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O áudio da discórdia: o que há nele e qual a reação de Temer

Material foi gravado por Joesley Batista, dono a JBS, no Palácio do Jaburu e é central no inquérito contra o presidente, que contesta autenticidade de material

     

    Na noite de 7 de março de 2017, o presidente da República, Michel Temer, recebeu o empresário Joesley Batista, maior doador de campanhas eleitorais no Brasil. O encontro aconteceu no Palácio do Jaburu, residência oficial da Vice-Presidência em Brasília, e foi todo gravado pelo empresário, sem o conhecimento do peemedebista.

    A ação foi premeditada por Joesley, que buscava produzir provas contra Temer a fim conseguir um acordo de delação premiada. Joesley chegou ao Palácio do Jaburu por volta de 22h30, já com o gravador ligado, e passou pela portaria sem se identificar, com registro apenas da placa do carro que dirigia.

    As empresas do grupo J&F, que controla a JBS, vinham sendo investigadas em várias frentes pela Polícia Federal e o Ministério Público. Temendo as consequências de operações como a Lava Jato, Greenfield, Bullish e Carne Fraca, o dono da empresa resolveu gravar encontros com políticos importantes com quem mantinham contato. Além de Temer, o senador afastado Aécio Neves (PSDB) também foi gravado.

    A existência da delação foi revelada pelo jornal “O Globo” na quarta-feira (17) e a repercussão obrigou o presidente da República a fazer um pronunciamento público dizendo que não renunciará ao cargo.

    O arquivo com o diálogo entre Temer e Joesley só foi divulgado horas depois. Tão logo isso ocorreu, o presidente passou a questionar o conteúdo da gravação. Um laudo encomentado pelo jornal “Folha de S.Paulo” sustenta que o áudio entregue pelo empresário está editado

    No sábado (20), Temer voltou a fazer um pronunciamento, desta vez chamando o áudio de “fraudulento” e atacando diretamente Joesley. “O autor do grampo está livre e solto, passeando pelas ruas de Nova York”, disse o presidente, referindo-se ao acordo de delação que garantiu liberdade aos donos da JBS após a confissão de que pagaram propinas a políticos por dez anos no Brasil.

    O áudio entregue por Joesley não é o único elemento contra Temer - há relatos feitos nos depoimentos de delação, há fotos de aliados próximos do peemedebista recebendo uma mala de dinheiro. Mas mesmo assim é central no inquérito em que o presidente é investigado sob suspeita de corrupção, organização criminosa e obstrução de Justiça. Temer, aliás, quer que esse inquérito, aberto na quinta-feira (18), seja suspenso até que se comprove a autenticidade da gravação.

    No áudio, durante cerca de 30 minutos, Temer e Joesley conversam sobre política, economia e investigações judiciais. Abaixo, o Nexo destaca pontos centrais e explica os trechos do diálogo que provocou a mais grave crise do governo Temer até o momento. O áudio utilizado é o original, fornecido pelo Supremo Tribunal Federal, apenas com ajustes de volume.

    Redução de juros

    O Banco Central vem reduzindo, desde outubro de 2016, gradativamente a taxa básica de juros. No encontro, depois de elogiar o desempenho da economia, o empresário pediu a Temer uma redução mais rápida. O presidente falou em baixar "mais um" ponto percentual e continuar reduzindo os juros "responsavelmente".

    Na reunião do Comitê de Política Monetária ocorrida após o encontro, o Banco Central baixou a Selic em um ponto percentual. Em nota, o BC negou interferência política e disse que as decisões não são antecipadas.

    Eduardo Cunha: ameaças e ajuda

    Temer se queixa de Cunha

    Logo no início da conversa, Joesley questiona Temer sobre como está a relação com Eduardo Cunha. Temer diz que Cunha resolveu o "fustigar", ou seja, castigar. Como exemplo, cita as perguntas indeferidas pelo juiz Sergio Moro.

    Eduardo Cunha colocou Temer como testemunha de defesa na Lava Jato e enviou perguntas a serem respondidas pelo presidente. O juiz Sergio Moro, responsável pela Lava Jato em primeira instância, rejeitou 21 das 41 perguntas feitas pela defesa de Cunha. Na sentença em que condenou o ex-deputado, Sergio Moro disse que Eduardo Cunha tentou chantagear o presidente em busca de “alguma espécie de intervenção indevida”.

