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Elas são maioria. Mas o renome costuma ser reservado aos arquitetos

Mulheres estão em maior número na profissão no Brasil, mas profissionais homens ainda são mais lembrados e prestigiados

     

    O número de arquitetas no Brasil cresceu ano a ano de 2012 a 2016. A proporção em relação à quantidade de homens na profissão também aumentou, segundo os dados do registro profissional do CAU, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil. Em 2016, elas eram 62% dos profissionais registrados, 99.660 mulheres em um total de 160.255 arquitetos em atividade no país.

    Apesar de serem, com folga, maioria na profissão, elas não obtêm o mesmo reconhecimento que os homens. Até hoje, Zaha Hadid foi a única arquiteta a ser premiada sozinha, em 2004, com um Pritzker, o prêmio de arquitetura mais importante do mundo. O júri também é composto majoritariamente por homens.

    A falta de reconhecimento torna as arquitetas ausentes de uma história da qual inegavelmente fazem parte. No ensaio “With or Without You: Ghosts of Modern Architecture”, publicado em um catálogo de 2010 do Museu de Arte Moderna de Nova York sobre mulheres artistas, a historiadora Beatriz Colomina escreve: “as mulheres são os fantasmas da arquitetura moderna, sempre presentes, cruciais, mas estranhamente invisíveis”.

    Nos últimos anos, a desigualdade de gênero na arquitetura tem mobilizado mulheres da área a debater e trazer à tona o assunto no Brasil. A exemplo disso, foi realizado em São Paulo, entre 16 e 19 de maio, o seminário internacional “Onde estão as mulheres arquitetas?”, com uma programação em que coletivos, acadêmicas e profissionais brasileiras e estrangeiras discutiram a prática da arquitetura, as parcerias e a visibilidade.

    Arquitetas invisíveis   

    O seminário, realizado por meio de um edital público que firmou uma parceria de fomento entre o Centro Cultural São Paulo e o CAU-SP, com curadoria do escritório de arquitetura Base Urbana, provavelmente não teria esse tema em 2014, quando alunas do curso de arquitetura da Universidade de Brasília se deram conta de que, apesar do grande número de alunas e professoras no corpo docente, havia pouquíssimas mulheres entre as referências bibliográficas.

    “Eu já tinha passado por seis disciplinas de projeto e não tinha sido apresentada a uma quantidade tão significativa de arquitetas quanto de arquitetos”, diz Luiza Dias, aluna do último ano do curso de arquitetura da UnB. 

    O grupo de estudantes de Brasília iniciou uma pesquisa sobre por que as mulheres da arquitetura não estavam sendo estudadas ou sequer mencionadas. Elas fundaram o coletivo “Arquitetas Invisíveis”, que começou como uma página no Facebook com o objetivo de tornar mais mulheres da área conhecidas.

    A página passou a receber mensagens de estudantes de outras partes do Brasil. Elas relatavam que a ausência de mulheres nas referências acadêmicas também era um problema de outras escolas.

    Além de manter um grupo que pesquisa e debate regularmente o tema das mulheres na arquitetura, o coletivo também lançou em 2016 uma revista de mesmo nome. Os escritos sobre o tema no Brasil são escassos e fragmentados, diz Dias, e a revista é uma maneira de abrir espaço para essa investigação.

    O que afasta as mulheres

    Autoria nos escritórios e o ‘star system’

    Em escritórios formados por vários arquitetos, a autoria das mulheres nem sempre é reconhecida. Embora, nesses casos, a autoria seja muitas vezes múltipla, os escritórios mais famosos são frequentemente associados a uma figura masculina.

    “Encorajado pela mídia e pela academia, esse sistema que cria estrelas [na arquitetura] perpetua o pensamento mágico de um artista criativo ímpar que define todo o processo do trabalho em solidão. (...) E embora esse sistema afete ambos os sexos, que desaparecem nessa estrutura piramidal, ele se provou particularmente nocivo para as arquitetas, conspirando para tornar a contribuição delas invisível”

    Em um artigo escrito pelos arquitetos Eva Álvarez e Carlos Gómez

    Publicado na revista “Achitectural Review” em março de 2017

    Apagamento de sua contribuição histórica

    O trabalho do coletivo brasiliense mostra que houve muitas arquitetas relevantes, sobretudo a partir do século 20. Mas, quando trabalharam em parceria com um homem — que muitas vezes era também seu companheiro, forma de inserção das mulheres no campo que era mais aceita nas primeiras décadas daquele século — elas são citadas com nome abreviado, creditadas como coadjuvantes ou simplesmente apagadas.

    “Muitos dos grandes arquitetos que a gente conhece hoje tinha uma parceira tão boa quanto ele”, diz Luiza Dias, do coletivo Arquitetas Invisíveis. O tema da segunda edição da revista do coletivo será, justamente, as arquitetas à sombra. Elas citam Charlotte Perriand e Eileen Gray, parceiras de Le Corbusier; Denise Scott Brown, que trabalhou com Robert Venturi; Lilly Reich, que trabalhou com Mies Van Der Rohe; e Carmen Portinho, que foi parceira de Affonso Reidy. O perfil de todas elas está disponível no site do coletivo.

    Estereótipos e modelos masculinos

    Segundo a estudante da UnB, ainda existe a visão de que mulheres escolhem a arquitetura por gostarem de decoração de interiores, o que não necessariamente é verdade. Essa hipótese continua a vincular as mulheres ao aspecto doméstico, em oposição a um pensamento voltado para o espaço público, que ficaria reservado aos homens.

    A ausência de referências acadêmicas e arquitetas premiadas também é um fato que as desencoraja de projetar e disputar posições de destaque com os homens. Elas têm, por outro lado, se destacado em outras áreas de atuação no Brasil, como o urbanismo. As equipes responsáveis pelo planejamento urbano nos órgãos públicos contam com muitas mulheres.

    Desigualdade salarial e jornada longa

    O trabalho do arquiteto exige dedicação intensa, de muitas horas, e a remuneração muitas vezes não se iguala à dos colegas homens, como em outras áreas. A jornada pesada dos escritórios muitas vezes não é compatível com outras jornadas que as mulheres podem assumir, como o cuidado com a família e o trabalho doméstico. Muitas vezes, de acordo com investigações do coletivo Arquitetas Invisíveis, isso leva mulheres a abandonarem a profissão ou a permanecerem “em um ponto mediano na carreira, para articular outras obrigações”, diz Luiza Dias.

    Estava errado: O Masp foi construído entre 1957 e 1966 e não em 1940, como dizia na legenda da fota da primeira versão deste texto. A informação foi corrigida às 11h20 de 24 de maio.

    A primeira versão desse texto atribuía a organização do seminário "Onde estão as mulheres arquitetas" ao escritório de arquitetura Base Urbana e o Centro Cultural São Paulo. O escritório foi responsável pela curadoria do evento, mas sua realização se tornou possível por meio de um edital público. O projeto foi um dos 15 selecionados entre 130 participantes e viabilizado por uma parceria de fomento entre a AACCSP (Associação dos Amigos do Centro Cultural são Paulo) e o Conselho de Arquitetura e Urbanismo de SP. A informação foi corrigida às 19h33 de 1 de junho.

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