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O que se sabe de novo sobre a história de Olga Benario Prestes

Livro escrito pela filha da líder comunista reúne material inédito encontrada no arquivo da Gestapo, a polícia secreta nazista

Temas

“Estou de pleno acordo com as decisões tomadas, foram absolutamente necessárias em função da conhecida esperteza dessa comunista  fanática […] Benario se encontra em prisão preventiva e não em um sanatório, em virtude de não ser politicamente confiável, o que já se provou evidente. Benario terá de arcar com medidas mais rígidas e com a revogação de todos os benefícios, caso não se esforce em evitar comportar-se de modo insolente”.

A “comunista fanática”, no caso, é Olga Benario Prestes, então presa em Berlim. As palavras são de Reinhard Heydrich, oficial nazista da Polícia de Segurança alemã, numa carta de fevereiro de 1938 para o diretor da prisão onde estava Olga. E a “insolência” é porque Olga reclamava que sua filha, Anita Leocadia Prestes, lhe havia sido subtraída, aos 14 meses de idade.

Episódios como o descrito acima estão entre os achados do novo livro “Olga Benario Prestes: uma comunista nos arquivos da Gestapo”, editado pela Boitempo, e lançado em maio de 2017. O livro é escrito pela própria Anita Leocadia Prestes, filha de Olga e Luiz Carlos Prestes. A historiadora, hoje com 80 anos, nasceu na prisão de Barnimstrasse, em Berlim, em 1936. Para escrever seu livro, ela pesquisou o extenso arquivo da Gestapo, a polícia secreta da Alemanha nazista, que começou a ser aberto em 2015.

O arquivo da Gestapo

Após a tomada de Berlim pelas forças da União Soviética, em maio de 1945, a Segunda Guerra Mundial chegava ao fim. Naquele momento, os soviéticos ocuparam a Alemanha nazista. Os arquivos da Gestapo então foram confiscados e mantidos em Moscou até hoje. Trata-se de uma extensa e detalhada documentação das ações da polícia secreta nazista, que funcionou entre 1933 e 1945.

Os arquivos guardam no total 2,5 milhões de documentos, entre cartas, relatórios, fotos e memorandos, divididos em 28 mil dossiês, que, por sua vez, são separados em 50 catálogos.

Esse material é conhecido como os “Trophäendokumente”, os documentos-troféus, em alemão, pelo seu valor histórico. Eles começaram a ser digitalizados por institutos de pesquisa russos em parceria com a Fundação Max Weber e o Instituto Histórico Alemão em Moscou. O material está disponível on-line em alemão e em russo e foi aberto à consulta pública em abril de 2015. A digitalização e disponibilização do acervo completo deve ficar pronta em 2018.

Em meio a todo esse material, chamam atenção 2.000 folhas que perfazem o “Processo Benario”, composto por oito dossiês. Trata-se da mais extensa documentação relacionada a uma única pessoa vítima do regime nazista: Olga Benario Prestes.

O pesquisador alemão Roberto Cohen comenta a importância da coleção, em trecho citado no livro de Anita: “Esses documentos formam — dialética incontornável — uma abrangente autoapresentação dos criminosos e das ideologias, coações, mecanismos, organismos e estruturas que dirigiam. À medida que cuidam do arquivo do ‘Processo Benario’, dia após dia, os criminosos fazem o que não podem querer fazer: eles dão informações sobre si mesmos”.

Com a ajuda de tradutores, Anita debruçou-se sobre esse arquivo e selecionou documentos para compor a narrativa sobre a história de sua mãe — que já foi tema de uma biografia de sucesso, “Olga”, de Fernando Morais, de 1985, e reeditado em 1994. A história de Olga também virou filme em 2004.

A trajetória de Olga

Olga Guttmann Benario foi uma das mais destacadas figuras revolucionárias do século 20. Nascida em 1908 em Munique, na Alemanha, ainda adolescente, aos 15 anos, aderiu à Juventude Comunista, ligada ao Partido Comunista da Alemanha, onde seu namorado, Otto Braun, era um dirigente importante.

Perseguidos pelas autoridades policiais da Alemanhã social-democrata, ambos foram exilados para Moscou, onde Olga virou dirigente da Juventude da Internacional Comunista.

