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Os filmes essenciais de Sofia Coppola, segundo esta pesquisadora de cinema

A pedido do ‘Nexo’, a crítica Samantha Brasil elegeu e comentou o que considera haver de melhor na filmografia da americana

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    Na 70ª edição do Festival de Cannes, realizada em 2017, a cineasta americana Sofia Coppola se tornou a primeira mulher em 50 anos a levar o prêmio de melhor direção do festival francês de cinema. A primeira em meio século, e a segunda em toda história do festival, fazendo companhia à soviética Yuliya Solntseva.

    Coppola foi premiada pelo filme “O Estranho que Nós Amamos” (“The Beguiled”, no título original), segunda adaptação para o cinema do romance homônimo de Thomas P. Cullinan — a primeira é de 1971.

    O drama de época ambientado na Guerra Civil americana, no século 19, é focado em um universo de personagens femininas. Coppola assina, além da direção, o roteiro adaptado e a produção, esta última com o irmão, Roman Coppola.

    Roman e Sofia vêm de uma “dinastia” de Hollywood: são filhos de Francis Ford Coppola, diretor da trilogia clássica “O Poderoso Chefão” e de “Apocalipse Now” (1979), primos dos atores Nicolas Cage e Jason Schwartzman, sobrinhos da atriz Talia Shire e tios da jovem cineasta Gia Coppola.

    Depois de algumas incursões no ramo da moda — tendo inclusive começado sua própria marca, a MilkFed — a cineasta codirigiu seu primeiro curta-metragem, “Bed, Bath and Beyond”, em 1996, aos 25 anos. Dirigiu sozinha, em 1998, o curta “Lick the Star” e, logo depois, em 1999, estreou seu primeiro longa: “As Virgens Suicidas”.

    O prêmio em Cannes não é o primeiro marco da carreira de Sofia na conquista de prêmios que historicamente reconheceram poucas mulheres. Ela recebeu o Oscar de melhor roteiro original pelo filme “Encontros e Desencontros”, em 2003, e se tornou a terceira mulher a ser indicada para um Oscar de Melhor Diretor. Mais tarde, em 2010, tornou-se também a primeira cineasta americana a ganhar o Leão de Ouro, o maior prêmio no Festival de Cinema de Veneza, pelo filme “Um Lugar Qualquer”.

    O “Beguiled” de 1971 contava com Don Siegel na direção e Clint Eastwood como protagonista. A perspectiva que Sofia decide adotar no enredo de seu remake é uma característica importante de seu cinema: contar histórias do ponto de vista feminino. “Por que uma história com tantas mulheres era contada do lado masculino? Aí estava o desafio: mostrar o outro lado”, disse a diretora ao jornal “El País” em Cannes.

    A luta das mulheres de Hollywood por representatividade — seja na direção, em outras funções do set de filmagem ou por salários iguais para atores e atrizes — ganhou força nos últimos anos, que coincidem com a ascensão da diretora. Os discursos reivindicatórios em premiações se tornaram uma constante.

    A pesquisadora e crítica de cinema Samantha Brasil assinala abaixo, a pedido do Nexo, os filmes mais importantes da obra de Sofia Coppola até o momento. A filmografia parcial selecionada e comentada pela crítica é composta pelas quatro primeiras obras da diretora, que até hoje lançou seis longas-metragens.

    Samantha Brasil é também curadora do Cineclube Delas, do Rio de Janeiro, que exibe e discute filmes realizados por mulheres, e cofundadora do coletivo Elviras, de mulheres críticas de cinema.

    ‘As Virgens Suicidas’ (1999)

    O primeiro longa-metragem de Sofia Coppola é o mais simbólico de uma alegoria que se faz presente na obra da diretora, segundo Samantha Brasil: o aprisionamento social e moral de que sofrem as mulheres.

    O roteiro adaptado do romance homônimo de Jeffrey Eugenides se debruça sobre uma família de cinco irmãs, nos anos 1970, que “encontram na fatalidade a única forma de resistir a um mundo de restrições e interdições insuportáveis”, diz Brasil. “Coppola trabalha temas como suicídio e machismo estrutural de forma lírica, marca que vai sendo consolidada em seus próximos trabalhos”, complementa.

    ‘Encontros e Desencontros’ (2003)

    Para a crítica de cinema, a força e a melancolia percorrem a obra de Sofia Coppola. Nesse filme, a diretora extrai essas características de Charlotte (Scarlett Johansson), uma das mulheres sobre as quais Coppola se debruça, falando sobre a condição de existir “num mundo que não as pertence”.

    “Com um trabalho de direção de atores fabuloso, acompanhamos os encontros e desencontros de Charlotte e Bob Harris (Bill Murray), cuja relação é desenhada sob um equilíbrio precário. A efemeridade dos relacionamentos é o ponto chave da narrativa que não apresenta resoluções fáceis. Um deleite para os cinéfilos que privilegiam o caminho ao ponto de chegada”, diz Brasil.

    ‘Maria Antonieta’ (2006)

    No terceiro filme da cineasta, Samantha Brasil destaca a direção de arte, na qual “cada composição de cenário é incorporada à narrativa”, e a trilha sonora, que “conjuga músicas modernas a tons épicos farsescos, ampliando e potencializando a experiência jocosa que Coppola pretende conferir ao filme”. Destaca também o fato de que as contradições da protagonista estão imbricadas na própria forma de contar a história, uma trama memorável e divertida, ácida e melancólica.

    A história da rainha Maria Antonieta (Kirsten Dunst), um ícone da historiografia mundial, se torna, no filme de Sofia Coppola, também é a história de uma mulher que não cumpre as expectativas sociais da esposa ideal. Segundo Brasil, o filme “apresenta uma subversão formal não apenas por retratar uma figura controversa sob uma ótica pouco convencional, mas principalmente por mesclar símbolos atuais e contemporâneos num drama de época”.

    ‘Um lugar qualquer’ (2010)

    O protagonista Johnny Marco (Stephen Dorff), um astro de Hollywood no auge de sua carreira, é apresentado ao espectador com o braço engessado, devido a uma queda. Metaforicamente, a imobilidade emocional comanda a vida de Johnny: apatia, tédio, desinteresse, desencantamento do mundo, são alguns dos sentimentos que o compõem, segundo a crítica.

    Essa imobilidade é interrompida com a chegada de sua filha adolescente Cleo (Elle Fanning). O convívio com a menina transforma “o mundo vazio de um homem branco, heterossexual, rico e extremamente privilegiado”, diz Brasil. 

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