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Qual o resultado da investigação que apontou a escassez global de penicilina

Desabastecimento afetou o Brasil e dezenas de outros países nos últimos anos. Produção está centrada em poucas empresas estrangeiras

     

    Ao longo dos últimos três anos, pelo menos 18 países - entre eles Brasil, Estados Unidos, África do Sul, França e Portugal - vêm sofrendo de uma escassez de penicilina, principalmente da penicilina benzatina (injeção intramuscular popularmente conhecida no país como Benzetacil).

    A revelação é da jornalista brasileira Keila Guimarães. A partir de uma investigação financiada pelo programa de bolsas para reportagens inovadoras sobre desenvolvimento do European Journalism Centre e dados OMS (Organização Mundial da Saúde), Guimarães produziu um trabalho que aponta as causas e as consequências desse desabastecimento.

    A penicilina foi o primeiro antibiótico a ser descoberto na história e ainda é o tratamento mais eficaz para a sífilis, doença mortal que voltou a crescer no Brasil e no mundo nas últimas décadas, após anos de combate bem sucedido. Usada para quase tudo após sua descoberta, a droga foi perdendo espaço no tratamento da maior parte das doenças e substituída por novos antibióticos ao longo de mais de 70 anos.

    Por conta disso, a penicilina não é, hoje, das drogas mais lucrativas para a indústria. Fabricantes locais de medicamentos não a produzem, mas compram o ingrediente ativo de alguma das poucas empresas multinacionais que a fabricam atualmente. Nesse cenário, a China se tornou a maior fornecedora de ativos farmacêuticos, e as drogas produzidas no país, incluindo a penicilina benzatina, abastecem o resto do mundo, conforme mostra o trabalho da jornalista brasileira.

    A escassez está ligada a essa dinâmica, aponta a investigação de Guimarães. “Olha que coisa louca o que estou dizendo: o grande problema é ser uma droga barata. Por isso, ninguém quer produzir”, disse o médico infectologista da Unifesp, Jorge Senise, ao Nexo.

    Veja abaixo as causas e consequências da escassez de penicilina no mundo, a partir dos dados trazidos à tona por uma série de reportagens Guimarães, que inclui textos publicados no jornal “Folha de S.Paulo” e no site americano Quartz.

    Por que a penicilina está em falta

    Dependência de alguns poucos fabricantes estrangeiros

    Apenas quatro empresas produzem o ingrediente ativo da penicilina hoje no mundo, segundo a reportagem no site americano Quartz. Três delas estão na China: a North China Pharmaceutical Group Semisyntech Co. Ltd; a CSPC Pharmaceuticals Group Ltd. e a Jiangxi Dongfeng Pharmaceutical Co. A quarta, chamada Sandoz GmbH, tem sede na Áustria.

    ‘Pouca lucratividade’ e produção aquém da capacidade

    Esses poucos fabricantes acabam produzindo menos de 20% de sua capacidade, preferindo direcionar a produção para outros medicamentos mais lucrativos. O baixo retorno financeiro alegado pela indústria se agrava pelo fato de que as nações menos ricas são as que mais precisam da penicilina, por serem as mais vulneráveis à sífilis.

    “A demanda existe, mas vem dos pobres” disse o cardiologista Ganesan Karthikeyan, do “All India Institute of Medical Sciences”, ao Quartz.

    Não há uma estimativa bem calculada da demanda global

    Doenças em que a penicilina é a principal indicação dos médicos, como sífilis e febre reumática, muitas vezes não são quantificadas com precisão nos países de maior incidência, por falta de recursos.

    O que o desabastecimento tem causado

    Mais casos de sífilis congênita

    De 2000 a 2015, o número de bebês nascidos com a doença quase dobrou no Brasil. Só no Rio de Janeiro foram registrados 2.908 casos em 2015, segundo dado da “Folha de S.Paulo”.

    O aumento do número de jovens e adultos infectados com sífilis nos últimos anos está ligado a uma questão comportamental, segundo o infectologista Jorge Senise. A incidência de outras doenças sexualmente transmissíveis, como a Aids, também voltou a crescer entre os jovens devido à queda nas taxas de uso do preservativo.

    Já o crescimento da sífilis congênita está diretamente ligado ao desabastecimento de penicilina, explica Senise. O medicamento é o único tratamento recomendado para sífilis na gravidez, e o único capaz de tratar a doença de forma a não ser transmitida para a criança. No bebê, sífilis causa malformações graves, como cegueira, surdez e problemas ósseos.

    De 2014, quando o desabastecimento teve início, a 2015, a sífilis congênita teve aumento de 19% no país, segundo o Boletim Epidemiológico de 2016  do Ministério da Saúde.

    Bactérias resistentes

    O uso de antibióticos substitutos da penicilina, como os da família dos macrolídeos, acaba resultando em bactérias mais fortes, que já não podem ser combatidas por aqueles antibióticos. O problema é que quando não são usados os medicamentos mais potentes e adequados, diz o infectologista da Unifesp, uma bactéria mais forte vai sendo transmitida e eliminando opções de tratamento.

