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O que mudou no BNDES durante a gestão Maria Silvia Bastos. E quais os sinais do novo titular

Banco de fomento alterou regras e a política praticada nos governos do PT. Substituto tem formação liberal, mas disse que missão é ‘reanimar’ a indústria

     

    Durou menos de um ano a administração de Maria Silvia Bastos Marques no BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). A economista, escolhida por Henrique Meirelles para comandar o banco de fomento no governo Michel Temer, entregou na sexta-feira (26) sua carta de demissão, alegando motivos pessoais.

    Em 361 dias, a economista comandou as mais profundas mudanças que o BNDES teve nos últimos 15 anos. Sua posse representou o fim oficial da política das “campeãs nacionais” que era a base de atuação do banco durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

    A saída de Maria Silvia acontece no meio da maior crise do governo Temer, deflagrada pelos donos de uma das empresas que mais cresceram com financiamentos do BNDES. Na conversa gravada entre Temer e Joesley Batista em março, o dono da JBS faz reclamações sobre a atuação da então presidente do banco e diz que o processo de financiamento está “bem travado”.

    Em um dos pronunciamentos em defesa própria, o presidente elogiou a atuação de Maria Silvia ao criticar seu delator. Segundo Temer, a comandante do BNDES estava “botando ordem na casa”, o que incomodava quem tinha saudade dos "tempos em que faziam tudo o que queriam com o dinheiro público e não prestavam contas a ninguém". Ele não citou nominalmente Joesley Batista, que transformou sua pequena empresa em uma das maiores do país com empréstimos do BNDES.

    Mas as críticas feitas por Joesley eram repetidas também por outros empresários. Segundo o jornal “O Estado de S. Paulo”, apesar de ter respaldado publicamente a economista após o início da crise política, Temer já vinha ouvindo queixas de empresários como Joesley desde março. Em tempos de escassez de recursos, o BNDES havia se tornado mais seletivo nos financiamentos.

    A pressão de empresários se somou à pressão interna após a deflagração da Operação Bullish, da Polícia Federal, que investiga aportes feitos pelo banco na própria JBS. Cerca de 30 funcionários do banco foram levados a depor coercitivamente. Ela instaurou uma comissão interna para apurar o caso. Segundo a “Folha de S.Paulo”, funcionários esperavam uma “defesa contundente”.

    Para o lugar de Maria Silvia, Temer escolheu o economista Paulo Rabello de Castro, que estava na presidência do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O Nexo recapitula as principais ações da antiga presidente do BNDES e mostra o que esperar de seu substituto.

    Fim da política das campeãs

    Maria Silvia chegou ao cargo respaldada pela ampla experiência, tanto no setor público quanto na iniciativa privada. A economista foi presidente da Companhia Siderúrgica Nacional entre 1999 e 2002, trabalhou no Ministério da Fazenda, na prefeitura do Rio e no próprio BNDES. Em seu discurso de posse, em 1º de julho de 2016, indicou a intenção de mudar o papel que o BNDES assumiu durante as gestões anteriores.

    Durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, o banco aumentou sua participação na economia brasileira fornecendo empréstimos com taxas de juros subsidiadas. Extraoficialmente, foi criada a política das “campeãs nacionais”, inspirada no modelo sul-coreano que fez surgir gigantes globais como Samsung e Hyundai, por exemplo. Essas empresas seriam indutoras do desenvolvimento de toda uma cadeia. Sem o resultado esperado e alvo de muitas críticas, a pauta foi deixada de lado.

    Em janeiro de 2017 veio o anúncio oficial da nova política de empréstimos. Em vez de apoiar o crescimento das campeãs, o banco focaria em empresas menores de setores menos consolidados da economia.

    Principais mudanças na política do BNDES

    Foco na pequena empresa

    As micro, pequenas e médias empresas passaram a ter prioridade. Para elas, o BNDES financiaria até 80% com juros subsidiados. O teto para as grandes companhias é de 60%. O BNDES também flexibilizou as regras para definição de pequena e média empresa.

    Análise individual e retorno social

    Com o fim da política setorial, os projetos passaram a ser analisados individualmente. A presidente do BNDES avisou que a prioridade seria dada aos planos com maior “retorno social”, em áreas como educação, saúde, inovação, exportação, meio ambiente e infraestrutura.

    Fôlego para empresas

    Acostumado a financiar projetos de longo prazo, o banco passou a fornecer também capital de giro, necessário para o funcionamento da empresa no dia a dia. Entre a produção e o pagamento pelo bem ou serviço há um tempo, e é com esse recurso que elas podem continuar funcionando enquanto não entra a receita. Em momentos de crise, o aumento da inadimplência e a dificuldade de se conseguir crédito podem levar uma empresa à falência.

    Fim dos juros subsidiados

    A mais recente mudança implantada por Maria Silvia, anunciada depois das anteriores, foi a alteração das regras da TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo). Os juros subsidiados e com valor abaixo dos cobrados no mercado foram a base da política do banco nos governos anteriores.

    A ideia é que, nos próximos anos, a taxa cobrada pelo BNDES suba e se aproxime dos juros pagos pelo governo para se financiar no mercado. Os juros que o governo paga a seus credores é um dos mais baixos do mercado, já que o risco da dívida pública é baixo. Igualando a taxa à cobrada pelo BNDES, o governo diminui os prejuízos que vinha tendo com as operações do banco. Por outro lado, os empresários pagarão mais caro se quiserem empréstimos a partir de 2018 graças às mudanças implantadas por Maria Silvia.

    A escolha de Paulo Rabello de Castro

    Temer se preocupou em agir rápido e horas depois da notícia da saída de Maria Silvia anunciou o substituto. Paulo Rabello de Castro, diferentemente da antecessora, não foi indicado pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles.

    Em sua primeira declaração após ser anunciado, Rabello de Castro fez um aceno aos empresários e disse que sua principal missão é “reanimar” a indústria. Ele evitou, no entanto, criticar as escolhas de sua antecessora sobre concessão de crédito e disse que “nenhum banqueiro pode ser criticado por ser rigoroso”.

    Paulo Rabello de Castro estudou na Universidade de Chicago, principal centro de formação de teorias liberais na economia e costuma criticar as altas taxas de juros praticadas no Brasil. Entidades empresariais esperam que ele favoreça a “retomada dos financiamentos” no banco público.

    Na segunda-feira (29), ao se despedir dos funcionários do IBGE, Rabello de Castro disse que a missão no BNDES o enchia de “dúvidas e preocupação” e pediu que os colegas rezassem por ele.

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