Quem é Andrea Neves e qual seu papel na trajetória de Aécio

Presa pela PF, irmã cuidou da imagem e campanhas do senador e teve grande influência no governo mineiro

    Presa preventivamente pela Polícia Federal na quinta-feira (18), Andrea Neves teve papel central na carreira do irmão, o senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG). Os netos de Tancredo Neves (1910-1985) foram implicados na delação premiada dos donos da JBS, Joesley e Wesley Batista, que disseram ter recebido deles um pedido de R$ 2 milhões em propina.

    Segundo o jornal “O Globo”, que revelou o conteúdo da delação da JBS, Andrea foi a primeira a contatar Joesley a respeito do pedido de dinheiro, com o argumento de que seria utilizado para o pagamento de um advogado. Uma mensagem de celular enviada por ela ao empresário foi anexada à investigação feita pela Procuradoria-Geral da República.

    Posteriormente, Aécio se encontrou com o dono da JBS em um hotel em São Paulo e reiterou a demanda. O dinheiro teria sido deixado, segundo a reportagem, em uma empresa do senador Zezé Perrella (PMDB-MG), aliado de Aécio, e a entrega foi filmada pela Polícia Federal.

    Na quinta (18), após ser detida em sua casa em um condomínio de alto padrão na região metropolitana de Belo Horizonte, Andrea foi levada a um presídio feminino na capital, onde foi recebida com xingamentos por um grupo de manifestantes. Uma reviravolta para a principal assessora política do governo de Minas Gerais por 12 anos e conhecida por controlar a imagem pública de Aécio, inclusive na campanha presidencial de 2014, a mão de ferro.

    Um poder discreto

    Com formação em jornalismo pela PUC-RJ, Andrea Neves voltou a sua cidade natal, Belo Horizonte, em 1982, quando Aécio assumiu um cargo no governo estadual de Minas a pedido do avô Tancredo, que era governador. Reservada, Andrea nunca concorreu a um cargo eletivo, apesar de estar filiada ao PSDB desde 1990. Mas passou a atuar ativamente nos bastidores do poder desde então.

    “Acho que existem várias formas de fazer política. Eu faço política. Nunca quis disputar uma eleição, acho que por pura timidez.”

    Andrea Neves

    em entrevista à revista “piauí” de 2014

    Deputado federal de 1987 a 2002, Aécio venceu sua primeira eleição a governador de Minas Gerais neste último ano e, após assumir, nomeou Andrea presidente do serviço de assistência social do Estado, o Servas - posto geralmente “reservado” às primeiras-damas. Mas sua influência foi mais sentida na área de comunicação.

    Junto à chefia do Servas, ela foi designada coordenadora do Grupo Técnico de Comunicação de Governo, criado para reformular toda a estratégia de marketing de Minas Gerais, cargo que exerceu até o fim do segundo mandato de Aécio, em 2010. Cuidou da propaganda oficial e passou a distribuir anúncios entre todos os veículos de mídia do Estado.

    Sua atuação na comunicação foi controversa. Andrea ganhou em Minas o jocoso apelido de “Goebbels das Alterosas”, uma alusão ao ministro Joseph Goebbls, responsável pela propaganda do nazismo de Adolf Hitler. No documentário “Liberdade, essa palavra”, gravado em 2006 pelo então estudante de jornalismo Marcelo Baêta, jornalistas, editores e comentaristas, incluindo um ex-diretor da Globo Minas, afirmam haver coerção do governo estadual mineiro sobre a mídia. O vídeo repercutiu dentro e fora do Estado. Andrea e Aécio sempre negaram censura e atribuíram as acusações a tentativas de difamação por adversários políticos.

    Mesmo quando o irmão deixou o Palácio Tiradentes, sede do governo mineiro construída por ele, Andrea continuou influente em Minas, que passou a ser governada por Antonio Anastasia, afilhado político de Aécio. Continuou presidente do Servas até o fim da gestão do aliado. Ela ainda encabeçou a campanha do irmão ao Senado, em 2010.

    “Quem manda é a Andrea”

    Aécio Neves

    em reportagem do jornal "Estado de S. Paulo" de 2014

    Em 2014, ela atuou tanto na campanha presidencial de Aécio quanto na do tucano Pimenta da Veiga para o governo do Estado, que acabaram derrotados pelos petistas Dilma Rousseff e Fernando Pimentel, respectivamente. Com o crescimento do protagonismo do irmão no cenário nacional, passou a atrair holofotes fora de seu Estado.

    Nesse período, a família Neves se viu diante de um forte abalo de imagem, quando o jornal “Folha de S.Paulo” publicou reportagem que mostrava que um aeroporto havia sido construído na terra de um tio dos irmãos, na cidade de Cláudio (MG), durante a gestão de Aécio no governo estadual. A obra ficava a 6 km da fazenda de propriedade de Andrea e Aécio. Após dez dias de intensa reação contrária à reportagem, o então candidato admitiu que já havia usado o aeroporto para visitar suas terras.

    Em 2016, Andrea trabalhou na campanha de João Leite (PSDB), afilhado de Aécio que tentava, pela terceira vez, assumir a Prefeitura de Belo Horizonte. Ela foi chamada às pressas para “socorrer” a campanha já no segundo turno, mas não conseguiu evitar a derrota para o neófito político Alexandre Kalil (PHS), ex-cartola do clube de futebol Atlético Mineiro. A derrota foi especialmente amarga para Aécio, já que ocorreu no seu suposto “quintal eleitoral”.

    Em março deste ano, antes da prisão, Andrea voltou ao noticiário quando a revista “Veja” publicou reportagem que dizia que um delator da empreiteira Odebrecht havia envolvido seu nome e o do irmão na Operação Lava Jato, antes que o conteúdo dessas delações tivesse se tornado público. Nessa ocasião, ela, que sempre evitou sair dos bastidores, divulgou um vídeo em que, com a voz embargada, afirmava: “Gostaria de poder olhar no olho de cada pessoa que eu conheço, de cada amigo, de cada pessoa que acompanha nosso trabalho, pra dizer é mentira, e nós vamos provar".

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