Na União Sovíética, Olga ascendeu na hierarquia comunista e, no fim de 1934, foi encarregada de cuidar da segurança de Luiz Carlos Prestes — que havia comandado a Coluna Prestes nos anos 1920 no Brasil e que, depois, aderira ao comunismo, se tornando a principal liderança comunista no Brasil. Prestes havia se mudado para União Soviética em 1931.

Prestes e Olga chegaram clandestinamente no Brasil em abril de 1935 e, no caminho, se tornaram um casal. Em novembro daquele ano, a Intentona Comunista agitada pelo casal fracassou e, em março de 1936, Olga e Prestes foram presos e separados. Eles nunca mais se viram. Ou seja, o casal esteve junto por pouco mais de um ano: entre dezembro de 1934 e março de 1936.

Na prisão, Olga descobriu que estava grávida. Mesmo assim, ela foi deportada para Alemanha em setembro de 1936, com sete meses de gestação, por ser uma agitadora comunista e judia. A extradição autorizada por Getúlio Vargas era vista como uma forma de pressionar Prestes a entregar informações sobre a organização dos comunistas no Brasil. Naquele momento, Vargas flertava com o fascismo em alta na Europa — no ano seguinte, em 1937, ele instauraria a ditadura do Estado Novo.

Olga ficou na prisão feminina de Barnimstrasse, em Berlim, onde nasceu, em novembro de 1936, Anita Leocadia Prestes — nome em homenagem à revolucionária Anita Garibaldi e a Leocadia Prestes, mãe de Luiz Carlos. Em janeiro de 1938, a pequena Anita foi entregue à avó Leocadia, que vivia em Paris. Olga foi transferida para o campo de concentração de Lichtenburg em fevereiro e, em maio de 1939, foi enviada para o então recém-inaugurado campo de concentração para mulheres de Ravensbrück. Em abril de 1942, Olga foi assassinada na câmara de gás. A família só soube de sua morte em julho de 1945.

O que o arquivo revela

A documentação aberta por Anita revela novos episódios sobre a trajetória de Olga. Ao longo do livro, há diversas referências aos movimentos da revolucionária desde que ela é extraditada até sua morte. Ao Nexo, Anita destacou três momentos que a abertura dos arquivos da Gestapo permitiu descobrir:

Passaporte

Os documentos da Gestapo revelam que o consulado alemão no Rio de Janeiro concedeu um passaporte para Olga em setembro de 1936, pouco antes de sua extradição. Olga se negou a assiná-lo. Ela tentava provar que havia se casado com Prestes — coisa que nunca conseguiu fazer oficialmente, pois ambos eram clandestinos — e que tinha que ficar no Brasil, pois ia dar à luz um filho brasileiro. A emissão do passaporte seguia o trâmite burocrático da época para que Olga fosse extraditada. No documento, está anotado que ela se recusou a assiná-lo.

Foto: Reprodução
Cópia do passaporte emitido pelo consulado alemão antes da extradição em 1936 de Olga

Carta à Gestapo

Segundo Anita, é especialmente relevante a carta enérgica que Olga escreveu, em fevereiro de 1938, ao chefe da Polícia de Segurança alemã, ligada à Gestapo, protestando por terem retirado a filha de sua companhia sem aviso prévio e sem que pudesse ter entregado a criança à avó paterna. Anita descreve a carta como “extraordinariamente corajosa”. No documento, que está reproduzido no livro, Olga pede a revisão da sua prisão e, se isso fosse negado, requeria a revogação da prisão solitária, a permissão para receber cartas em francês de sua sogra, Leocadia (que não falava alemão), para saber sobre Anita, e a autorização para receber visitas. Todos os pedidos foram negados pelo chefe da polícia, como mostra carta reproduzida no livro — e cujo trecho está reproduzido acima, no primeiro parágrafo deste texto.

Relatório da Gestapo

Em agosto de 1937, Heinrich Himmler, o comandante da SS (braço militar nazista que supervisionava a Gestapo), recebeu um detalhado relatório sobre Olga. Nele, conta-se que Olga — presa em Berlim desde 1936 — esteve em Paris, provavelmente como agente da Internacional Comunista em 1933, que casou com Prestes em Moscou, embora não se ache certidão que confirme o fato, e que era cidadã alemã. O relatório afirma que ela é “uma comunista perigosa e obstinada” e que “durante o interrogatório realizado não relatou nada sobre sua atividade comunista; a continuidade de sua permanência na prisão é, por isso, necessária no interesse da segurança do Estado”. O fato desse relatório ter chegado a um dos principais dirigentes nazistas mostra a importância dada a Olga pelo Terceiro Reich.

