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O PIB volta a crescer: por que o resultado diz pouco sobre o atual estágio da economia

Atividade econômica tem alta após oito trimestres seguidos de queda. Mas resultado não é suficiente para pôr fim à recessão e futuro é incerto

     

    A soma de todos os bens e serviços que o Brasil produziu entre janeiro e março de 2017 foi 1% maior que no trimestre anterior. O resultado do crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na quinta-feira (1º), é o primeiro positivo desde o fim de 2014. Nesse período, foram oito trimestres consecutivos de queda.

    De 2014 até aqui

     

    O resultado positivo aconteceu graças a um crescimento de 13,4% da agropecuária. Apesar de ser o menor entre os três setores que compõem o PIB (agropecuária, serviços e indústria), a safra recorde impulsionou o crescimento do país.

    A agropecuária representa apenas 7% do total do PIB, mas cresceu tanto que foi capaz de compensar os resultados dos outros dois setores. Serviços, o que mais pesa, ficou estagnado. A indústria teve uma leve alta, de 0,9%.

    Pelo lado da oferta

     

    Um crescimento puxado quase que exclusivamente pela agropecuária mostra que os outros setores da economia ainda não se recuperaram totalmente. A dependência de um único setor é ruim também porque é difícil que resultados de crescimento tão expressivos como esse de 13,4% se repitam com frequência.

    Outra maneira de medir o PIB é pela ótica da demanda. Tudo o que os setores de serviços, indústria e agropecuária produzem é consumido pelo outro lado (o da demanda interna) ou vendido para o exterior. Os números mostram que caíram os resultados de três setores de demanda interna: consumo das famílias, gastos do governo e investimentos. As importações cresceram 1,8% em relação ao trimestre anterior. E as exportações, por onde escoou grande parte do crescimento do setor de agropecuária, cresceram 4,8%.

    Pelo lado da demanda

    O resultado de variação do PIB quando comparado ao trimestre anterior é positivo no geral, o Brasil sai da recessão técnica - termo comumente usado para definir trimestres seguidos de retração -, mas isso não quer dizer que sai da crise. O crescimento de 1% é um pequeno alívio se comparado às sucessivas retrações que a economia teve nos últimos anos. Ademais, na comparação com o mesmo trimestre de 2016, todas as variações são negativas. Ou seja, a economia melhorou um pouco com relação ao fim de 2016, mas ainda está abaixo do que estava um ano atrás.

    A recessão técnica no Brasil começa no início de 2015, com dois trimestres seguidos de queda no PIB, mas a economia já vinha com problemas. Pela metodologia do Codace (Comitê de Datação de Ciclos Econômicos) da Fundação Getúlio Vargas, a recessão na economia brasileira começa, porém, no 2º trimestre de 2014 - a despeito de duas altas tímidas no 3º e 4º trimestre daquele ano. Para o Codace, a recessão é “fase cíclica marcada pelo declínio na atividade econômica disseminada entre diferentes setores econômicos”.

    Quanto já perdemos na crise

     

    Crise política e incertezas

    O Produto Interno Bruto é a soma de todos os bens e serviços que um país produz e consome. É um cálculo complexo que o IBGE demora cerca de dois meses para conseguir fechar. O resultado divulgado nesta quinta-feira (1) mede a produção do país até o final de março, mas as expectativas sobre o futuro da economia brasileira mudaram desde então.

    O PIB divulgado agora vai na linha dos cenários que eram projetados pelos economistas até a noite de 17 de maio. O governo já dava como certo o início da recuperação econômica, mas a notícia de que executivos da JBS haviam gravado o presidente Michel Temer e fechado um acordo de delação premiada abalou o mercado financeiro e aumentou a percepção de risco quanto à continuidade do governo e de seus planos.

    A principal preocupação de empresários e investidores é com a aprovação das reformas trabalhista e da Previdência. O interesse nas medidas existe principalmente porque consideram que elas melhorariam as contas do governo e diminuiriam o custo de produção no Brasil.

    Em um primeiro momento pós- divulgação da delação da JBS, houve uma onda de pânico no mercado. A Bolsa de São Paulo chegou a interromper as negociações quando seu principal índice registrou queda de 10% nas primeiras horas de pregão. A alta do dólar no dia seguinte à notícia da delação foi a maior desde 1999. Passado o impacto inicial, com a divulgação dos áudios e a recusa de Temer em deixar o cargo, o pânico foi acomodado, mas as incertezas seguem muito altas.

    Com Temer e seu governo sob risco, não se tem a garantia de que as reformas serão aprovadas no Congresso. As dúvidas são muitas. Não se sabe se Temer termina o mandato e, se continuar, se terá forças para levá-las adiante. Além disso, não há pistas sobre qual seria a agenda econômica de um eventual substituto caso ele venha de uma nova eleição, indireta ou direta.

