O depoimento de Lula a Moro na Lava Jato em 12 tópicos

A partir da gravação original da audiência, ‘Nexo’ destaca os pontos principais da defesa, as perguntas do juiz e dos procuradores, além dos embates entre as partes e as críticas do petista à Lava Jato e à imprensa

    As cinco horas de depoimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao juiz Sergio Moro, responsável pela Operação Lava Jato na primeira instância, em Curitiba, nesta quarta-feira (10), foram marcadas tanto pelo esforço da defesa em desconstruir as acusações tecnicamente, quanto pela tentativa de colar na operação a tese de que tudo não passa de uma perseguição política articulada entre investigadores e a imprensa.

    Lula desafiou abertamente seus acusadores a apresentar provas documentais que estabelecessem a conexão definitiva entre ele  e um tríplex em Guarujá. Na tese do Ministério Público, o apartamento teria sido reformado pela empreiteira OAS em retribuição a favores obtidos do ex-presidente em contratos milionários com a Petrobras. As melhorias têm valor estimado em R$ 2,4 milhões.

    Além do apartamento, a empreiteira também teria custeado o armazenamento de bens pessoais do ex-presidente nos armazéns de uma empresa de mudanças, após Lula ter deixado a Presidência, em janeiro de 2011. O gesto também é interpretado como uma forma de repassar propina ao petista, que é réu em outros quatro processos.

    Além da acusação formal, o juiz Moro apresentou questões mais abrangentes sobre a relação de Lula com membros do PT, os mecanismos de indicações políticas em estatais como a Petrobras e outros tópicos que, a todo momento, motivaram a interferência dos advogados de defesa. Para os defensores, o juiz extrapolou seguidamente o objeto da denúncia, o que confirmaria a tese de que há uma inspiração política maior em todo o processo.

    Por vezes, o depoimento foi tenso, com interações ríspidas sobretudo entre Moro e a equipe que defende Lula. O ex-presidente disse que os procuradores que o acusam “não têm provas”, que a imprensa “é o principal julgador” do caso e que Moro nem sequer deveria ter aceitado as denúncias que o levaram ao banco dos réus. Lula reclamou ainda das escutas telefônicas ordenadas por Moro e da condução coercitiva da qual foi alvo, em São Paulo, em março de 2016.

    O ex-presidente também declarou ao juiz o que mais tarde repetiu durante ato realizado numa praça pública em Curitiba: que é candidato à eleição presidencial em 2018. A definição da candidatura vai depender, no entanto, além da decisão pessoal de Lula e partidária, da conclusão dos processos em que é réu. Se condenado por Moro em primeira instância e se a condenação for confirmada na segunda instância por um colegiado de juízes, Lula pode ser enquadrado na Lei da Ficha Limpa e se tornar inelegível.

     “Se quisesse ser candidato, eu seria em 2014, mas, depois de tudo isso que está acontecendo, eu estou dizendo, em alto e bom som, que vou querer ser candidato à Presidência da República outra vez”

    Luiz Inácio Lula da Silva

    ex-presidente, em depoimento a Moro

     

    O Nexo organizou a oitiva em 12 tópicos e explicou o contexto das frases de cada um dos envolvidos no longo depoimento que pode marcar o futuro de Lula, que é líder em todas as pesquisas de intenção de voto para a eleição presidencial de 2018.

    De quem é o apartamento

    Lula diz que nunca manifestou qualquer interesse pelo tríplex no qual a OAS fez as melhorias milionárias. A esposa do petista havia pagado cotas de um consórcio habitacional que davam direito a um apartamento simples no condomínio em questão, não ao tríplex.

    O ex-presidente assegura que, desde a primeira vez que esteve no local, em 2014, deixou claro para a mulher, Marisa Letícia, que não tinha interesse em qualquer um dos apartamentos do condomínio.

    ‘Léo disse: ‘Eu vou fazer uma proposta [de reforma] e te faço [uma proposta]’ e nunca mais falou comigo sobre o apartamento’

    “Eu fui ver o apartamento, coloquei 500 defeitos no apartamento, voltei e nunca mais conversei com o Léo [Pinheiro, então dono da OAS] sobre o apartamento”, disse no depoimento. O empreiteiro teria então falado em fazer mudanças no imóvel, mas, para Lula, se tratava de um investimento da construtora que se destinava a vender o apartamento a qualquer um, não necessariamente à família de Lula.

