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Como a diplomacia se equilibra no dilema entre persuadir ou excluir adversários

Testes atômicos da Coreia do Norte dividem líderes sobre dialogar ou endurecer com governos que desafiam resoluções internacionais

     

    O presidente russo, Vladimir Putin, defendeu nesta segunda-feira (15) a “retomada do diálogo” com a Coreia do Norte. Ele afirmou também que é preciso “parar de intimidar” o regime encabeçado pelo ditador Kim Jong-un.

    A declaração do líder russo destoa do padrão agressivo que vem sendo seguido sobretudo pelos EUA para lidar com os testes de armas atômicas realizados pelo governo norte-coreano.

    Veja a frase de Putin, em entrevista coletiva realizada em Pequim, na China:

    “Temos que retornar ao diálogo, parar de intimidar a Coreia do Norte e encontrar uma solução pacífica para resolver este problema”

    Vladimir Putin

    Presidente da Rússia, ao comentar a resposta internacional aos testes nucleares da Coreia do Norte, no dia 15 de maio

    Agora veja o que o vice-presidente americano, Mark Pence, havia dito um mês antes, em visita ao Japão:

    “Derrotaremos qualquer ataque e reagiremos ao uso de qualquer arma convencional ou nuclear com uma resposta esmagadora”

    Mike Pence'

    Vice-presidente dos EUA, em 19 de abril

    A declaração de Putin foi feita após o governo norte-coreano ter divulgado imagens do lançamento de um foguete “de médio-longo alcance” capaz de transportar uma ogiva nuclear e de atingir o território russo.

    A divergência entre russos e americanos reproduz um dilema sempre presente na hora de definir estratégias para lidar com países que se mostram impermeáveis às críticas internacionais.

    Nesses casos, diferentes estrategistas se dividem entre duas formas opostas de agir, ambas de resultado incerto.

    A opção dura: excluir

    O que é

    Nessa primeira opção, mais dura, são impostas sanções econômicas que impedem tanto a entrada de bens quanto a circulação de recursos financeiros. O país atingido pelas medidas também pode ser suspenso de organismos internacionais, se tornando um Estado pária na comunidade. Medidas ainda mais duras, como a militarização da fronteira ou o estabelecimento de zonas de exclusão aérea também podem vigorar, com aprovação do Conselho de Segurança, além da realização de ataques contra alvos estratégicos.

    Quais as vantagens

    Neste caso, o governo violador recebe uma mensagem clara de rechaço internacional. Ele pode ficar privado do acesso a bens estratégicos para a produção de armas e seus líderes sofrem restrições de movimento internacional e ficam com bens congelados.

    Quais as desvantagens

    Sanções duras como essas podem romper os canais de diálogo. Embaixadas são fechadas, embaixadores são chamados de volta a seus países de origem, e muitos governantes autoritários passam a usar essas punições para justificar um endurecimento ainda maior, como se estivessem lidando com um complô internacional - frequentemente atribuído a grandes potências, especialmente aos EUA, país que exerce grande influência nos debates sobre uso da força nas relações internacionais.

    A opção suave: persuadir

    O que é

    Nessa segunda opção, diferentes governos se esforçam para abrir ou reabrir embaixadas, manter canais de diálogo fluído, fazer críticas de maneira bilateral e evitar ao máximo a midiatização das divergências, uma vez que esses atritos públicos podem ser usados como combustível por uma oposição interna mais radical. A persuasão pode ainda incluir a oferta de vantagens comerciais alternativas caso o regime abdique de programas militares agressivos.

    Quais as vantagens

    A principal vantagem é manter o acesso físico a países que, de outra forma, estariam completamente fechados a qualquer escrutínio externo. Assim, investigadores das Nações Unidos podem monitorar programas nucleares ou garantir a extinção de arsenais de armas químicas. Aumenta a previsibilidade sobre as atitudes desses regimes, contribuindo para a redução da incerteza e da tensão.

    Quais as desvantagens

    Líderes autoritários podem usar essa proximidade como um sinal de aprovação a suas políticas, mostrando que continuam tendo trânsito e confiança entre as potências, manipulando o discurso para apresentar-se como um regime digno de crédito e aberto ao diálogo. Com isso, garantem sobrevida sempre maior, conseguindo tempo para reprimir dissidentes internos e para robustecer investimentos militares.

