O que é circuit breaker. E quando ele aconteceu no Brasil

Mecanismo tenta conter volatilidade em ‘momentos atípicos no mercado’. Pandemia de coronavírus foi responsável por sua mais recente utilização

    As negociações do pregão na Bolsa de Valores de São Paulo foram suspensas pela quinta vez em 2020. Nesta segunda-feira (16), às 10h24, a Bolsa ficou paralisada pouco tempo depois que abriu. Antes disso, a quinta-feira (12) viu a suspensão por duas vezes no mesmo dia, e nos dia 9 e 11 de março, a Bolsa havia sido suspensa uma vez em cada dia.

    O procedimento, conhecido como circuit breaker, ocorreu em meio às medidas anunciadas pelo Federal Reserve (FED) e outros bancos centrais, que colocaram em dúvida mercados globais, e o acirramento da pandemia do coronavírus.

    Na semana passada, o procedimento foi adotado no dia 12 em meio à disparada do dólar a R$ 5,01 e aprovação pelo Congresso Nacional da ampliação do Benefício de Prestação Continuada (BPC). No 11, após a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarar estado de pandemia do novo coronavírus. E no 9, em reflexo da brusca queda no preço do petróleo nos mercados internacionais, num processo iniciado ainda no domingo (8).

    Antes desta semana, o circuit breaker havia sido acionado em 2017, quando veio a público o conteúdo da delação premiada dos donos da JBS, Joesley Batista e Wesley Batista, que atingia diretamente o então presidente Michel Temer.

    Como funciona o circuit breaker

    Quando o Ibovespa, ou seja, o índice de desempenho das ações “de maior comerciabilidade e representatividade” de companhias brasileiras na Bolsa, cai 10% em relação ao fechamento do dia anterior, os negócios são interrompidos por trinta minutos.

    Uma queda acentuada dos preços na Bolsa acontece quando a oferta de ações dessas principais companhias é muito maior do que a demanda no momento — ou seja, os investidores estão querendo se livrar dos papéis, mas ninguém quer comprá-los. Esse movimento é tão grande que os valores caem bruscamente.

    A ideia da interrupção é “amortecer” e “rebalancear” as compras e vendas de ativos, segundo o próprio manual de operações da Bolsa, ou seja, “uma ‘proteção’ à volatilidade excessiva em momentos atípicos de mercado”. Espera-se que, durante a pausa, as compras e vendas sejam reorganizadas e, com isso, se evite uma queda livre ainda mais brusca.

    Caso, depois da retomada de atividades, a queda chegue a 15% comparada ao dia anterior, uma nova pausa é decretada, dessa vez por uma hora. Se a variação negativa do Ibovespa persistir após essa segunda pausa e bater os 20%, então os negócios na Bolsa são suspensos por um “prazo definido a seu critério”.

    De onde vem a ideia

    O dia 19 de outubro de 1987 ficou conhecido nos EUA como “Black Monday” (segunda-feira negra, em português), por ter marcado a maior queda percentual em um dia da história até então na Bolsa de Valores de Nova York.

    US$ 500 bilhões

    foi o total de perdas na Black Monday

    A economia americana passava por um momento de altas constantes, fortalecida pelo boom dos computadores pessoais. Mas a confiança nas ações dessas empresas não estava totalmente consolidada. O mercado mundial apresentava volatilidades, o que fez com que investidores na Bolsa americana vendessem suas ações para comprar investimentos mais seguros — como títulos, por exemplo.

    O êxodo foi massivo, e a queda da Bolsa americana foi de 22,6% naquele dia. Naquele mesmo mês de outubro, a Bolsa de Nova York instituiu o circuit breaker, também dividido em três níveis, embora lá eles sejam baseados em pontos, e não em queda percentual, como em São Paulo.

    As outras vezes do Brasil

    Essa foi a 17ª vez que o mecanismo foi acionado no Brasil. A ocasião anterior aos cinco circuit breakers de 2020 aconteceu em 18 de maio de 2017, e ficou conhecida no jargão do mercado financeiro como Joesley Day, em alusão ao nome do empresário que envolveu em sua delação premiada o nome do então presidente Michel Temer, posteriormente denunciado pelo Ministério Público pelos crimes de obstrução de Justiça, no qual foi absolvido, e corrupção passiva. O episódio gerou instabilidade política no país em um momento em que Temer conduzia uma agenda de reformas econômicas cujo sucesso era esperado pelo mercado.

    Antes disso, a bolsa paulistana havia acionado o circuit breaker em 2008, quando o Congresso dos EUA recusou um pacote de ajuda financeira do governo ao mercado, na época afetado pela bolha do setor imobiliário no país. A notícia gerou instabilidade em todo o mundo, e o Brasil não ficou de fora.

    Antes disso, em 14 de janeiro de 1999, o circuit breaker também foi acionado quando a ainda chamada Bovespa (hoje se chama BM&FBovespa) despencou mais de 10% em um dia em momento de desvalorização acentuada do real. A equipe de economia do governo decidiu adotar, entre outras medidas que geraram incertezas nos investidores, o câmbio livre. O mesmo havia acontecido no dia anterior.

    O fim da década de 1990 não era tão estranho ao circuit breaker quanto os tempos atuais. Além das situações já citadas, o mecanismo foi acionado em outras oito ocasiões. As ocorrências estavam associadas a crises internacionais: a russa em 1998, e a asiática em 1997. Além da Bovespa, a Bolsa do Rio de Janeiro (BVRJ), que não existe mais, viveu a paralisação.

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