    “Eu sou uma figura pública e só poderia ir naquela praia na segunda-feira ou na Quarta-feira de Cinzas”, disse Lula, mostrando que o problema não estava restrito apenas às questões estruturais. “Léo disse: ‘Eu vou fazer uma proposta [de reforma] e te faço [uma proposta]’ e nunca mais falou comigo sobre o apartamento”, disse o petista.

    Uma das reformas feitas foi a instalação de um elevador. “Essa do elevador é uma das anomalias do Ministério Público, pelo menos do pessoal da Lava Jato. Eu vi pela imprensa que o Ministério Público tinha dito que eu tinha pedido ao Léo [Pinheiro] para colocar um elevador. Isso aqui, doutor [entregando foto impressa a Moro] é uma escada caracol. Essa escada tem 16 degraus. Essa escada é do meu apartamento, onde eu moro há 18 anos [em São Bernardo do Campo]. Dona Marisa, há exatamente seis anos, tomava remédio todo santo dia para dor nas cartilagens. Será que alguém de bom senso nesse país imagina que eu ia pedir um elevador num apartamento que não era meu, e deixar de pedir para fazer um no prédio em que a Marisa vivia havia 20 anos, e que tomava remédio todo santo dia?”, questionou Lula, antes de afirmar que tudo não passava de uma mentira.

    O gato e rato da cronologia dos fatos

    A determinação da ordem dos fatos é fundamental para Sergio Moro tirar uma conclusão sobre a inocência ou a culpa de Lula. Sobretudo na primeira parte da audiência, o juiz repetia perguntas muito semelhantes, dando a impressão de pressionar o presidente para que ele respondesse de maneira conclusiva sobre datas e encontros, mas Lula, aparentando impaciência, tendia a generalizar as informações ao responder pela segunda ou terceira vez a mesma pergunta reformulada.

    Para Moro, a questão central era saber se Lula havia manifestado desinteresse no negócio antes ou depois de a OAS ter realizado as melhorias.

    ‘Não sei se o sr. tem mulher. Nem sempre elas perguntam para a gente o que elas vão fazer’

    A mulher de Lula, Marisa Letícia adquiriu em 2005 uma cota de participação na Bancoop, cooperativa habitacional dos bancários, que daria direito, no futuro, à aquisição de um apartamento naquele edifício. A entrega do imóvel seria em 2007, mas o cronograma não estava sendo cumprido e a obra atrasou.

    Em 2009, a obra foi incorporada pela empreiteira OAS, que concluiu a construção do imóvel em 2013.

    Dados os atrasos, a OAS deu a todos os cooperados a opção de que eles ficassem com um apartamento ou resgatassem o valor investido. Todos os consorciados tomaram suas decisões em 2009. Apenas Marisa Letícia decidiu, em 2014, se desfazer do negócio. Este intervalo, na tese da acusação, diz respeito às melhorias que vinham sendo feitas pela OAS.

    Lula disse que só tratou do apartamento duas vezes na vida, mas citou três. “Eu ouvi falar desse apartamento em 2005, quando comprou. E fui voltar a ouvir a falar desse apartamento em [fevereiro de] 2014 [quando o visitou]”, disse o ex-presidente.

    Em outro trecho do depoimento, o presidente faz referência a uma terceira conversa sobre o imóvel: “Eu tratei do tríplex com o Léo [Pinheiro, da OAS] uma vez, que ele foi no Instituto [outubro de 2013] dizer que eu tinha de visitar [o tríplex]. E o dia que eu fui visitar o prédio [em fevereiro de 2014]. Nunca mais tratei de tríplex nem de quadrúplex”.

    Mesmo depois de Lula ter dito que não queria mais o apartamento, Marisa voltou depois ao local, na companhia do filho, em 2014. Lula disse que não soube que a mulher havia feito essa viagem. E afirmou que ela provavelmente pretendia vender o imóvel ou adquirir outro apartamento da mesma construtora, pois ela mesma “não gostava de praia”.

