Para além de Bollywood: a nova geração de mulheres cineastas da Índia

Indianas fazem cinema lutando contra uma sociedade patriarcal, a falta de financiamento para histórias com protagonistas femininas e a censura

    Uma nova geração de cineastas mulheres da Índia tem ganhado projeção e reconhecimento internacional nos últimos anos. Elas são destaque em premiações e reivindicam uma posição atrás das câmeras. Têm, além disso, desafiado as fórmulas tradicionais do cinema local, indo contra a cultura machista e altamente violenta que afeta as mulheres do país, relata uma reportagem do site The Hollywood Reporter.

    Um sinal desse fenômeno é que a única produção indiana participante da edição de 2017 do Festival de Cannes foi o curta-metragem “Afternoon Clouds”, da diretora Payal Kapadia. A seleção do filme de Kapadia não é um fato isolado: outras cineastas estreantes, como Ruchika Oberoi e Konkona Sen Sharma, foram premiadas em festivais no país e no exterior.

    A indústria cinematográfica “mainstream” do país, conhecida como Bollywood, é responsável por uma produção mais volumosa que a de Hollywood, o mais lembrado polo mundial do cinema.

    Em 2012, Bollywood produziu 1.602 filmes, contra 476 feitos pelos grandes estúdios americanos, segundo dados da revista “Forbes”.

    As mulheres tanto estão tomando parte nesse cenário do cinema comercial indiano como produzindo filmes autorais e “de arte” no país.

    Três pontos e três filmes

    Experimentação narrativa

    O filme “Parched” (2015), da diretora Leena Yadav, é um drama sobre mulheres na zona rural do país que desafia a moral sexual conservadora.

    Ele estreou no Festival de Toronto de 2015, onde foi ovacionado. Uma crítica publicada na revista “Variety” diz que ele fica entre o terror e uma fantasia cor-de-rosa, tratando da subjugação e liberação das mulheres. 

    Questões feministas

    Questões como as presentes no filme de Yadav e também em “Lipstick Under My Burkha” (2016), de Alankrita Shrivastava, ainda são pouco representadas de forma geral no cinema indiano e podem custar batalhas com a censura para poder exibi-lo no país.

    O filme independente de Shrivastava trata de quatro mulheres indianas, habitantes de uma cidade pequena que procuram afirmar seus direitos individuais e sexuais. O filme foi censurado no país pelo Central Board of Film Certification por ser “voltado para o público feminino”, conter “cenas de sexo” e “áudio pornográfico”.

    Ele só foi liberado pelo órgão em abril de 2017.

    Protagonistas mulheres

    Jugni” (2016) segue uma protagonista que é produtora musical e é o primeiro filme da diretora Shefali Bhushan. Sua trilha inclui músicas do compositor A.R. Rahman, vencedor do Oscar de Melhor Canção Original e Trilha Sonora Original pelo filme “Quem Quer Ser Um Milionário?” (2008).

    Apesar das credenciais para o sucesso, o filme enfrentou dificuldades de financiamento. “A percepção da indústria é de que o grande público só é atraído [para ver o filme] se o protagonista for um homem”, disse a diretora ao The Hollywood Reporter.

    Mais do que incluir mais mulheres no centro do enredo, as indianas querem mudar o prisma pelo qual as mulheres são vistas no cinema indiano. Elas se queixam de como o cinema comercial as retrata sob um olhar masculino.

    O papel das plataformas de vídeo sob demanda

    A chegada recente de plataformas de streaming como Netflix e Amazon Prime Video no país, em 2016, mudou alguns aspectos do cenário do financiamento das produções indianas.

    Os dois serviços têm assinado contratos para executar produções originais dirigidas por cineastas indianos e para exibir filmes nas plataformas. São produções de vários gêneros cinematográficos, independentes e comerciais.

    A Amazon tem investido em parcerias com estúdios regionais e grandes estúdios de Bollywood. Isso está fazendo com que mulheres que não conseguiam financiar seus filmes tenham espaço para produzi-los e exibi-los. Os filmes “Parched” (2015) e “Jugni” (2016), das diretoras Leena Yadav e Shefali Bhushan, foram licenciados, respectivamente, pela Amazon e a Netflix.

    A tradição indiana de cineastas mulheres

    Apesar de ser um campo dominado pelos homens, há várias cineastas de destaque na história do cinema indiano. Aparna Sen, nascida em 1945, foi atriz e dirigiu mais de uma dezena de filmes, entre eles “Sonata”, lançado em 2017.

    Sai Paranjpye é da mesma geração de Sen e dirigiu comédias que alcançaram grande sucesso nos anos 1980. Foi homenageada em 2016 no Festival de Cinema de Mumbai.

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