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O dilema das mulheres: se apresentar como uma profissional ambiciosa ou uma ‘boa esposa’

Solteiras tendem a evitar parecer ‘ambiciosas demais’, ao contrário daquelas que se casaram, aponta pesquisa americana

    Não é incomum que encontros amorosos e mesmo a escolha de parceiros para a vida inteira ocorram no trabalho. Segundo uma pesquisa realizada entre 2009 e 2015 pela Universidade de Stanford com 4.002 adultos americanos, 16% encontraram seus parceiros nesse ambiente - mais do que em qualquer outra situação isolada.

    A relação de uma pessoa com a própria carreira é um fator importante nas relações afetivas. Publicado em janeiro de 2017 pelo NBER (The National Bureau of Economic Research) ou Escritório Nacional de Pesquisa Econômica dos EUA em sua série de Working Papers, o trabalho “‘Agindo como uma esposa’: incentivos do mercado de casamentos, e investimentos no mercado de trabalho” conclui que, como forma de se tornarem mais desejadas, mulheres solteiras se apresentam para colegas como menos ambiciosas profissionalmente.

    Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores estudaram a forma como elas respondiam a questionários utilizados para obter vagas de estágio em um programa de MBA (Mestrado em Administração de Negócios) de elite dos Estados Unidos, um passo importante para profissionais que desejam se tornar administradores em grandes corporações.

    A conclusão foi de que as solteiras se apresentavam como menos ambiciosas quando acreditavam que suas respostas seriam compartilhadas com colegas (entre eles, potenciais parceiros amorosos) do que quando acreditavam que o resultado seria mantido no departamento de carreiras da universidade. Isso não se observava entre mulheres casadas ou homens em geral.

    “Mulheres solteiras podem tentar aumentar suas opções de casamento ao ‘agir como esposas’. Por outro lado, para o homem, as consequências das ações no mercado de trabalho e no de casamento são mais alinhadas: mulheres valorizam a inteligência e a educação de seus parceiros, mesmo quando elas excedem as suas próprias”

    Pesquisa “‘Agindo como uma esposa’: Incentivos do mercado de casamento, e investimentos no mercado de trabalho

    Mostrando menos ambição

    Na primeira parte do trabalho, os estudantes de uma universidade (cujo nome não foi divulgado) responderam a um questionário distribuído pelo departamento responsável por gestão de carreiras da instituição.

    Normalmente, o documento é usado para obter vagas de estágios durante as férias de verão para os estudantes de MBA. Essas vagas podem ser determinantes para o resto de suas carreiras: segundo a pesquisa, cerca de 50% dos alunos da turma anterior do programa haviam recebido ofertas de emprego dos locais em que haviam estagiado. Entre os pontos questionados estavam:

    • Salário anual almejado
    • Disposição para viajar a trabalho
    • Disposição para trabalhar longos períodos
    • Ambição profissional
    • Tendência a assumir o papel de líder

    O interesse era descobrir como as estudantes solteiras responderiam se acreditassem que potenciais parceiros poderiam ver suas respostas. Elas se mostrariam menos ambiciosas para, por outro lado, parecerem mais interessantes como parceiras?

    Para isso, uma parte dos estudantes foi informada de que suas respostas seriam compartilhadas com o resto da turma. Outra parte acreditava que elas seriam enviadas apenas ao departamento de carreiras. Ninguém sabia que o questionário fazia parte de uma pesquisa acadêmica.

    Quando acreditavam que as informações seriam compartilhadas com o resto da turma, elas:

    • Afirmavam almejar US$ 18 mil a menos por ano do que as casadas
    • Se mostravam dispostas a viajar sete dias a menos por mês do que as casadas
    • Tinham uma disposição de trabalhar quatro horas a menos por semana do que as casadas
    • Apontavam menos ambição profissional do que as casadas
    • E menos tendência a assumir o papel de líderes do que as casadas

    Quando mulheres solteiras mostram menos ambição

     
     

     

    As respostas de mulheres casadas e homens solteiros e casados não se mostravam diferentes, em média, quando os entrevistados acreditavam que elas seriam divulgadas entre os colegas. Os pesquisadores interpretaram isso como um indício de que as mulheres solteiras se mostraram menos ambiciosas para que fossem mais desejadas como parceiras.