    “Eu não sabia que ela tinha ido [novamente ao Guarujá, depois de anunciada a desistência]. Não sei se o sr. tem mulher. Nem sempre elas perguntam para a gente o que elas vão fazer”, disse a Moro.

    Citações a Marisa Letícia

     

    Lula disse o tempo todo que a entrada no consórcio do apartamento foi uma decisão da mulher, Marisa Letícia. A ex-primeira dama morreu em fevereiro de 2017.

    Na versão do petista, o pagamento das cotas e as visitas ao local foram puxadas por ela, não por ele. E a relutância em romper de vez o envolvimento com imóvel também sempre foi mais dela do que dele.

    Num dado momento, o ex-presidente chegou a pedir que não se envolvesse a mulher na história. “Eu só queria, doutor Moro, pedir uma coisa. É muito difícil para mim toda hora que o sr. cita a minha mulher sem ela poder estar aqui para se defender. É muito difícil. É uma pena. E uma das causas pelas quais ela morreu foi a pressão que ela sofreu. Eu não quero nem discutir isso. Quando se trata dela, eu gostaria que o sr.", afirmou, sem concluir a frase.

    Quem pagou pelo armazenamento da mudança

    Moro não questionou Lula sobre o segundo fato que, segundo o Ministério Público, caracterizaria a troca de favores entre o ex-presidente e a OAS: o armazenamento de objetos do acervo presidencial num armazém da empresa Granero, custeado pela empreiteira, após o encerramento do mandato do ex-presidente, em 2011.

    Os procuradores formularam diversas questões sobre o assunto. Eles quiseram saber, por exemplo, a que se referiam as inscrições “praia” e “sítio”, encontradas em algumas das caixas. Lula recebeu fotos impressas que mostravam o que estava sendo dito.

    “Pergunta para o policial federal que abriu [as caixas]”, respondeu Lula, dando a entender que qualquer um pode ter escrito, não ele mesmo.

    ‘Ninguém nunca discutiu no Instituto que era preciso pagar isso [o armazenamento dos bens]. Estava tão tranquila a questão do depósito do material... ’

    “Eu nunca entrei nos porões do Palácio da Alvorada para saber se tinha uma, duas ou mil caixas. Eu sei que o acervo é uma coisa privada de interesse público. Eu sei que o presidente que sai tem que ter a responsabilidade de tentar cuidar daquilo. Se eu soubesse que ia dar nisso, teria deixado no Palácio para o próximo presidente cuidar. Eu não tinha interesse em nada”, disse Lula.

    Os procuradores perguntaram então se ele sabia que a OAS havia custeado a armazenagem dos objetos na Granero. “Fiquei sabendo depois. À época eu nem sabia para onde ia”, respondeu. Lula foi questionado então se ele sabia como a empreiteira havia pagado por aquilo, se havia sido uma doação. “Não sei”, respondeu.

    Os membros do Ministério Público mostraram então um documento da Granero no qual era mencionada a guarda dos objetos como sendo da OAS. “Pelo que eu já ouvi em depoimentos aqui, a OAS mantinha uma reserva na Granero para cuidar das coisas dela”, limitou-se a dizer o ex-presidente, explicando que, quando saiu do cargo, o Instituto Lula ainda não havia sido criado e, portanto, a instituição não poderia se fazer cargo do acervo.

    Os procuradores disseram então que a LILS Palestras, de propriedade do ex-presidente, recebeu entre 2011 e 2014 mais de R$ 21 milhões. “Deste montante, quase 50%, ou seja, R$ 9,9 milhões vieram das construtoras Camargo Corrêa, Queiroz Galvão, OAS, UTC e Andrade Gutierrez. E o lucro dado ao sr. foi de R$ 7 milhões”. Por que não usou o dinheiro para pagar as parcelas de R$ 20 mil mensais pelo armazenamento dos bens?, perguntaram os procuradores. “Talvez todo mundo achasse que tivesse certo”, respondeu Lula. “O sr. achava que estava certo?”, retrucou um dos procuradores. “Não. Veja, eu tirei R$ 7 milhões [da LILS] porque depositei para cada filho meu uma quantia de aposentadoria privada complementar. E ninguém nunca discutiu no Instituto que era preciso pagar isso [o armazenamento dos bens]. Estava tão tranquila a questão do depósito do material”, disse Lula antes de emendar, sem concluir a resposta, com outro aspecto do assunto, ligado à reforma da sede do Sindicato dos Metalúrgicos, que também não poderia receber o acervo naquelas condições.

