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Como evitar a colisão de aves com prédios de fachada de vidro

Organizações não-governamentais alertam para a possibilidade de a mortandade dos animais ser maior do que dados oficiais sugerem

    Todos os anos, cerca de 1 bilhão de aves morrem ao colidir com prédios nos EUA, de acordo com a ABC Birds, Organização de Conservação de Aves Americanas. No Brasil, não há estatísticas, mas organizações não-governamentais sugerem que a mortandade dos bichos em decorrência desses choques merece atenção.

    A organização SOS Aves & Cia resgatou cerca de 40 aves nas ruas do Rio semanalmente em 2014. A estimativa é que ao menos 70% desses animais tenham sido vítimas de colisões com prédios de fachadas de vidro comum ou espelhado.

    O uso arquitetônico do vidro de forma majoritária ou integral na parte externa de prédios começou em Nova York e Chicago nos anos 1920. O vidro comum, transparente, torna impossível para as aves reconhecerem o obstáculo à frente. Os vidros espelhados representam um problema ainda maior, uma vez que refletem o céu, confundindo os bichos.

    Atualmente, no Brasil, grandes centros comerciais como a avenida Faria Lima, na zona oeste de São Paulo, estão repletos de empreendimentos grandiosos com janelas de vidro, muitas espelhadas.

    Biólogos e ambientalistas têm alertado para a implantação não ecológica de fachadas de vidro em prédios há pelo menos uma década. Em Brasília, pesquisadores da UnB citam os prédios da Procuradoria-Geral da República como mau exemplo, devido às fachadas espelhadas dos prédios. Entre as espécies que costumam colidir com os prédios do órgão está o papagaio-galelo, animal em risco de extinção.

    Foto: Guilherme Kardel/Flickr/Creative Commons
    Especialistas e pesquisadores chegaram a notificar a PGR sobre o risco à vida das aves, em 2006, mas não obtiveram retorno

    A luz refletida pelos vidros espelhados desorientam aves, pois as células responsáveis pela percepção das cores são bastante sensíveis, se comparadas com as humanas. “É como se vendassem os seus olhos enquanto você dirige”, disse ao Nexo Paulo Maia, presidente da organização SOS Aves & Cia.

    Organizações como SOS Aves & Cia e a Save Brasil buscam mitigar o número de acidentes com as aves e, ainda, mapear as áreas de maior risco, bem como espécies mais suscetíveis às colisões.

    Medidas anticolisão

    Adesivos comuns

    A principal recomendação de organizações e observatórios de colisões de aves é a utilização de adesivos em intervalos que podem variar de 40 cm a 1 m. É comum a recomendação do uso de adesivos com formas de aves, mas o que leva os animais a desviarem do vidro é a barreira visual criada pelo adesivo, e não seu formato. Os adesivos são fáceis de comprar e de fazer. O tamanho sugerido para cada adesivo é de 15 cm.

    Adesivos ultravioleta

    Há opções de adesivos praticamente invisíveis ao olho humano, algo que não traria prejuízo à fachada dos prédios. São adesivos que refletem luz ultravioleta. Aves são capazes de enxergar esse tipo de luz por terem mais receptores de cores do que os humanos.

    Cortinas

    Usar cortinas de tecido ou persianas também auxilia na criação de barreiras visuais. Manter as cortinas e persianas fechadas para evitar que os pássaros colidam com o vidro comum, afinal o choque acontece porque os animais não são capazes de perceber que há uma barreira intransponível à frente.

    Vidro Jateado

    Esse tipo de vidro recebe uma “chuva” de areia em alta velocidade que cria pequenas crateras em sua superfície. Essa exposição à areia impede que a luz reflita. Dessa maneira, as aves são capazes de perceber a barreira.

    Ângulo do vidro

    É possível impedir que as aves voem de encontro com o vidro ao construir edifícios com a instalação de vidros com inclinação de 20 e 40 graus no sentido do chão. Com a imagem refletida pelo vidro sendo, essencialmente, a do solo, a tendência é que aves percebam a construção como um obstáculo e desviem.

    Mapeamento das colisões

    Pesquisadores da UFPR (Universidade Federal do Paraná), liderados pelo veterinário e doutor em medicina comparativa Fabiano Montiani, desenvolveram o projeto “Entre a vida e o vidro”, que prevê a colaboração de cidadãos para o registro de mortes e resgates de aves envolvidas em colisões.

    O projeto inspirou a vereadora de Curitiba Katia Dittrich a promover uma audiência pública em 27 de abril de 2017 para discutir a criação de um projeto de lei que possa diminuir os acidentes do tipo na cidade.

     

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