    Esse fortalecimento das infecções pode se tornar um grande problema de saúde pública, a médio e longo prazo. Um relatório de maio de 2016 encomendado pelo governo britânico estima que 700.000 pessoas morrem por ano devido à resistência adquirida a medicamentos. O estudo prevê que, em 2050, esse número pode chegar a 10 milhões de pessoas por ano - a OMS também colocou a questão na lista de maiores ameaças à saúde pública global do século 21.

    ‘Vista grossa’ no padrão de qualidade do produto

    Sob pressão durante a falta de penicilina, governos e agências reguladoras ficam reféns de seus poucos fornecedores.

    A Semisyntech, uma das fabricantes chinesas de penicilina citadas anteriormente, foi “reprovada” em inspeções realizadas por agências de vários países da União Europeia nos últimos sete anos. Fiscais encontraram falsificações de documentos e problemas nos laboratórios de controle de qualidade, ao ponto de as agências europeias declararem que o risco de contaminação era alto.

    Mesmo assim, no auge da crise de abastecimento da droga em 2016, os países mais atingidos - entre eles o Brasil - adquiriram penicilina da Semisyntech.

    Qual a situação do Brasil

    Procurado pelo Nexo, o Ministério da Saúde disse em nota que “desde 2016, não há desabastecimento de penicilina no Brasil. Todo o País está abastecido com o medicamento, garantindo, assim, o atendimento até o fim de 2017”.

    O Estado e a ‘crise da penicilina’

    2014

    O início do desabastecimento de penicilina benzatina foi acompanhado de um surto de sífilis. Segundo o Ministério da Saúde, antes da crise, o medicamento era adquirido pelos Estados e municípios e distribuído também por eles na atenção básica do serviço de saúde. A compra era feita diretamente dos laboratórios.

    2015

    No início de 2015, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) negou o pedido da North China Pharmaceutical Group Semisyntech de vender penicilina benzatina ao país. No mesmo ano, excepcionalmente devido à situação emergencial de saúde pública, o Ministério da Saúde decidiu adquirir penicilina benzatina para tratar gestantes com sífilis e seus parceiros.

    2016

    Segundo o Ministério, os processos de compra de penicilina foram finalizados em 2016 e resultaram em 700 mil frascos-ampola de benzilpenicilina benzatina adquiridos do Laboratório Teuto, da Pfizer, e 2 milhões de frascos-ampola fornecidos ao Brasil pela Opas, a organização Pan-Americana da Saúde, que pertence à OMS.A Teuto usa a matéria prima da chinesa Semisyntech, que havia sido banida anteriormente pelo órgão regulador por possibilidade de contaminação. 

    Em uma publicação no “Diário Oficial” da União de novembro de 2016, a Anvisa havia aceitado o pedido do Laboratório Teuto que solicita a dispensa, em caráter emergencial, de registrar o produto da Semisyntech. Na prática, isso liberou temporariamente, até 31 de março de 2017, a matéria prima da Semisyntech banida no país.

    Em dezembro, foi publicada uma medida provisória que permitia reajustar os preços de medicamentos à base de penicilina, com o objetivo de estimular a produção nacional do medicamento.

    Segundo Jorge Senise, que também atua como médico no Núcleo Multidisciplinar de Patologias Infecciosas na Gestação (NUPAIG) tratando grávidas contaminadas com sífilis no atendimento público da Unifesp, o acesso à droga em 2016 ainda era difícil.

    2017

    No dia 17 de janeiro, o medicamento passou a fazer parte de uma lista de 52 produtos cuja produção nacional deve receber incentivos do governo federal a partir de parcerias público-privadas. São medicamentos e equipamentos estratégicos para o SUS,  que atualmente são importados. “A ideia é tornar o Brasil independente do mercado internacional em itens fundamentais para a saúde pública”, diz o Ministério da Saúde em nota.

    Para Jorge Senise, a solução é que a produção da droga seja estatal. Sem isso, diz o infectologista ao Nexo, não haverá erradicação da sífilis congênita, uma das metas da OMS.

    A atualização mais recente sobre o ingrediente ativo da Semisyntech no Brasil é um requerimento feito pelo senador José Medeiros (PSD) à Anvisa, interrogando a agência sobre “a situação atual do registro sanitário do medicamento penicilina benzatina produzido pela empresa North China Pharmaceutical Group Semisyntech Co. Ltd”, inspeções realizadas e etc. O documento pode ser consultado aqui.

    Durante esse ano, pacientes têm tido acesso à penicilina (conforme afirmou o Ministério da Saúde) quando são atendidos, disse o médico da Unifesp.

    A descoberta da penicilina

    A penicilina foi descoberta em 1928 pelo médico e biólogo Alexander Fleming.  Ela deriva do bolor produzido pelo fungo Penicillium chrysogenum, capaz de conter infecções bacterianas.

    O medicamento revolucionou a medicina moderna. Antes dele, cirurgias ou cortes infectados e doenças sexualmente transmissíveis como sífilis e gonorreia eram fatais.

     

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto não deixava claro que as causas e consequências da falta de penicilina no mundo haviam sido constatadas a partir de um trabalho de investigação da jornalista Keila Guimarães, que produziu uma série de reportagens sobre o tema e publicou em diversos veículos de comunicação. O texto foi retirado do ar para ajustes no dia 24 de maio de 2017 e republicado, com os devidos créditos, no dia 25 de maio de 2017.

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