    Críticas à Lava Jato

    Além das duas questões mais objetivas da acusação, Lula tomou a iniciativa de trazer questões políticas. Para ele e seus advogados, o julgamento é político.

    “Estou sendo vítima da maior caçada jurídica que um presidente, que um político brasileiro, já teve”, afirmou.

    “O contexto [da acusação] está baseado num power point mal feito, mentiroso, da Operação Lava Jato. Aliás, o doutor [Deltan] Dallagnol [procurador que apresentou o power point mencionado, numa coletiva de imprensa, em setembro de 2016] não está aqui. Deveria estar aqui, para explicar aquele famoso power point. Aquilo é uma caçamba onde cabe tudo. Aquele power point não está julgando o Lula pessoa física ou pessoa jurídica, está julgando o Lula presidente da República. Isso eu quero discutir”, afirmou.

    ‘Vamos ter uma divergência agora aqui. O que está em julgamento é o meu governo’

    “Desde que foi criado o contexto, a caçamba do Ministério Público na questão do power point, quem está sendo governado é um estilo de governar, é um jeito de governar. Se as pessoas que estão fazendo essa denúncia querem saber como se governa, eles têm de sair do Ministério Público, entrar para um partido político, disputar eleições e ganhar, para saber como é que se governa. Governar democraticamente, com oposição da imprensa, com oposição de sindicato com direito de greve, fortalecendo o Ministério Público, fortalecendo a Polícia Federal, fortalecendo todas as instituições para a fiscalização deste país. Então, essas perguntas todas estão questionando um jeito de governar”, disse o ex-presidente.

    Moro intercedeu: “Sr. ex-presidente, vamos colocar, assim, de maneira clara: o que está em julgamento aqui não é exatamente o seu governo, mas coisas específicas que são objeto da acusação”. Lula retrucou ainda em cima da fala de Moro: “Está em julgamento o meu governo. Vamos ter uma divergência agora aqui. O que está em julgamento é o meu governo”.

     

    Críticas a  Moro

    “O sr. se sente responsável pela Lava Jato ter destruído a indústria da construção civil neste país? O sr. se sente responsável por 600 milhões de pessoas que já perderam o emprego nos setores de óleo e gás da construção civil?”, perguntou Lula a Moro.

    “O que prejudicou essas empresas foi a corrupção ou o combate à corrupção?”, retrucou o juiz, abrindo um debate. “Foi o método de combater a corrupção. Quando um juiz e os acusadores se submetem à imprensa para poder prender as pessoas, tudo o mais é possível”, afirmou Lula

    “De que forma o juiz teria se submetido à imprensa?”, encurtou Sergio Moro, antes de Lula retomar: “Eu vou lhe dizer uma coisa. O sr. disse …”, mas um dos advogados interrompeu a frase, dizendo “isso não é um debate entre vossa excelência e o ex-presidente”.

    Em outro momento, o juiz diz a Lula: “Eu queria deixar claro que, em que pesem algumas alegações nesse sentido [de tendência em favor da acusação], da minha parte, eu não tenho qualquer desavença pessoal em relação ao sr., ex-presidente, certo? O que vai determinar o resultado deste processo, no final, são as provas que vão ser colecionadas e a lei. E também vamos deixar claro que quem faz a acusação neste processo é o Ministério Público, e não o juiz. Eu estou aqui para ouvi-lo e para fazer o julgamento no final do processo”.