    Se as pesquisas fossem de fato utilizadas pelo centro de carreiras da instituição, isso teria impactado o estágio profissional das alunas e, potencialmente, o resto de suas carreiras.

    Como exemplo, a pesquisa aponta que as mulheres que se apresentaram como pouco dispostas a trabalhar muitas horas seriam afastadas de vagas em bancos de investimento. E as que se mostraram pouco dispostas a viajar, afastadas de trabalhos de consultoria, em que é comum se deslocar pela maior parte da semana para estudar uma empresa cliente.

    Para não penalizar as estudantes solteiras, o centro de gestão de carreiras não usou o resultado do questionário daquela turma.

    Empregos melhores para a carreira ou para a vida pessoal?

    Os pesquisadores realizaram uma pesquisa suplementar para buscar confirmar os resultados anteriores.

    Os alunos foram divididos em grupos de seis ou sete pessoas, e receberam um pequeno questionário em que respondiam o que mais desejavam: se um trabalho exigente focado em carreira, ou um mais tranquilo, que se ajustaria melhor à vida pessoal.

    Os pesquisadores afirmaram que as respostas individuais poderiam ser discutidas com o grupo - ou seja, expostas aos colegas. Entre eles, potenciais parceiros. As opções eram as seguintes:

    • Uma vaga com alto salário, mas que exigia 55 a 60 horas de dedicação por semana. Ou uma com baixo salário, mas duração de 45 a 50 horas por semana
    • Uma vaga que exigia viagens constantes, mas oferecia a possibilidade de promoção rápida. Ou uma em que não se viajava, mas que oferecia menos oportunidades de promoção

    As mulheres solteiras foram distribuídas de forma que algumas delas tinham colegas homens em seus grupos. E outras, apenas colegas mulheres.

    • Entre as solteiras que estavam em grupos formados apenas por colegas mulheres, 68% afirmaram preferir trabalhar mais e ganhar mais. E 79% preferiram uma vaga em que se viajava muito, mas havia possibilidade de promoção
    • Quando estavam em grupos com homens, apenas 42% das solteiras afirmaram preferir trabalhar mais e ganhar mais. E apenas 37% afirmaram preferir viajar muito, mas ter possibilidade de promoção

    O estudo também descobriu que mulheres solteiras tinham uma disposição ainda menor em escolher as opções focadas em carreira quando estavam em grupos com homens solteiros, e não em grupos com homens casados. Isso foi encarado como um indício de que as solteiras se mostravam menos ambiciosas para parecer uma potencial “esposa melhor”.

    Resultados em testes e a opinião das mulheres sobre si mesmas

    A pesquisa também analisou as notas obtidas pelas mulheres não casadas em provas mantidas sigilosas e suas notas de participação nas aulas. Com isso, buscou analisar se mulheres solteiras tenderiam a se mostrar menos como protagonistas nas aulas do que as não solteiras - o que piorava sua nota de participação - e como elas se sairiam, por outro lado, em provas individuais, em que talento e ambição não eram imediatamente revelados à turma.

    A conclusão foi de que as notas em provas de mulheres solteiras são similares. O mesmo acontece entre homens solteiros ou casados.

    Já a nota de participação de mulheres solteiras era consideravelmente menor do que a de mulheres casadas. A mesma diferença não ocorre entre homens solteiros ou casados.

    Em uma pesquisa adicional, 73% das mulheres solteiras afirmaram que haviam evitado atitudes que poderiam ser positivas para suas carreiras, mas que, por outro lado, poderiam fazer com que parecessem “ambiciosas, assertivas ou insistentes demais”.

    “Nossos resultados sugerem que mulheres solteiras evitam ações que ajudariam suas carreiras por causa de uma preocupação com o mercado de casamento”

    Pesquisa “‘Agindo como uma esposa’: incentivos do mercado de casamento, e investimentos no mercado de trabalho

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