    Frequentemente, ocorrem combinações de diferentes estratégias, de forma coordenada ou não. É possível que o Conselho de Segurança das Nações Unidas decida por uma política menos agressiva em relação a determinado país, enquanto órgãos regionais, como a União Africana ou a OEA (Organização dos Estados Americanos), por exemplo, prefiram adotar medidas mais duras, quando se trate de combater uma ameaça geograficamente mais próxima de seus países membros. Recentemente, três casos mostraram a aplicação de diferentes estratégias:

    Três caminhos distintos

    Venezuela: exclusão apenas regional

    A Venezuela vive uma grave crise política e econômica, marcada pela acusação de que o governo prende opositores por razões políticas. O país é visto como um foco de instabilidade de alcance apenas regional, não mundial. Por isso, o Mercosul se encarregou de suspender o país do bloco.

    Foi uma decisão radical, pela suspensão total. Em consequência, o próprio governo venezuelano anunciou a intenção de se retirar de um bloco ainda mais amplo, a OEA (Organização dos Estados Americanos). As duas medidas apontam para um isolamento dos venezuelanos nas Américas. Com isso, observadores eleitorais da OEA podem não mais verificar a realização de eleições e referendos nacionais no país.

    Coreia do Norte: tensão entre aproximar e repelir

    A Coreia do Norte é vista como uma ameaça de alcance global, pelo desenvolvimento de armas nucleares e de mísseis balísticos de longo alcance. O país asiático está oficialmente em guerra com a Coreia do Sul desde 1953, quando ambos países assinaram um armistício pondo fim ao conflito iniciado em 1950, entre o norte, comunista, e o sul, capitalista, embalados pela Guerra Fria.

    Apesar de ser considerado um dos regimes mais fechados do mundo, o Brasil possui embaixada na capital, Pyongyang. E presidentes como Putin ainda falam em “não amedontrar o regime”. A China mantém cooperação econômica com os norte-coreanos, mas os EUA militarizaram pesadamente a fronteira sul do país. As diferentes atitudes mostram a combinação de diferentes abordagens.

    Irã: opção pela aproximação

    O Irã chegou a ser chamado de membro do “eixo do mal” - juntamente com os governos da Coreia do Norte e do Iraque -, pelo presidente dos EUA George W. Bush. A declaração foi feita em 2002 e deixava claro que o país era um inimigo declarado da Casa Branca.

    A situação se tornou ainda mais tensa a partir de 2010, com a descoberta de que o país vinha investindo pesadamente num programa nuclear de grandes proporções. Os americanos diziam que o programa tinha finalidade militar, mas os iranianos negavam.

    Barack Obama, que havia assumido um ano antes, deixou de lado a retórica belicista e apostou num acordo nuclear com o Irã, pelo qual foi duramente criticado internamente. O acordo surtiu efeito e a aproximação entre os países disssipou o risco de ataques militares.

    ‘Não há receita pronta. Depende do caso’

    O Nexo conversou sobre esse dilema com o doutor em sociologia e professor de relações internacionais da UnB (Universidade de Brasília), Alcides Costa Vaz.

    É possível saber o que é mais eficiente na relação com regimes violadores: repelir ou aproximar?

    Alcides Costa Vaz Falamos, nas relações internacionais, no dilema entre cooperação e conflito. Cada caso é um caso. Depende da conveniência.

    No caso do [governo de segregação racial] Apartheid na África do Sul, por exemplo, o isolamento internacional favoreceu o argumento autoritário e não deu incentivos à mudança, que acabou ocorrendo muito mais pela pressão de fatores internos.

    Nem sempre o forte isolamento provoca mudanças nos processos políticos domésticos, que são importantes na dinâmica de mudança nesses países. O mesmo se pode dizer agora sobre a Venezuela. O isolamento regional não é determinante. A dinâmica interna, será.

    Qual a melhor estratégia em casos extremos, como o da Coreia do Norte?

    Alcides Costa Vaz Um grupo de seis países [Coreia do Norte, Coreia do Sul, Japão, China, Rússia e EUA] passou mais de dez anos dialogando sobre a questão norte-coreana. A avaliação desse processo é ambígua no final.

    Por um lado, há os que dizem que isso serviu para manter um canal aberto de diálogo. Por outro, há os que afirmam que foi justamente esse diálogo que deu o tempo necessário para que a Coreia do Norte chegasse aonde chegou com seu programa nuclear, atualmente. Depois que o regime dominou o ciclo do urânio, o grupo não tinha mais razão de ser.

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