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Quem são as brasileiras que estão entre os melhores jovens escritores da América Latina

Com ligeiro aumento no número de escritoras mulheres, segunda edição da lista ‘Bogotá39’ traz Mariana Torres e Natalia Borges Polesso

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    Em 2007, Bogotá, na Colômbia, foi a Capital Mundial do Livro. Na ocasião, o festival literário Hay Festival e a prefeitura da cidade reuniram esforços para lançar a lista “Bogotá39”, que elegeu os 39 melhores escritores latino-americanos de ficção com menos de 40 anos.

    Entre as apostas, estavam autores como o chileno Alejandro Zambra, o brasileiro João Paulo Cuenca e o dominicano Junot Díaz que, na década seguinte, acumularam prêmios, traduções e ganharam projeção no cenário literário internacional.

    Uma década depois, em 2017, uma nova edição da lista, a “Bogotá39-2017” elegeu duas escritoras brasileiras entre os 39 melhores jovens escritores da região, escolhidos por um júri de três editores também latino-americanos.

    A obra dos 39 escolhidos será reunida em uma antologia, a ser publicada em janeiro de 2018 por editoras de vários países. Também em janeiro, os autores estarão presentes no Hay Festival Cartagena, realizado na cidade colombiana de Cartagena das Índias.

    De 2007 para 2017, o número de mulheres presentes na lista aumentou de 11 para 13, mas autores homens continuam sendo maioria na seleção.

    Quem são as brasileiras da lista

    Mariana Torres

    Nascida em Angra dos Reis em 1981, Torres vive em Madri, na Espanha, desde os sete anos de idade. Formada pela Escola de Cinema de Madri, a escritora dirigiu o curta-metragem “Rascacielos” (Arranha-céus, em português), em 2009.

    Apesar de ter residido a maior parte de sua vida na Espanha, o Brasil se faz presente na obra da autora.

    Em “El Cuerpo Secreto”, livro de contos que marca a estreia de Mariana Torres, publicado em espanhol em 2015 pela editora espanhola Páginas de Espuma, os relatos da escritora se nutrem de lembranças e vivências de infância no Brasil, disse em entrevista no mesmo ano ao jornal mexicano “Excelsior”.

    “– Ouvi um rangido – disse o pequeno, com um fio de voz. Auri se levantou devagar e abriu os olhos para a escuridão.

    Todas as irmãs dormiam, podia escutar a respiração de cada uma, coordenadas, como se um só corpo respirasse. Dormiam apertadas naquela cama imensa desde sempre, com os braços e as pernas entrecruzados para que ninguém pudesse lhes arrebatar o pequeno”

    Tradução feita pelo Nexo de trecho do conto ‘El monstruo está despierto’

    Do livro ‘El Cuerpo Secreto’

    O grande trunfo do livro e da escrita de Mariana Torres, diz uma crítica publicada no jornal “El País”, é a capacidade de compor imagens de uma potência visual perturbadora, que lembram os filmes de Tim Burton, com quem ela compartilha o tom falsamente infantil da narrativa, que é, na verdade, terrível e inquitante.

    Natalia Borges Polesso

    Com a alcunha de “desconhecida que superou Veríssimo e Rubem Fonseca”, concedida por uma reportagem do jornal “O Globo” em 2016, a gaúcha moradora de Caxias do Sul venceu o Prêmio Jabuti daquele ano na categoria “Contos e Crônicas”, pelo livro “Amora”, publicado pela editora Dublinense.

    Polessa é doutora em teoria da literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, professora e tradutora.

    A primeira coletânea de contos da autora, “Recortes para álbum de fotografias sem gente” (pela editora Modelo de Nuvem), foi publicada em 2013, um projeto inaugural feito de recortes em prosa poética que venceu o prêmio Açorianos, da Prefeitura de Porto Alegre. Antes de “Amora”, em 2015, também publicou o livro de poemas “Coração à corda” (Editora Patuá).

    “meu coraçãodesde cedo atrapalhocoração que atalhade uma surpresa a outra

    gosto de rotinasmeu coraçãodetesta

    gosto de rotinasmeu coraçãoem festa”

    Natalia Borges Polesso

    Em trecho de poema do livro ‘Coração à corda’

    Os contos de “Amora” falam diretamente da vida e das relações afetivas de protagonistas lésbicas, tema presente em seus três livros, segundo a escritora.

    “Vó Clarissa deixou cair os talheres no prato, fazendo a porcelana estalar. Joaquim, meu primo, continuava com o queixo suspenso, batendo com o garfo nos lábios, esperando a resposta. Beatriz ecoou a palavra como pergunta, ‘o que é lésbica?’. Eu fiquei muda. Joaquim sabia sobre mim e me entregaria para a vó e, mais tarde, para toda a família. Senti um calor letal subir pelo meu pescoço e me doer atrás das orelhas. Previ a cena: ‘vó, a senhora é lésbica? Porque a Joana é’. A vergonha estava na minha cara e me denunciava antes mesmo da delação. Apertei os olhos e contraí o peito, esperando o tiro. Atrás das minhas pálpebras, Taís e eu nos beijávamos escondidas no último corredor da área de humanas na biblioteca da faculdade”

    Trecho do conto ‘Vó, a senhora é lésbica?’

    Do livro ‘Amora’

     

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