Por que as baleias ficaram tão grandes? Estes paleontólogos tentam explicar

Pesquisadores afirmaram ter rastreado gigantismo de baleias, que remonta a 4,5 milhões de anos atrás

    Quando pensamos em baleias, certamente, a primeira imagem que nos vem à cabeça é a de um animal grande e pesado. As baleias não foram sempre tão colossais. Há 35 milhões de anos elas tinham entre 3 e 10 metros de comprimento. A nova teoria, de um trio de paleontólogos americanos, é de que as baleias “cresceram” com o passar dos anos.

    Atualmente, a maior espécie de baleia do mundo é a azul, que pode chegar a 33 metros de comprimento e pesar, em média, 140 toneladas. A pesquisa “Evolução independente do gigantismo em baleias da subordem Mysticeti ligada à dinâmica oceânica durante o Plio-Pleistoceno” foi divulgada pela Royal Society B em abril de 2017.

    O texto aposta na tese de que o gigantismo em baleias é recente e se deve à evolução de espécies diante de mudanças climáticas. Os pesquisadores acreditam que o processo de crescimento acelerado desses animais ocorreu nos últimos 5 milhões de anos.

    A novidade apresentada pelo trio de paleontólogos, que corrobora a crença do crescimento recente das baleias, associa o fim de uma era do gelo às distâncias percorridas pelos animais em busca de alimentos.

    Mapeando o gigantismo

    Pesquisadores apostam, em geral, na era do gelo como um fator determinante. Para alguns cientistas, a baixa temperatura dos oceanos naquele período foi decisiva para o crescimento das baleias. As baleias mais aptas a sobreviver neste cenário extremo, de acordo com a teoria evolucionista, seriam as capazes de armazenar mais gordura, que serve de reserva energética.

    Para validar a teoria que associa a distância percorrida por alimento às mudanças climáticas provocadas pelas eras do gelo, os paleontólogos americanos Graham Slater, Jeremy Goldbogen e Nicholas Pyeson estudaram os fósseis de 63 espécies de baleias já extintas e 13 outras espécies ainda presentes na natureza.

    Com os dados, o trio mapeou as relações entre as espécies a partir do tamanho delas e relacionou essas informações ao seu surgimento, cerca de 35 milhões de anos atrás. Com a linha do tempo em mãos, foi possível constatar que, de fato, as baleias gigantes aparecem há 4,5 milhões. Para eles, esses dados dão suporte à tese que defendem no estudo.

    Segundo os pesquisadores, dois fatores teriam sido determinantes para que o processo evolutivo acontecesse:

    Eras do gelo

    A história do planeta está repleta de eras glaciais. A mais recente terminou há cerca de 10 mil anos, justamente quando, de acordo com os dados do estudo, pode-se aferir que o crescimento das baleias estagnou.

    Os paleontólogos acreditam que os ciclos de eras glaciais diminuíram a temperatura dos oceanos no hemisfério norte. Com isso, provocaram mudanças também nas correntes de ar e correntes marítimas que, somando-se ao derretimento de geleiras, promoveu o surgimento de zonas fartas de nutrientes.

    Ventos logo acima do oceano e derretimento de gelo fazem com que águas mais profundas subam à superfície, trazendo consigo nutrientes. Essa movimentação “fertiliza” a área e torna o local mais propício à abundância de vida.

    Com a concentração de variadas espécies de crustáceos e peixes pequenos — que servem de alimento para muitas espécies de baleias — em locais específicos e afastados uns dos outros, os animais da subordem Mysticeti precisaram percorrer maiores distâncias para se alimentar.

    Distância

    Quanto maior uma baleia, maiores serão as chances de que ela sobreviva a longas jornadas marítimas. Uma baleia cinza, que pode chegar a 15 metros de comprimento e que vive cerca de 50 anos, percorre durante a vida, por exemplo, cerca de 720 mil quilômetros, o equivalente a uma viagem de ida e volta à Lua.

    O que o estudo sugere é que, por processo de seleção natural, as baleias menores acabaram morrendo em quantidade mais expressiva porque não resistiam às viagens entre uma zona farta de alimentos e outra.

    Com a facilidade em percorrer longas distâncias sem precisar se alimentar, as maiores baleias acabaram criando “monopólios”, dificultando mais a sobrevivência dos indivíduos de espécies menores.

    “Antes que as geleiras cobrissem o hemisfério norte, os recursos estavam bem distribuídos nos oceanos. Mas, com o começo da glaciação, escorrimentos dos novos mantos de gelo durante o verão podem ter lavado os nutrientes nas águas costeiras, aumentando o suprimento de comida em algumas áreas”

    Nicholas Pyenson

    Pesquisador do Museu de História Natural Smithsonian

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