    Joesley explica relação com Cunha

    Em seguida, Joesley começa a relatar sua relação com Cunha. O empresário diz que "fez o máximo que deu" e "zerou tudo" com Cunha e lembra de mensagens encontradas no celular do ex-deputado que "tangenciavam" a JBS e completa: "eu estou lá me defendendo".

    O celular a que Joesley Batista se refere foi apreendido na casa de Eduardo Cunha em dezembro de 2015, durante a Operação Catilinárias. Em março de 2017, com Cunha já preso, a Polícia Federal divulgou um relatório em que mostra troca de mensagem entre o ex-deputado e o ex-ministro Geddel Vieira Lima. A suspeita é que eles atuavam juntos para cobrar propina em troca de liberação de empréstimos na Caixa Econômica Federal. Entre as empresas beneficiadas estaria o grupo J&F, da família Batista.

    Temer: Tem que manter isso aí

    O trecho mais polêmico da gravação vem logo depois que Joesley diz a Temer que estava "lá se defendendo" e estava "de bem com Eduardo". Temer diz que "tem que manter". Joesley completa dizendo: “todo mês” e o presidente, em um trecho de qualidade ruim, fala algo parecido com "Funaro também".

    Lúcio Funaro é um lobista ligado a Eduardo Cunha. Ele foi preso em julho de 2016 em uma das etapas da Lava Jato que também mirou a JBS. Ele é acusado de ser o operador de propinas no esquema da Caixa e já foi apontado como potencial delator. Segundo José Yunes, amigo de Temer, foi Funaro quem lhe entregou um pacote de dinheiro com R$ 4 milhões em dinheiro vivo - dinheiro que seria um pagamento acertado por Temer e Eliseu Padilha com a Odebrecht em um jantar no Jaburu.

    Relato sobre obstrução de Justiça

    A conversa sai de Eduardo Cunha e passa para as investigações que têm as empresas de Joesley Batista como alvo. O empresário relata que está "segurando as pontas" e Temer pergunta qual a situação do processo.

    Joesley Batista começa a relatar ao presidente da República suas ações para obstruir a Justiça e o Ministério Público Federal nos processos em que é investigado. Ele diz que "deu conta do juiz", está tentando trocar um procurador responsável por investigá-lo e conseguiu cooptar um procurador como informante dentro do Ministério Público. Temer pergunta se o empresário “está segurando os dois” e com a resposta afirmativa diz: “ótimo, ótimo”.

    O procurador  ngelo Goulart Villela foi preso um dia depois que foi divulgada a notícia da delação premiada, ele era membro da força-tarefa da Operação Greenfield, que investiga a JBS. Sobre os juízes citados na conversa com Temer, o empresário disse que estava blefando. Especialistas ouvidos pelo Nexo dizem que não está claro se reportar os crimes de Joesley à Justiça é um dever do presidente da República, mas que a conversa poderia ser enquadrada como crime de responsabilidade.

    Indicação de Rocha Loures

    Joesley Batista diz a Temer que desde a saída de Geddel Vieira Lima do governo estava sem ter com quem falar e pede ao presidente que indique algum interlocutor para ouvi-lo. Temer indica o deputado Rodrigo Rocha Loures para ser o novo contato de Joesley, mas também cita o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, como alguém “da mais estrita confiança”. Os dois combinam que, em caso de um "assunto desses aí', o empresário vai ao Palácio do Jaburu e fala diretamente com Temer.

    Uma semana depois do encontro no Jaburu, Joesley procurou Rodrigo Rocha Loures e se queixou sobre um problema da empresa no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) e combinou com ele o pagamento de propina. A entrega de R$ 500 mil a Rocha Loures aconteceu em abril e foi monitorada pela Polícia Federal. Há vídeos e fotos da mala de dinheiro.

    Queixas sobre Fazenda e nomeações

    O empresário começa a relatar os pedidos que fez ao ministro da Fazenda. Entre eles estão "ver o nosso lado lá no BC", "mexer na Receita Federal" porque Jorge Rachid, o secretário, está lá há muito tempo. Segundo Joesley, Meirelles se esquiva.

