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O que a eleição de Macron significa para dentro e para fora da França

Escolha de centrista barra avanço da extrema-direita e aumenta a chance de conter a erosão da União Europeia

     

    O candidato de centro, Emmanuel Macron, confirmou o favoritismo e venceu o segundo turno da eleição presidencial francesa, neste domingo (7), com 65,5% dos votos válidos. Sua adversária, Marine Le Pen, de extrema-direita, ficou com 34,5%. Os dados são das pesquisas de boca de urna, mas devem ser confirmados pelo resultado da apuração, como é costume na França

    A abstenção, de 25,3% no segundo turno, é considerada a mais alta na França desde 1969.

    74,7%

    Foi o comparecimento no 2º turno

    77,77%

    Foi o comparecimento no 1º turno

    O resultado não importa apenas para os franceses. Ele representa um revés à onda conservadora que tomou corpo em 2016, com a vitória do Brexit no Reino Unido, em junho, e com a eleição de Donald Trump nos EUA, em novembro.

    Apesar da derrota, no entanto, a extrema-direita continua crescendo na França e em outras partes do mundo. Marine Le Pen teve em 2017 exatamente o dobro dos votos conquistados pelo seu pai, Jean-Marie Le Pen, do mesmo partido, no segundo turno da eleição presidencial de 15 anos atrás.

    Esse crescimento já havia mostrado efeito prático mais recentemente, nas eleições locais francesas de dezembro de 2015, quando a extrema-direita teve 28% dos votos, contra apenas 9% em 2010.

    Os dados indicam que, mesmo vitorioso, Macron pode encontrar dificuldade para governar pelos próximos cinco anos. Em junho, há eleições parlamentares e o partido do presidente eleito, o Em Frente!, é novo e pequeno — com dificuldade, portanto de construir maioria sem compor novas alianças. Sabendo disso, Le Pen já conclamou as bases: “Estarei à frente desse combate. Mais do que nunca precisamos de vocês”, afirmou após a divulgação dos resultados presidenciais.

    “Sei que o país está dividido, que muitos votaram pelos extremos”

    Emmanuel Macron

    Presidente eleito da França, em 7 de maio de 2017

    Quem é o novo presidente

    Macron, de 39 anos, foi ministro da Economia no governo do atual presidente, o socialista François Hollande, entre 2014 e 2016, mas abandonou a gestão antes do fim. Com isso, se descolou da impopularidade que fez naufragar a candidatura do Partido Socialista, que concorreu com Benoît Hamon, e criou uma via alternativa aos extremos do espectro político.

    Antes de entrar para o governo, Macron trabalhou no setor financeiro, o que foi usado para realçar o perfil de jovem dinâmico, realizador e aberto ao mundo, em contraposição a uma candidatura, de Le Pen, que o tempo todo usou como argumento a ideia de fechar a França, fosse para os mercados comuns, fosse para estrangeiros.

    O agora presidente fundou o próprio bloco político e apelou para o perfil do candidato prático e executivo, “nem de direita e nem de esquerda”. Macron se formou em uma escola de elite, por onde passaram pelo menos outros dois ex-presidentes franceses — Jacques Chirac [1995-2007] e François Hollande [2012-2017] —, e tem perfil sócio-econômico bem acima da média da população francesa.

    Apesar de ser visto com desconfiança pela esquerda e pela extrema-esquerda, acabou abraçado por eleitores de ambos os setores, preocupados com a possibilidade de que Le Pen ganhasse.

    A importância para dentro da França

    A França é a sétima economia do mundo, com um PIB de US$ 2,4 trilhões. Em 2016, o país cresceu 1,2%. Esse número representa um crescimento menor que o da Alemanha (1,9%) e do Reino Unido (1,8%).

    Caberá a Macron tentar reerguer a economia do país sem cair no receituário liberal que frequentemente provoca embates entre os governos franceses e as poderosas centrais sindicais.

    A taxa de desemprego está hoje em 10% e as reformas trabalhistas realizadas pelo atual presidente, Hollande, foram não apenas impopulares, como também foram consideradas ineficazes por todos os candidatos que concorreram nesta eleição, à exceção de Benoît Hamon.

    Ainda na frente doméstica, Macron terá de lidar com a permanente inquietude dos franceses em relação à própria identidade, que seria ameaçada pela imigração estrangeira, sobretudo de islâmicos do Oriente Médio e do Norte da África.

    O país buscará provavelmente equilibrar políticas humanitárias e inclusivas com a proteção das fronteiras. Ataques terroristas assumidos ou atribuídos a grupos extremistas islâmicos impõem um desafio adicional ao novo presidente, que terá de se equilibrar entre os imperativos de segurança e a abertura do país a pessoas que são estrangeiras, ou que, mesmo tendo nascido na França, descendem de imigrantes e são tidos por muitos franceses como culturamente inadaptados.

    Para fora da França

    O futuro da União Europeia também parece mais seguro sob o mandato de Macron, pois Le Pen prometia retirar o país da Zona do Euro (grupo de países que adotam moeda comum) e realizar plebiscito sobre a saída da França do bloco. Macron, ao contrário, é um entusiasta da permanência.

    Pelo menos em tese, a vitória de um liberal favorecerá o comércio exterior com parceiros internacionais. Macron pode levar adiante, com força renovada, as negociações entre a União Europeia e o Mercosul, bloco do qual o Brasil é fundador e membro.

    Europeus e sul-americanos tentam definir o quadro geral dessa aproximação até o fim de 2017, para entabular negociações setorizadas e mais sensíveis em seguida.

    Por fim, os assuntos de segurança internacional devem pressionar o novo presidente. A França é, desde o fim da Segunda Guerra, uma das cinco potências nucleares que fazem parte do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

    O órgão enfrenta uma grave crise diante do impasse sobre como lidar com a guerra na Síria que, desde seu início, em 2011, já deixou mais de meio milhão de mortos e 7 milhões de deslocados. Os franceses conduzem operações militares em solo sírio e sofrem, ao mesmo tempo, com ações terroristas em casa.

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