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Mapa de São Paulo mostra emissão de poluentes em cada hora do dia

Ferramenta mostra os pontos da cidade que tendem a ter a pior qualidade do ar e como carros respondem pela maior parte da poluição

    Há anos, São Paulo possui mecanismos que permitem acompanhar em tempo real a qualidade do ar atmosférico. Essa medida não é, no entanto a melhor base para se pensar todas as ações públicas e individuais que podem diminuir o impacto da poluição.

    Isso porque as estimativas realizadas pelos institutos governamentais valem para alturas a partir de 10 metros do solo, onde a maior parte da fumaça gerada pelos veículos — os grandes poluidores das cidades — já se dispersou. Os dados captam problemas de poluição regionais, mas não nuances importantes presentes no nível da rua.

    Elas são relevantes, por exemplo, para pedestres e motoristas expostos ao ar poluído de vias movimentadas.

    O Iema (Instituto de Energia e Meio Ambiente) lançou no dia 23 de maio de 2017 uma ferramenta capaz de captar os locais que tendem a ter uma poluição maior próxima ao nível do solo. No caso, não se trata de uma medição da qualidade do ar, mas uma estimativa da emissão pelos meios de transporte em cada momento do dia na cidade de São Paulo.

    Um mapa interativo permite visualizar, em divisões quadriculadas de 1 km², quais as áreas com maior emissão de 11 tipos de poluentes, em cada hora do dia.

    A figura abaixo mostra a concentração de material particulado gerado por queima de combustíveis em dois momentos: entre as 4h e 5h e entre as 18h e 19h. Os quadrados azuis são as áreas com menor concentração do poluente, e os vermelhos, com maior. Fica clara a forma como a poluição se concentra ao longo das vias mais movimentadas nos horários com maior trânsito.

    Emissão de material particulado em dois momentos do dia

    Foto: Reprodução

    O material particulado é constituído por partículas finas de sólidos ou líquidos suspensos no ar. Elas entram na corrente sanguínea e trazem problemas respiratórios e cardíacos.

    A ferramenta do Iema se chama Inventário de Emissões Atmosféricas do Transporte de Passageiros no Município de São Paulo. Em entrevista ao Nexo, o engenheiro químico e coordenador de emissões da entidade, David Tsai, afirma que a plataforma pode servir para planejar políticas públicas focadas em diminuir emissões em áreas com grande concentração de pessoas, a exemplo do que é feito em cidades como Londres.

    “Algumas cidades já criaram zonas de baixa emissão, em áreas com concentração muito alta de pessoas. O inventário pode mostrar, por exemplo, que as marginais têm grande intensidade de emissões, mas pouca densidade populacional. Elas não necessariamente seriam áreas prioritárias para reduzir as emissões”, afirma.

    A plataforma também mostra quantas pessoas os ônibus, carros e motos transportam por dia e qual a participação de cada meio de transporte na emissão de poluentes. Isso também poderia ajudar a decidir prioridades. Veja abaixo como a plataforma foi construída e a quais conclusões ela chega.

    Como a plataforma foi construída

    Para calcular o quanto os carros e motos paulistas emitem de poluentes, os pesquisadores do Iema precisaram definir primeiro qual é a composição da frota de São Paulo. Eles fizeram isso com base nos Inventários Nacionais de Emissões Atmosféricas por Veículos Automotores Rodoviários e pelo Relatório de Emissões Veiculares no Estado de São Paulo 2015, da Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo).

    A entidade estima a composição da frota de veículos, quanto eles poluem com base em dados de venda de carros e os padrões de emissão do momento dessas vendas. Também calcula o que considera como sucateamento da frota — quanto mais velho um carro, mais ele tende a poluir por quilômetro rodado.

    Já para calcular o quanto a frota de ônibus emite de poluentes, os pesquisadores usaram como base os parâmetros estabelecidos pela Agência Ambiental Europeia — os motores dos ônibus usados em São Paulo são em geral de montadoras europeias.

    Para criar o mapa estimando a poluição em cada local e hora do dia, os pesquisadores precisaram em seguida estimar o roteiro dos ônibus, carros e motos, assim como sua velocidade média. Um exemplo de por que essas nuances são importantes é o fato de que áreas com mais carros e engarrafamentos tendem a ser mais poluídas, já que ambos os fatores respondem por mais emissões.

    Para calcular as rotas dos ônibus, o estudo usou dados obtidos por aparelhos GPS instalados em cada ônibus e disponibilizados pela SPTrans (empresa municipal de transportes) — as mesmas informações que alimentam aplicativos de celular que permitem consultar a rota dos ônibus.

    Como carros privados não possuem GPS embutidos, foi preciso estimar suas rotas diárias. Os pesquisadores adotaram projeções da CET (Companhia de Engenharia e Tráfego), que se baseia, por sua vez, na pesquisa “Origem e Destino” do Metrô de São Paulo. O estudo é feito a partir de entrevistas em que se pergunta a famílias da cidade como foi o seu deslocamento no dia anterior.

    Veja abaixo algumas das conclusões do trabalho:

    Uma amostra da ineficiência dos carros

    Os pesquisadores ressaltam dados da pesquisa “Origem e Destino”, do Metrô, segundo os quais meios de transporte públicos são os mais usados em São Paulo.

    Transporte público é o mais usado

    Apesar disso, na soma total de quilômetros percorridos por todos os veículos por dia, os carros rodam a maior proporção de quilômetros na cidade por dia. São 77,38 milhões de km, de um total de 87,83 milhões de km.

    Carros ocupam mais espaço nas vias

    Segundo os pesquisadores, isso é um sinal de ineficiência: carros ocupam muito mais espaço nas vias, mas respondem a pouco menos de um terço das pessoas transportadas. Essa ineficiência também é observada na poluição.

    Ao usar um carro, um passageiro emite muito mais material particulado por cada quilômetro rodado do que um passageiro que usa moto ou ônibus municipais. Nesse tipo de comparação, os pesquisadores não informam os dados de ônibus rodoviários porque não foram analisados dados disponíveis sobre o número de passageiros transportados.

    Passageiros de carros emitem mais poluição por km

    Essa mesma ineficiência vale também para a emissão de gases do efeito estufa. Eles não fazem mal para a saúde diretamente, mas são responsáveis pelo aquecimento global.

    Carros e gases do efeito estufa

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