    A partir desse momento, o empresário pede "alguma sintonia" com Temer para poder ter mais força em suas conversas com Meirelles. Joesley diz acreditar que se "for mais firme", acha que Meirelles "corresponde" e Temer pondera que Brasília tem coisas maiores para o ministro da Fazenda. Ao todo, o empresário fala de Receita Federal, BNDES, Cade e Comissão de Valores Mobiliários. O empresário propõe um "alinhamento" com Temer para os casos em que Meirelles dificultar os pedidos e Temer consente: "pode fazer".

    Henrique Meirelles trabalhou no banco da família Batista, mas depois da conversa não houve trocas nos órgãos citados. Indicado por Temer, Rodrigo Rocha Loures teria, em conversa posterior com a JBS, oferecido a troca de comando de órgãos da área econômica.

    Julgamento no Tribunal Superior Eleitoral

    O empresário pergunta a Temer sobre o andamento do processo no Tribunal Superior Eleitoral que pode cassar seu mandato e o presidente disse confiar na consciência política dos ministros. O presidente conta ainda com os recursos que o manteriam no poder até que o processo fosse julgado. "Até lá já terminou o mandato"

    A retomada do julgamento está marcada para o dia 6 de junho. O Ministério Público Eleitoral pediu a cassação da chapa e a inelegibilidade de Dilma Rousseff por oito anos. Dessa maneira, Temer ficaria sem o cargo.

    ‘Estamos combinando o seguinte’

    No fim do encontro, Joesley diz que não vai mais tomar o tempo de Michel Temer e repete os acordos firmados no encontro. O empresário se coloca à disposição para ajudar, mostra satisfação com o alinhamento feito sobre Henrique Meirelles e diz: “estamos lá nos defendendo”.

    Ouça a íntegra do áudio

     

     

    Como Temer reagiu às suspeitas

    No sábado (20), Temer convocou a imprensa para fazer um pronunciamento. O presidente atacou Joesley e colocou em xeque a autenticidade do áudio entregue pelo empresário à Justiça. Veja abaixo os principais trechos da fala do presidente:

    “Essa gravação clandestina –é o que diz– foi manipulada e adulterada com objetivos nitidamente subterrâneos, incluída no inquérito sem a devida e adequada averiguação, levou muitas pessoas ao engano induzido e trouxe grave crise ao Brasil (...)Esse senhor [Joesley], nos dois últimos governos, teve empréstimos bilionários no BNDES para fazer avançar os seus negócios. Prejudicou o Brasil, enganou os brasileiros e, agora, está no Estados Unidos (...)Não há crime, meus amigos, em ouvir reclamações e me livrar do interlocutor, indicando outra pessoa para ouvir as suas lamúrias. E confesso que o ouvi à noite, como ouço muitos empresários, políticos, trabalhadores, intelectuais e pessoas de diversos setores da sociedade brasileira. No Palácio do Planalto, no Jaburu, no Alvorada e em São Paulo (...)

    Lembrem da acusação de que eu dera aval para comprar o silêncio de um ex-deputado. Não existe isso na gravação, mesmo tendo sido ela adulterada. E não existe porque nunca comprei o silêncio de ninguém. Não obstruí a Justiça e não fiz nada contra a ação do Judiciário (...)Não acreditei na narrativa do empresário de que teria segurado juízes, etc. Ele é um conhecido falastrão exagerado. Aliás, depois, em depoimento, podem conferir, disse que havia inventado essa história, que não era verdadeira. Ou seja, era fanfarronice que ele utilizava naquele momento (...)Meu governo, senhores, tem rumo. Acho que os senhores e as senhoras são testemunhas deste fato e sabem que o que foi dito, volto a dizer, no áudio que de resto está sendo impugnado por eventuais –ouço até mencionar que houve mais de 50 edições nesse áudio– tenta macular não só a reputação moral do presidente da república mas tenta invalidar o nosso país. Mas eu digo com toda segurança: o Brasil não sairá dos trilhos. Eu continuarei à frente do governo”

    Michel Temer

    presidente da República

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