    Críticas às delações

    “O que aconteceu nos últimos 30 dias vai passar para a história como o ‘mês Lula’, porque foi o mês em que vocês trabalharam, sobretudo o Ministério Público, para trazer todo mundo para falar uma senha chamada ‘Lula’. O objetivo era dizer ‘Lula’. Se não dissesse ‘Lula’, não valia”, afirmou o petista, comentando principalmente a fala do ex-diretor da Petrobras Renato Duque, que, cinco dias antes, havia dito a Moro - não em delação, mas sinalizando interesse em aderir a uma delação premiada - que o ex-presidente tinha “pleno conhecimento” do esquema.

    Moro perguntou a Lula: “O sr. entende que existe uma conspiração contra o sr.?”. E o ex-presidente respondeu: “Não. Eu entendo e acompanho pela imprensa que pessoas como o Léo Pinheiro [que havia dito a Moro que Lula pediu que ele destruísse provas de pagamento de propina] estão já há algum tempo querendo fazer delação - primeiro ele foi condenado a 23 anos de cadeia - depois, se mostra na televisão como se vive a vida de nababo dos delatores, e o cara fala: ‘eu estou condenado a 23 anos e os delatores pagaram uma parte [da pena] e estão vivendo essa vida?’ Então, delatar virou quase um alvará de soltura dessa gente”.

    Críticas à imprensa

    “A imprensa é o principal julgador disso”, afirmou Lula. “A imprensa não tem qualquer papel nesse processo”, respondeu Moro, complementando: “Esse não é o foro próprio para o sr. reclamar do funcionamento da imprensa”.

    “Tenho 71 anos de idade. Tenho cinco filhos e oito netos. Nunca, ninguém que me acusou respeitou que netos meus, de 5 anos, que estão na escola, que neto de 4 anos, que está na escola, e que sofrem bullying todo santo dia por conta de mentiras. Os últimos depoimentos, das pessoas que citaram o meu nome, qual eram as manchetes do dia seguinte? Qual era o tratamento que o Jornal Nacional dava à figura do Lula? Era a de criminalizá-lo. Ou seja, é preciso criminalizá-lo independente de daqui a dois anos ele provar que é inocente”, disse sobre si mesmo na terceira pessoa.

    ‘Só no Jornal Nacional foram 18 horas e 15 minutos, nos últimos 12 meses [de notícias desfavoráveis]. Sabe o que significa 18 horas falando mal de um cidadão?’

    “São 25 capas da IstoÉ criando a imagem de monstro do Lula. A revista Veja tem 19 capas. E a Época, 11 capas. As capas são apenas o fechamento das matérias, porque, dentro, é demonizando Lula”, disse o ex-presidente.

    “A ‘Folha de S.Paulo’, nesse mesmo período, teve 298 matérias contra o Lula e apenas 40 favoráveis. Tudo com informações da polícia ou do Ministério Público. Eles não assumem. Eles culpam alguém. O jornal ‘O Globo’, que é o mais amigo, tem 530 matérias negativas contra o Lula e 8 favoráveis. O ‘Estadão’, que é mais amigo ainda, tem 318 matérias contrárias e 2 favoráveis. Só no Jornal Nacional foram 18 horas e 15 minutos, nos últimos 12 meses [de notícias desfavoráveis]. Sabe o que significa 18 horas falando mal de um cidadão?”, questionou o ex-presidente.

    “Infelizmente, eu já sou atacado por bastante gente”, respondeu Moro. “Inclusive por blogs aí que, supostamente, patrocinam o sr. Então, eu padeço dos mesmos males em certa medida”, disse o juiz ao petista, num dos momentos finais da audiência.

    Atritos com a defesa

    “Vossa excelência enxerga a defesa como alguém que atrapalha a audiência. Talvez a Constituição não dê guarida a essa posição de vossa excelência”, disseram os advogados ao juiz num dos vários atritos que paralisaram o depoimento.

    Moro fez diversas perguntas sobre o sítio em Atibaia, cuja propriedade também é atribuída pelos procuradores a Lula. A defesa alegou que essas questões pertencem a outro processo. O juiz insistiu nas questões seguidas vezes, alegando que elas estão vinculadas indissociavelmente da questão do tríplex. Por diversas vezes, a defesa interrompeu. Moro acusou os advogados de Lula de “tumultuarem o processo”.

