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Quem é Hassan Rouhani. E o que sua reeleição representa para o Irã

Presidente se mantém no cargo mesmo com forte oposição conservadora e busca recuperar a economia do país em um contexto de abertura internacional

     

    A população iraniana reelegeu Hassan Rouhani na sexta-feira (19) para ocupar por mais quatro anos a presidência do país. Seus 57% de votos demonstram a popularidade das políticas de abertura e diálogo com potências ocidentais implementadas por ele nos últimos anos.

    Aos 68 anos, Rouhani escapou de ser o primeiro presidente a não conseguir a reeleição no Irã, uma possibilidade que parecia ser real nas semanas que antecederam o pleito. No fim, a margem de vitória foi maior agora do que em 2013, quando somou pouco mais de 50% dos votos.

    Seu principal opositor era Ebrahim Raisi, político de características mais conservadoras, anti-Ocidente, que contava com um apoio não-declarado do chefe de Estado e líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei.

    O voto no Irã é livre. Há, porém, restrição aos concorrentes. Quem decide quem pode ou não pode disputar as eleições é o Conselho de Guardiães, formado por clérigos e juristas ligados ao aiatolá. Candidatos que não são considerados fiéis aos líderes religiosos terminam barrados antes mesmo de poder disputar o voto popular.

    Quem é Hassan Rouhani

    Assim como Raisi, Rouhani é um clérigo que acabou se envolvendo com a política do país. Mas as semelhanças não vão muito além disso. Em sua primeira campanha presidencial, seu slogan pedia “moderação e prudência”, uma quebra com a política mais dura de isolamento do Ocidente colocada em prática por seu antecessor, Mahmoud Ahmadinejad, e base das propostas de Raisi em 2017.

    Em 1979, o Irã derrubou a monarquia e instalou um governo islâmico no país, sob a liderança do novo chefe de Estado, legitimado por sua proeminência religiosa, aiatolá Khomeini. Foi também quando Rouhani deu início a sua carreira política, assumindo postos importantes no governo.

    Na década de 1980, foi parte do comitê de segurança nacional ao longo da guerra com o Iraque, sendo depois elevado à chefia do Conselho Supremo de Segurança Nacional.

    Rouhani ocupou o cargo por 16 anos, deixando-o após a eleição de Ahmadinejad para a presidência, de quem sempre foi crítico. Durante o governo de seu antecessor, Rouhani se manteve na arena política pregando o fim do que considerava ser mais populismo do que administração pública.

    Por sua conhecida habilidade de negociação internacional, especialmente na área de segurança, Rouhani ficou conhecido como o “sheik diplomático”. O codinome se fez valer durante seu primeiro governo e a tentativa de integrar o Irã de forma mais ativa na comunidade internacional.

    O que Rouhani representa internamente

     

    Sua eleição é um voto de confiança popular na manutenção das políticas de abertura do país. Seu discurso é claro na tentativa de conter posturas mais extremas como a de seu opositor eleitoral.

    “A nação iraniana escolheu o caminho da interação com o mundo, afastada da violência e do extremismo”

    Hassan Rouhani

    Presidente do Irã, após reeleição

    Os 57% de votos dão um respiro a Rouhani, que enfrenta críticas por não conseguir reverter a estagnação econômica mesmo com a aproximação aos EUA, vista com desconfiança por boa parte da população do país.

    Em 2015, o presidente liderou os esforços por um acordo nuclear com várias potências ocidentais, incluindo os EUA de Barack Obama, no qual se comprometeu a reduzir os investimentos nucleares no Irã em troca de um relaxamento nas sanções internacionais ao país.

    O discurso era de que, com o fim de algumas das barreiras econômicas, a reinserção no mercado mundial seria mais fácil, e com isso a possibilidade de reverter os mais de 10% de desemprego atuais.

    A política ainda não deu resultados, abrindo espaço para críticas de setores mais conservadores e do próprio aiatolá Khamenei, voz mais poderosa no governo iraniano.

    O que representa na arena internacional

    Sua postura favorável ao diálogo esfria as possibilidades de conflitos armados, dos quais o país esteve próximo no governo de Ahmadinejad. Entre seus vizinhos estão países aliados aos americanos, como a Arábia Saudita, principal rival regional do Irã.

    Isso não significa, contudo, que o país se isente de participação nas grandes questões internacionais. Atualmente, por exemplo, está ao lado da Rússia nas negociações para o fim da guerra na Síria - mas com apoio ao governo de Bashar al-Assad.

    Seu discurso também era mais fácil de ser implementado quando, na liderança dos EUA, tinha como colega de presidência o democrata Barack Obama, que bancou o acordo de 2015 mesmo com duras críticas da oposição.

    O republicano Donald Trump, por outro lado, faz questão de deixar claro sua oposição ao Irã. Em sua primeira “turnê” internacional, o presidente americano visitou a Arábia Saudita e conversou com líderes de países muçulmanos da região sobre assuntos como terrorismo e segurança. Trump não convidou o Irã para o encontro.

    “Para todo lugar que você olha, se há problema [no Oriente Médio], você vai achar o Irã. Então, agora, o que nós estamos vendo são as nações da região e outras de outros lugares tentando dar um ‘checkmate’ no Irã e na quantidade de rupturas, de instabilidade que eles causam”

    James Mattis

    Secretário de Defesa dos EUA

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