Aécio: do abraço em Temer ao afastamento do Senado

Delatores dizem que senador pediu R$ 2 milhões a empresário. Irmã e primo de tucano foram presos pela Polícia Federal no mesmo esquema

    O Supremo Tribunal Federal afastou do cargo, nesta quinta-feira (18), o senador Aécio Neves (PSDB-MG). No mesmo dia, a irmã e assessora do tucano, Andrea Neves, assim como seu primo Frederico Pacheco foram presos preventivamente pela Polícia Federal.

    A Procuradoria-Geral da República chegou a pedir também a prisão do senador, mas o ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo, negou o pedido monocraticamente (sozinho). Se houver recurso, o caso será submetido à votação no plenário da Corte, que é composta por 11 ministros.

    Aécio pediu licença da presidência do partido. Opositores querem a cassação do mandato do tucano no Senado.

    Qual a razão do cerco a Aécio agora

    Aécio é citado na delação dos donos da JBS, os irmãos Joesley e Wesley Batista. A delação foi homologada nesta quinta-feira (18) pelo Supremo.

    O teor da delação não foi liberado pelo Supremo, mas vazou no jornal “O Globo” na quarta-feira (17). De acordo com a versão disponível, os irmãos apresentaram à Justiça uma gravação, feita no dia 24 de março de 2017, num hotel de São Paulo, na qual Aécio pede R$ 2 milhões à JBS para pagar sua própria defesa na Lava Jato.

    Ao discutir a forma de entrega do dinheiro, o tucano indicou o próprio primo, Frederico Pacheco, como intermediário da transação, dizendo: “Tem que ser um que a gente mata ele antes de fazer delação. Vai ser o Fred com um cara seu. Vamos combinar o Fred com um cara seu porque ele sai de lá e vai no cara. E você vai me dar uma ajuda do caralho.”

    Segundo diálogos com Joesley revelados pelo Buzzfeed, Aécio fala em barrar a Lava Jato. Tucano afirma ainda que o ministro da Justiça, Osmar Serraglio, é um “bosta do caralho” e que Temer errou ao nomeá-lo para o cargo. A Polícia Federal é submetida ao Ministério da Justiça.

    Os donos da JBS avisaram a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal, que colocou rastreadores em malas de dinheiro que foram entregues na Tapera Participações Empreendimentos Agropecuários, da família do senador Zeze Perrella (PMDB-MG).

    Em nota, Aécio disse que está “absolutamente tranquilo quanto à correção de todos os seus atos”. Segundo seu advogado, o senador está “inconformado e surpreso”. Aécio afirma ainda que a relação com Joesley “era estritamente pessoal, sem qualquer envolvimento com o setor público”.

    Qual o papel atribuído à irmã do senador

    Andrea Neves é considerada intermediária entre o irmão, Aécio, e os empresários da JBS na negociação do pagamento de R$ 2 milhões citado na delação.

    Ela teria estabelecido contato com os empresários antes que o próprio senador entrasse em cena.

    A operação que levou à prisão de Andrea foi batizada pela Polícia Federal de Patmos, nome da ilha grega na qual, segundo a Bíblia, João recebeu as revelações contidas no livro Apocalipse.

    Qual o momento político de Aécio

    Na cerimônia em que assumiu a Presidência da República, no dia 12 de maio de 2016, após o afastamento da petista Dilma Rousseff em meio ao processo de impeachment, Michel Temer foi abraçado pelo senador Aécio Neves. Ambos se saudaram em primeiro plano, tendo ao fundo, mais de uma dezena de outros políticos que assumiriam o ministério do novo governo.

    A cena deixava claro o papel de protagonista do PSDB — e, pessoalmente, de Aécio Neves — na linha de frente do novo governo, menos de dois anos depois de o tucano ter sido derrotado nas urnas por Dilma.

    O que parecia uma volta por cima, no entanto, mostrou ser uma parábola. Depois do ápice, na posse de Temer, Aécio começou a descer. Citado em delações da Lava Jato, o senador perdeu força até mesmo dentro do próprio partido.

    Aécio já havia sido citado em fevereiro de 2015 pelo doleiro Alberto Youssef em delação premiada. O delator disse ter ouvido do ex-deputado federal José Janene (PP), morto em 2010, que Aécio receberia parte da propina paga por empresas beneficiadas por concorrências fraudadas na estatal de Furnas, entre 1996 e 2001. Em junho de 2016 — um mês depois da foto ao lado de Temer — o Supremo reafirmou o prosseguimento da investigação contra o tucano.

    No mesmo mês, junho de 2016, o ministro Gilmar Mendes também autorizou a abertura de inquérito para investigar a denúncia de que Aécio maquiou dados do Banco Rural que haviam sido entregues à CPI dos Correios em 2005 e 2006. A informação havia sido revelada pelo ex-senador Delcídio do Amaral, que presidiu a CPI à época e hoje está preso na Lava Jato. De acordo com ele, os dados do Rural continham detalhes sobre pagamentos ilegais recebidos por políticos tucanos — entre os quais, o próprio Aécio — no esquema apelidado de mensalão, no qual dinheiro público era desviado para compra de apoio parlamentar no Congresso. O senador disse que “jamais” teve “qualquer contato” com Delcídio sobre esse assunto.

    Um ano depois, em fevereiro de 2017, veio a público a delação do ex-presidente da Odebrecht Infraestrutura Benedicto Júnior, na qual Aécio foi citado como receptor de cerca de R$ 40 milhões em propina na construção da Cidade Administrativa, em Minas Gerais, quando era governador. O valor corresponde a um percentual que variava entre 2,5% e 3% do total da obra, orçada em R$ 2,1 bilhões. O senador classificou a delação como “falsa e absurda”.

    “Chegou a hora de você sair da presidência nacional do PSDB”, disse o vereador paulistano Mario Covas Neto, se referindo a Aécio, nesta quinta-feira (18), um dia depois de vir a público a delação da JBS.

    Na mais recente pesquisa Datafolha, de abril de 2017, Aécio aparece com apenas 8% das intenções de voto, em quarto lugar. Entre os nomes do PSDB, o índice ainda é superior às simulações feitas com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que alcança os 6%, mas é inferior ao obtido pelo prefeito paulistano, João Doria, que tem 9%.

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