    “Ninguém aqui tem poder soberano ou é o dono do processo”, arguiu a defesa. “O doutor não precisa ficar nervoso”, disse Moro.

    Sempre que interrompido, o juiz seguia adiante, desconsiderando a interpelação, com frases como essas: “Eu agradeço a consideração, mas considero a questão pertinente”, “certo, doutor, fica registrada sua observação. Muito pertinente. Vou continuar fazendo as perguntas”, “vou repetir: é o juiz quem vai julgar. É o juiz que define se a pergunta é relevante”, ou ainda “já foi registrada sua opinião. Vou seguir adiante”.

    Indicações políticas na Petrobras

    Moro mostrou muito interesse em entender a relação de Lula com a indicação de ex-dirigentes da Petrobras envolvidos no esquema como Paulo Roberto Costa, Renato Duque, Pedro Barusco e Nestor Cerveró, que teriam sido indicados por partidos políticos para, uma vez dentro da estatal, desviar recursos para si mesmos e para as legendas às quais eram ligados.

    “O Ministério Público está querendo discutir como é que se monta um governo neste país. Aliás, o presidente Fernando Henrique veio aqui e deu uma explicação. Eu espero que, em outros processos, o Ministério Público tenha aprendido uma lição”, disse o ex-presidente, demonstrando irritação.

    ‘Eu fiquei muito puto da vida, muito puto [quando os desvios vieram à tona]. Eu falei [se ele estava metido]. Ele disse que não’

    “Sem aliança política você não governa este país, nem ganha eleição”, disse Lula, antes de explicar que as indicações não partem do presidente, mas dos partidos aliados, que submetem os nomes à Casa Civil, que, em seguida, pede um levantamento da folha de vida do indicado no Gabinete de Segurança Institucional, que, por fim, anuncia ao presidente que a pessoa é indicada. Concluído o périplo, o presidente manda o nome da pessoa indicada para o Conselho da Petrobras, que pode, em tese, aceitar ou rechaçar a nomeação.

    “Todos os diretores que eu indiquei passaram pelo Gabinete de Segurança Institucional. Não houve um voto contra no Conselho [de administração da Petrobras], não houve uma denúncia de nenhum trabalhador, não houve nenhuma denúncia da Polícia Federal, não houve nenhuma denúncia do Ministério Público, não houve nenhuma denúncia da imprensa”, disse Lula sobre os indicados em seu governo.

    Um dos nomeados em particular, Renato Duque, é apontado como o homem do PT na Petrobras. Ele disse no dia 5 de maio a Moro que se reuniu com Lula no aeroporto de Congonhas, em 2014, já com a Lava Jato em andamento. Na ocasião, Lula teria perguntado pela existência de contas de Duque no exterior.

    ‘Nem eu, nem o sr., nem o Ministério Público, nem a Petrobras, nem a imprensa, nem a Polícia Federal [sabia dos desvios]’

    Segundo o relato de Duque, Lula, à época, lhe perguntou claramente sobre uma suposta conta na Suíça que seria usada para receber propinas da SBM, uma das fornecedoras da Petrobras. De acordo com Duque, o ex-presidente também disse o seguinte: “Olha, preste atenção no que vou te dizer: se tiver alguma coisa [no exterior] não pode ter, entendeu? Não pode ter nada no teu nome”.

    Lula disse no depoimento desta quarta-feira (10) que havia boatos de desvios e de contas no exterior, e pediu para conversar com Duque a respeito. O ex-presidente descreveu assim o diálogo entre os dois: “você está pegando dinheiro da Petrobras? Tem conta no exterior? Ele falou ‘não tenho'. Eu falei: ‘acabou’. Se tem, não mentiu para mim. Mentiu para ele mesmo.”

    “Eu fiquei muito puto da vida, muito puto [quando os desvios vieram à tona]. Eu falei [se ele estava metido]. Ele disse que não”, esbravejou.

    Ao questionar Lula se ele nunca teve conhecimento dos crimes praticados pelos diretores da Petrobras, Lula respondeu: “Não. Nem eu, nem o sr., nem o Ministério Público, nem a Petrobras, nem a imprensa, nem a Polícia Federal. Todos nos só soubemos quando houve o grampo da conversa do Youssef com o Paulo Roberto”.

