Por que as torcedoras do Corinthians estão brigando com a Nike

Grupo faz abaixo-assinado contra os modelos de camisas da empresa esportiva, que limita as opções femininas

    No dia 23 de abril, dia de São Jorge (“padroeiro” do clube), o Corinthians lançou seu novo uniforme para 2017. São dois modelos: o principal, cuja camisa é branca com um risco preto no meio (representando a espada de São Jorge); e o uniforme 2, preto com listras brancas, mais tradicional. Eles estão à venda em lojas e no site da Nike, fornecedora do material esportivo corinthiano. Mas, para indignação das torcedoras, a marca não colocou à venda o modelo feminino do uniforme 2.

    A Nike justificou alegando não haver demanda. “Ao longo dos anos a demanda do público feminino pelas novas camisas do Corinthians são preferencialmente pela camisa principal. Seguindo essa tendência de mercado, a nova segunda camisa não será comercializada no modelo feminino”, disse o comunicado oficial.

    Foto: Reprodução
    Print da conta oficial da Nike no Twitter, cedido pela torcedora Ana Clara Leite
     

    As torcedoras do time, no entanto, se sentiram desrespeitadas. Elas se mobilizaram pelas redes sociais com as hashtags #RespeitaAsTorcedorasNike e #RespeitaAsTorcedorasCorinthians e criaram um abaixo-assinado que conta atualmente com 1.358 apoiadores.

    No texto da petição, dizem: “Cantamos e torcemos do mesmo jeito. É inadmissível que em pleno 2017 um time do tamanho do Corinthians e sua parceira Nike ignorem as suas torcedoras ao lançarem seus produtos. Ei, Nike e SC Corinthians, nós torcedoras existimos e consumimos futebol. Nos respeitem”.

    Toda Poderosa Corinthiana 

    As mulheres são mais de 50% da torcida corinthiana, segundo dados do Ibope de 2015. Essa não é a primeira vez que elas se manifestam por igualdade e respeito no futebol e nas arquibancadas. Em março de 2016, a frente “Neco Mulher”, do Núcleo de Estudos do Corinthians, realizou uma pesquisa sobre as mulheres corinthianas, seu perfil, sua história e seu papel no clube e nas arquibancadas.

    Nesse contexto, surgiu o Movimento Toda Poderosa Corinthiana, grupo de debate sobre o machismo no futebol e na torcida. O grupo fechado do Facebook reúne atualmente mais de 500 mulheres. Elas realizam reuniões presenciais e ações, como a campanha “#TireOMachismoDeCampo” feita para o Dia Internacional da Mulher, em 2016.

    “Quando paramos para analisar, constatamos que existe, sim, uma injustiça e uma problemática de gênero muito grande, pois nós ainda não temos o devido reconhecimento dentro do Corinthians e nem em outros espaços que envolvem o universo futebolístico”, diz Stefani Costa, do MTPC, ao Nexo.

    Foto: Reprodução/Facebook
    Foto de capa da página 'Toda Poderosa Corinthiana' no Facebook
     

    “O time tem feito campanhas para nós, contra a violência doméstica, no dia das mulheres, etc., que são importantes, mas sempre nos ignora nos seus produtos, o que eu particularmente acho burrice porque nós estamos dispostas a gastar ainda mais dinheiro com o time”, disse ao Nexo a torcedora Ana Clara Leite, que criou o abaixo-assinado pela segunda camisa feminina.

    Para Leite, a reivindicação frente à Nike e ao clube vai além da camisa: é pelo reconhecimento das mulheres como consumidoras de futebol.

    A cada nova assinatura recebida pela petição, segundo sua criadora, a Ouvidoria do Corinthians e a assessoria de imprensa da Nike recebem um novo e-mail. Mas, segundo as torcedoras, nem a marca nem o time entraram em contato de volta.

    “Não é possível que uma empresa do tamanho da Nike não pare para pensar que a demanda pode ser pequena porque, há anos, a oferta é escassa e mal direcionada”, diz Leite. “Eu simplesmente desisti de ver se tinha novidade nos sites e na loja. Com a petição, muitas mulheres alegaram o mesmo. É óbvio que a demanda é pequena, a gente desistiu pela falta de oferta”.

    Machismo na torcida

    Apesar de representarem mais da metade da torcida, a presença das mulheres nas arquibancadas é muito melhor que a dos homens. “Atualmente, ser torcedor nas arquibancadas  de qualquer canto do Brasil já é complicado. Então, para as torcedoras, as dificuldades são ainda maiores”, diz Stefani Costa, da Toda Poderosa Corinthiana.

    “Não possuímos segurança nenhuma, além de não contarmos com nenhuma ouvidoria para prestar queixas de abusos, por exemplo. Na Arena Corinthians, um estádio considerado moderno, não existe sequer um fraldário nos banheiros.”

    A representatividade feminina nas arquibancadas, entretanto, vem aumentando, segundo Ana Clara Leite, frequentadora assídua dos jogos do Corinthians. “Tenho visto cada vez mais mulheres no estádio em todos os setores. Não só mais mulheres acompanhando seus namorados ou maridos, mas grupos de mulheres torcendo, acompanhando o jogo, cantando, vibrando”, diz. “Esses dias mesmo vi um vídeo da Gaviões da Fiel cantando na arquibancada e o que mais me chamou a atenção foi um bloco significativo de mulheres ali no meio”.

    Quanto ao assédio, afirma nunca ter vivenciado ou presenciado episódios com outras torcedoras. Mas comentários machistas, homofóbicos e o assédio às bandeirinhas ainda incomodam. 

    “Vira e mexe se ouvem comentários do tipo ‘esse aí joga que nem mulherzinha’, como se fosse algo ruim jogar como as meninas da nossa Seleção, por exemplo. Quando tem bandeirinha mulher, é um show de horrores na arquibancada. Os caras assobiam, gritam barbaridades, aplaudem quando elas correm, dão risadinhas e se é pra xingar, sempre tem conotação sexual ou machista. É bem difícil ser mulher ali na arquibancada no meio disso tudo e ver a torcida fazer isso com outra mulher”.

    Sobre a mudança vista ao longo do primeiro ano de atuação do Movimento Toda Poderosa Corinthiana, Costa diz que mudar a cultura dos estádios leva tempo. “Isso sempre nos atrapalhou e se não nos unirmos, jamais conseguiremos ocupar, por exemplo, cargos importantes no futebol. Queremos o nosso direito de poder torcer e participar ativamente do dia a dia do Corinthians, nas torcidas, nas arquibancadas, no jornalismo esportivo. Nós lutamos pela nossa liberdade de gostar de futebol”. 

    “Mais do que por um modelo de camisa, essa é uma luta pela representatividade feminina no futebol, um esporte historicamente machista”, diz Ana Clara Leite. “Nós mulheres estamos ocupando todos os lugares, inclusive o futebol, e queremos ser enxergadas e respeitadas pelos clubes e seus parceiros”.

    ESTAVA ERRADO: Por um erro de redação, a primeira versão deste texto informava que apenas o modelo 2 do uniforme estava à venda no modelo feminino. Na verdade, apenas o modelo 1 do uniforme está à venda no modelo feminino. O texto foi corrigido às 16h de 6 de maio de 2017.

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