ambiental.

O presidente americano, além disso, deixou claro ao longo de sua campanha presidencial e nas nomeações de seu governo que é cético com relação ao tamanho do problema do aquecimento global. Segundo ele, mesmo fora do acordo os EUA terão “o ar mais limpo e a água mais limpa” do mundo.

Ele também é conhecido por não ser um grande fã de acordos mundiais e regulamentações. Em janeiro, um de seus primeiros atos como presidente foi retirar o país de outro grande acordo internacional, a Parceria Transpacífico, que criava uma grande área de livre-comércio.

Fidelidade ao discurso

A saída é congruente também com o discurso de Trump no encontro do G7 — que reúne as maiores economias do mundo e que aconteceu entre os dias 26 e 27 de maio na Itália. Na ocasião, a questão ambiental foi um dos pontos de maior discordância entre Trump e o resto dos chefes de governo, segundo a premiê alemã Angela Merkel.

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, fez piada depois do encontro. Ele disse em uma entrevista coletiva na quarta-feira (31) que os EUA não podem simplesmente se retirar do acordo de um dia para o outro, uma vez que existem questões burocráticas envolvidas. “Nós tentamos explicar isso para Trump em Taormina [local da recente reunião do G7] com frases claras em alemão”, disse Juncker para um público que caiu em gargalhada.

Mesmo assim, a saída americana é vista com preocupação pelas lideranças políticas mundiais e pela própria sociedade civil engajada no combate às emissões de poluentes e gases estufa. O país é o segundo maior emissor de gases poluentes do mundo e o maior da história.

Os maiores poluentes

O que é o acordo

Uma questão importante do acordo é que ele não é vinculante. Isso significa que o país signatário não é obrigado legalmente a reduzir suas emissões de gases poluentes, ou seja, o documento serve mais como um comprometimento público de cooperação e boas intenções.

Ele foi escrito dessa forma exatamente para que Obama conseguisse assiná-lo sem precisar da aprovação do Senado americano, com o qual não tinha boas relações com a ala republicana — mais conservadora e com posicionamento contrário à redução de emissões — em seu segundo mandato.

Seus principais itens incluem:

  • compromisso de não deixar o aquecimento global ao fim do século passar de 2ºC, o que significa reduzir emissões de gases poluentes para isso;
  • ajuda financeira direcionada a países mais pobres para que eles possam adaptar suas infraestruturas à redução de emissões sem comprometer seu desenvolvimento;
  • cooperação internacional financeira para mitigar os danos causados pelo aquecimento global em países mais pobres.

O que pode mudar sem os EUA

De início, a saída deve demorar de dois a três anos para ser efetivada, dadas as burocracias necessárias para fazê-lo. Mas o descompromisso americano pode impactar a efetividade do acordo em três pontos principais.

3 consequências

Emissões

A presença americana no acordo significava que o país estava comprometido em reduzir suas emissões de gases poluentes. A saída, por sua vez, representa o contrário, colocando em risco a tendência de redução nas emissões dos últimos anos.

Tendência era de redução

 

Financiamento

Por ser a maior economia do mundo, os EUA são parte importante da contribuição para o fundo de US$ 100 bilhões anuais destinados para países mais pobres melhorarem infraestrutura e mitigarem danos do aquecimento global. O fundo é composto por contribuições de países e da iniciativa privada. Teoricamente o país pode continuar contribuindo, mas essa atitude é bem improvável.

US$ 3 bilhões

foi a verba separada por Obama para enviar ao fundo até 2020. A União Europeia vai destinar aproximadamente US$ 16 bilhões

Peso político

Assim como aconteceu no Protocolo de Quioto, assinado em 1997, o descomprometimento de EUA e China desencorajou diversos outros países a assinarem o acordo. A saída dos EUA do Acordo de Paris pode acabar sendo uma desculpa para que outras nações em desenvolvimento também descumpram o que já acordaram, temendo ficar para trás na corrida econômica ao abrir mão de emissões.

O que a saída americana não muda

O Acordo de Paris foi uma construção diplomática que levou anos para ser feita. O assunto é debatido em grande escala desde a Conferência da ONU no Brasil, mais conhecida como Rio-92. De lá para cá, o aquecimento global tomou formas ainda mais claras e preocupantes.

Com a mudança de contexto, tanto o discurso político de todo o mundo quanto do próprio mercado mudou, tendendo a uma aceitação de novas regras ambientais.

Fica igual

Comprometimento do mercado

Companhias que aparentemente estariam interessadas na saída americana do acordo, como as petroleiras ExxonMobil e Shell, além da exportadora de gás natural Cheniere, se posicionaram a favor da permanência dos EUA no Acordo. Para elas, é estrategicamente melhor trabalhar dentro do acordo para se posicionar globalmente.

Outros países permanecem

A União Europeia e a China não dão sinais de que vão sair do acordo. Pelo contrário, os países devem aproveitar a brecha americana para ganharem um papel maior de liderança política global no tema ambiental e no desenvolvimento de um mercado específico para lidar com o tema — que tem a tendência de crescer no futuro.

Governos locais nos EUA discordam

Os Estados americanos possuem autonomia para criar suas próprias leis de combate às emissões. A Califórnia, por exemplo, tem um dos planos mais ambiciosos para taxar emissões e encorajar o desenvolvimento de tecnologias alternativas.

ESTAVA ERRADO: A versão anterior deste texto apresentava um gráfico de emissões de gases estufa pelos EUA com o eixo vertical reduzido, o que poderia confundir sobre a magnitude da redução de emissões. O gráfico foi substituído por outro com o eixo vertical ampliado. A alteração foi feita às 13h15 do dia 5 de junho de 2017.

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