    O final da frase é uma referência ao doleiro Alberto Youssef, operador do esquema, e o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, alvos iniciais da Operação Lava Jato, ainda em 2014, que viriam a se tornar delatores posteriormente.

    Moro retrucou então: “Indago o sr. porque foi o sr. que indicou o nome deles [dos integrantes do comando da Petrobras]. É uma situação diferente da minha, que não tenho nada a ver com isso, nunca participei dessas indicações.”

    Lula então disse: “O senhor soltou o Youssef e mandou grampear. O senhor poderia saber mais do que eu”. Antes da Lava Jato, o doleiro já havia sido investigado por Moro no caso Banestado e solto por colaborar com o juiz.

    Sorrisos e quase risos

    Em vários momentos, Lula tentou descontrair a longa sessão, mas - pelo menos pelo pouco que as imagens sugerem - não teve sucesso.

    Na primeira tentativa, fez graça com a informação segundo a qual o empreiteiro Léo Pinheiro se referia a ele, Lula, como Zeca Pagodinho nas planilhas. Deu risada, mas o comportamento destoou da sisudez dos demais.

    Assim que Moro decretou a primeira pausa, Lula riu, batucou na mesa e disse “assim é bom porque eu vou ao banheiro”, mas, novamente, não teve uma acolhida amistosa.

    Num dos momentos mais insólitos, o ex-presidente se queixou: “Não queira saber o que é ser ex-presidente neste país. Não queira ser ex-juiz”. Moro respondeu seco: “tem que reclamar com a sua sucessora”.

    E ao ser questionado sobre o fato de não ter tomado conhecimento dos desvios na Petrobras, Lula comparou: “O sr. acha que seu filho tirou nota baixa na escola ele chega em casa pulando de alegria para contar? Se ele puder, vai tentar esconder até o sr. saber”. Moro reagiu: “Dos meus filhos, eu fico sabendo a nota, com o tempo. O sr. não ficou sabendo de nada?”. E Lula: “Agora a escola comunica até quando a molecada falta. No meu tempo era mais difícil”.

    Desavenças antigas, mágoas

    Moro questionou Lula a respeito do discurso feito na sexta-feira (5), durante o 6º Congresso do PT, quando Lula disse que podia mandar prender as pessoas que o estavam perseguindo na Justiça. “Se eles não me prenderem logo, quem sabe um dia eu mando prendê-los por mentir”, disse o ex-presidente.

    “O sr. pretende mandar prender os agentes públicos?”, questionou Moro. “Como é que eu vou saber? Não sei nem se eu vou estar vivo amanhã”, respondeu Lula, antes de ouvir de Moro: “Foi o que o sr. afirmou lá [no discurso, no Congresso do PT]”.

    “Isso é uma força de expressão. O dia que o sr. for candidato vai ter muita força de expressão no palanque”, disse o ex-presidente. “O sr. acha apropriado um ex-presidente da República fazer esse tipo de declaração?”, insistiu o juiz. “Eu acho que não. Já falei aqui que foi uma força de expressão”, respondeu o petista.

    Num dos momentos de maior insistência e debate, Moro voltou à carga: “E o sr. vai continuar fazendo esse tipo de declaração, de que vai mandar prender?”. Lula disse então: “Não sei. O presidente não prende ninguém”.

    “Então talvez o sr. não devesse fazer esse tipo de declaração”, retomou o magistrado. “Com todo respeito, todos nós temos de tomar cuidado com as declarações. O sr. sabe a mágoa profunda que eu tenho do vazamento das minhas conversas com a minha mulher, e dela com o filho dela. É profunda a minha mágoa. E eu nunca falei nada. O tempo se encarrega de contar a história”, disse Lula.

     

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto afirmava que José Eduardo Dutra, ex-presidente da Petrobras, está preso pela Lava Jato. Na verdade, Dutra morreu em outubro de 2015. A informação foi corrigida às 21h28 de 11 de maio de 2017.

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