    Analistas do mercado têm repetido que confiam na equipe econômica chefiada pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, considerada por eles competente. Sabem no entanto que, mesmo que ela seja mantida, a aprovação depende da capacidade do governo de convencer o Congresso a votar as medidas impopulares. O temor é de que um governo sem força repita o cenário de 2015, quando Dilma Rousseff e seu então ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tentavam fazer o ajuste fiscal, mas não conseguiam aprovar as medidas no Congresso.

    Como a notícia da delação que colocou o governo no centro da crise é recente, há poucos dados sobre seu impacto na economia. Mas é consenso que toda a incerteza gerada pela política pode retardar decisões de investimento, o que adiaria o fim da crise.

    O que pode ajudar o PIB

    Redução de juros

    Até pela forte recessão que o país enfrenta, que impede que os brasileiros gastem muito, a inflação deixou de ser um problema. Desde o início de 2016, o IPCA, índice oficial, recuou fortemente e há a possibilidade até de deflação nos próximos meses. Com isso, o Banco Central tem conseguido baixar os juros, o que incentiva o consumo e o investimento na economia real. 

    Na reunião mais recente, na quarta-feira (31), houve corte de 1 ponto percentual na Selic, que está em 10,25% ao ano - a menor taxa desde 2013. No comunicado divulgado, porém, os membros do Comitê de Política Monetária ressaltaram o “maior grau de incerteza” trazido pela crise política e afirmam que isso “dificulta” e “torna mais incerta” a “queda mais célere” das expectativas de juros.

    Mão de obra e capacidade ociosa

    A crise diminui o custo de se produzir. O desemprego no Brasil é o mais alto das últimas décadas, chegou a 13,6% entre fevereiro e abril. Sem trabalho, as pessoas tendem a aceitar receber menos para voltar ao mercado, o que é um incentivo para o empresário em uma possível retomada. Com a crise, a indústria não utiliza toda a sua capacidade de produção. E portanto não precisa investir em novas plantas para produzir mais. A grosso modo, falta só contratar o funcionário e ligar a máquina para aumentar a produção. Mas mesmo para fazer esse tipo de investimento, o empresário precisa confiar que a crise está passando e que sua produção poderá ser escoada.

    Sobre o resultado de crescimento do PIB divulgado nesta quinta-feira (1), o Nexo conversou com dois economistas:

    • José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do banco Fator
    • Claudio Considera, pesquisador associado do IBRE/FGV

    O que significa esse crescimento do PIB?

    José Francisco de Lima Gonçalves Agropecuária já se tinha a expectativa do crescimento pela supersafra. O problema é que agro é pouco em relação ao total do PIB e no segundo trimestre isso não acontece. É uma coisa boa e pontual. Na indústria uma surpresa negativa, uma melhora menor do que se imaginava. Serviços foi uma surpresa negativa também. O resultado é frágil a ponto de confirmar as expectativas de que não vai ser um ano dos melhores

    Pelo lado da demanda, dá para ver com mais clareza que a perspectiva não é tão favorável. Consumo e governo não andam - exportações e importações já estão na conta - e investimento é a confirmação do pior cenário.

    Claudio Considera Aparentemente, a economia saiu da recessão com um crescimento forte ante trimestre anterior. Mas contra o mesmo do ano anterior ainda há um valor negativo. Os resultados da agropecuária foram bons, mas na indústria ainda há setores muito ruins, como a construção. Como o primeiro trimestre é forte em termos de safra, não sei se esse resultado vai se reproduzir no próximo, se a economia vai se manter crescendo.

    Que sinais a economia nos dá neste momento sobre o resultado no segundo trimestre e no ano?

    José Francisco de Lima Gonçalves No PIB do segundo trimestre eu não consigo ver nenhum impacto [da crise política], isso pega antes na expectativa, só depois na atividade. Tem muita coisa já contratada. Para o segundo trimestre, segue a expectativa de uma economia andando de lado. Do terceiro trimestre para frente é que se tende a ter o reflexo dessas decisões, que afetam principalmente as novas encomendas e podem resultar em mais um ano de contração de investimentos. Em suma, se já se esperava um ano fraquinho, na melhor das hipóteses vai ser um pouco pior que fraquinho.

    Cláudio Considera O mercado esperava uma redução maior do que foi anunciado. Isso é um sinal das incertezas, da crise política propriamente. A crise vem desde 2014, leva muito tempo para consertar erro de política econômica. E isso não passa se a confiança não voltar e a taxa de juros não cair. Espera-se um crescimento de cerca de 0,5% no ano, mas esse cenário leva em consideração que as reformas serão aprovadas. Para aí crescer mais em 2018, em torno de 2%. Se não consegue aprovar, sacrifica-se essa perspectiva. Sem as reformas a economia não cresce.

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