Como uma organização pretende reduzir os estupros em universidades com tecnologia

Plataforma de denúncia on-line já está sendo testada por algumas instituições americanas de ensino superior

    Uma epidemiologista e empreendedora americana pretende diminuir o expressivo número de estupros em universidades americanas lançando mão da tecnologia. Para tanto, Jessica Ladd fundou a Sexual Health Innovations, organização sem fins lucrativos cujo objetivo é encontrar soluções tecnológicas para a saúde sexual e bem-estar nos Estados Unidos.

    O mais recente projeto da organização é a plataforma de denúncia on-line Callisto, batizada em homenagem à ninfa da mitologia grega. Lançada em 2014, o serviço vem sendo desde então testado por algumas instituições de ensino superior.

    Nos últimos anos, alguns casos de estupro nas universidades ganharam repercussão, chamando atenção para um problema antigo, porém ignorado. Entre eles, um caso da universidade Stanford se destacou ao terminar com a condenação, considerada branda, do estudante que estuprou uma colega de universidade, a viralização de uma carta escrita pela vítima e lida durante o julgamento do caso e uma resposta escrita pelo então vice-presidente dos EUA Joe Biden.  

    Segundo o site Quartz, uma em cada cinco mulheres é estuprada durante o período universitário nos Estados Unidos. Na maior parte dos casos, a violência é praticada por um estudante da instituição. No entanto, apenas um entre dez casos é notificado às autoridades.

    A plataforma Callisto foi criada justamente com o objetivo de diminuir os casos subnotificados de abuso sexual nas universidades, oferecendo um ambiente seguro a mulheres que passarem por esse tipo de situação.

    Como funciona o Callisto

    O sistema permite a estudantes fazerem um relato privado do que vivenciaram. Por ser on-line, a vítima pode acessar o serviço de um ambiente no qual se sinta segura, como a própria casa, por exemplo.

    O sistema, criptografado, permite salvar o relato para compartilhá-lo posteriormente com a universidade - no caso da instituição ter um acordo com a plataforma. Posteriormente, é esperado que a universidade entre em contato com a vítima no período de no máximo dois dias, que irá dar as orientações e apoio necessário à estudante, além de proceder com a investigação dos fatos.

    Além disso, ele possui uma ferramenta que funciona como uma espécie de “match” de aplicativos de troca de roupa ou paquera, identificando nomes de agressores recorrentes e colocando suas vítimas em contato, para que não precisem passar pelo processo de denúncia às autoridades sozinhas.

    “Saber que você não foi a única muda tudo. Muda a forma como você vê sua própria experiência. Muda a forma como você vê o seu agressor. Significa que se você denunciar [às autoridades], terá o apoio de alguém, e essa pessoa terá o seu.”

    Jess Ladd

    epidemiologista e criadora do Callisto, em conferência

    Criadora da plataforma, a epidemiologista Jess Ladd, que hoje coordena uma equipe de nove mulheres trabalhando no sistema, explica que os principais objetivos da ferramenta são oferecer às vítimas o tempo necessário para lidar com o processo e o receio de encarar autoridades (seja a polícia ou a universidade, dependendo do acordo feito entre a plataforma e a instituição). 

    Segundo ela, 90% dos estupros são cometidos por agressores recorrentes (que já realizaram ao menos uma agressão antes), de forma que colocar vítimas em contato e incentivar as notificações pode ter um impacto bastante expressivo no número de abusos ocorridos nos campi.

    A criadora também explica que não foi desenvolvido um aplicativo para o Callisto porque, segundo pesquisas da iniciativa, pessoas não queriam ter um “aplicativo de estupro” em seus celulares.

    Sócia da Braga & Ruzzi Advogadas - Advocacia para Mulheres, Marina Ruzzi vê com bons olhos a iniciativa, por oferecer um tempo necessário às mulheres e endereçar a denúncia a autoridades competentes.

    Segundo ela, a maior preocupação ao orientar vítimas de abusos sexuais é a de não realizar denúncias públicas, que podem virar represália às vítimas. “Se a plataforma no mínimo informa a mulher sobre seus direitos, ela chega empoderada [no momento da denúncia]”, diz a advogada.

    Ruzzi ainda destaca a validade de colocar vítimas em contato, devido à vulnerabilidade em que mulheres se encontram nessas situações, o medo de serem hostilizadas e desacreditadas no momento da denúncia - uma prática recorrente que, segundo ela, é reflexo da cultura de estupro existente na sociedade.  

    “É muito difícil para uma mulher fazer essa denúncia sozinha, principalmente no ambiente universitário, em que são confrontadas com questões como: ‘você não queria mesmo?’. Assim, mulheres podem se blindar um pouco de tratativas hostis de autoridades.”

    Marina Ruzzi

    advogada, ao Nexo

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