Resistência e troca de cartas

Chama atenção também na documentação da Gestapo a resistência contínua de Olga na prisão e nos campos de concentração. Ela passou por diversos interrogatórios e questionamentos, mas, em nenhum momento, colaborou com o regime nazista. Seguidas vezes, ela nega participação ou envolvimento com as ações da Internacional Comunista, seja na Europa, seja no Brasil.

A resistência custou-lhe, diversas vezes, castigos e penas físicas duras, como a reclusão em celas solitárias ou a privação de comida, além da restrição na comunicação com parentes e amigos fora da prisão. Em um desses depoimentos às autoridades alemãs, em setembro de 1937, quando confrontada com a delação de um outro militante sobre as atividades de Olga no Partido Comunista alemão, ela desafiou a Gestapo: “Se outros se tornaram traidores, eu jamais o serei”.

Outro aspecto revelado pela abertura dos arquivos é a troca de dezenas de cartas entre Olga, Prestes e familiares, que até então não era conhecida. No material inédito, nota-se o esforço de Olga para manter-se informada sobre sua filha Anita e a preocupação com Prestes, que estava preso no Brasil e que alimentava correspondência amorosa com sua companheira.

O livro reproduz nove cartas de Olga para Prestes e oito de Prestes para Olga. Na última carta enviada por Olga, em abril de 1941, ela escreve: “muitas vezes fico triste quando minhas companheiras recebem cartas a respeito de seus filhos e ali, ao lado delas, penso: ‘o que ainda sei de minha filha?’. Mas, sabes, não deixaremos a coragem esmaecer”.

‘Passei por momentos de grande emoção na pesquisa’

Anita Leocadia Prestes foi entregue à avó paterna, Leocadia, e à tia Lygia, com 14 meses de idade. Viveu exilada com elas na França e no México entre 1938 e 1945, até chegar ao Brasil. Formou-se e fez mestrado em química pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), em 1964, e, em 1973, foi exilada para a União Soviética, durante o regime militar no Brasil.

Com a anistia, voltou ao país em 1979. Trabalhou junto com o pai até a morte dele, em 1990. Escreveu 12 livros sobre Prestes e fez doutorado em história social pela UFF (Universidade Federal Fluminense). Atualmente, é professora de história da UFRJ e respondeu por e-mail a algumas perguntas enviadas pelo Nexo.

Como foi o processo de pesquisa do arquivo da Gestapo?

Anita Leocadia Prestes O Arquivo da Gestapo está há dois anos disponível na internet. Foi necessário traduzir do alemão a maior parte dos documentos (cerca de 2.000 folhas) referentes a Olga Benario Prestes, para então selecioná-los e organizar o livro agora publicado pela Boitempo.

Por que as autoridades nazistas acompanhavam Olga tão de perto?

Anita Leocadia Prestes As autoridades nazistas atribuíam grande importância a Olga por ela ter sido um membro atuante do Partido Comunista Alemão (KPD) e da Internacional Comunista (Comintern), assim como mulher do líder comunista Luiz Carlos Prestes. Isso está registrado nos documentos do Arquivo da Gestapo.

Como é vista a trajetória de Olga atualmente na historiografia alemã sobre o período nazista?

Anita Leocadia Prestes Que eu saiba, atualmente, na Alemanha é conhecido o livro “Olga” de Fernando Morais e dois livros de Robert Cohen recentemente publicados (coletâneas de cartas e documentos), citados no meu livro.

Do ponto de vista pessoal, qual foi sua reação, como filha de Olga, ao ler as cartas trocadas entre a família reveladas pelo arquivo?

Anita Leocadia Prestes Durante a pesquisa, passei por momentos de grande emoção ao tomar conhecimento dessas cartas inéditas trocadas entre meus pais, assim como entre Olga e Leocadia, minha avó paterna, que me resgatou da prisão nazista.

A figura de Olga é devidamente reconhecida no Brasil?

Anita Leocadia Prestes O livro “Olga” de Fernando Morais contribuiu muito para que a história de Olga Benario Prestes fosse tirada do esquecimento ao qual fora condenada durante os mais de vinte anos de ditadura militar.

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