Por que a figura de José Dirceu mobiliza tantos protestos

Ex-ministro teve seu prédio invadido por manifestantes após ser solto pelo Supremo. Quase 12 anos depois de ser cassado, petista segue atraindo atenção de opositores

     

    O ex-ministro e ex-deputado José Dirceu foi solto em Curitiba na quarta-feira (3), mas só na noite do dia seguinte, depois de uma viagem de carro que passou também por São Paulo, chegou a seu apartamento em Brasília. Com a divulgação do endereço do petista pela imprensa, manifestantes foram à porta do prédio protestar contra o habeas corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal.

    Acusado de ser um dos chefes do esquema de corrupção da Petrobras, o petista estava preso preventivamente desde agosto de 2015 por deterinação do juiz Sergio Moro. Ele foi recebido aos gritos de “ladrão” e manifestantes chegaram a invadir a garagem do edifício. A polícia usou spray de pimenta, que atingiu também Dirceu quando ele entrava no elevador. Depois da confusão, o ex-ministro Gilberto Carvalho disse que o companheiro de partido já pensa em se mudar do local, onde mora com a mulher e uma filha.

    Histórico de poder e prisões

    Dirceu foi preso pela primeira vez pela ditadura militar, como um líder estudantil que fazia oposição ao governo. Ele foi capturado em 1968 em Ibiúna, interior de São Paulo, onde a União Nacional dos Estudantes fazia um congresso clandestino. Ficou na cadeia até 1969, quando foi um dos 14 militantes de esquerda libertados em troca do embaixador americano Charles Elbrick - sequestrado no Rio de Janeiro.

    Exilou-se em Cuba e voltou ao Brasil em 1971, ainda clandestinamente. Durante esse período, morou com nome falso no Paraná e constituiu família. Nem sua esposa sabia da verdadeira identidade. Com a Lei da Anistia, em 1979, voltou a atuar publicamente na política e participou da fundação do PT.

    Ao lado de Luiz Inácio Lula da Silva, comandou o crescimento do partido e sua aproximação com o centro e o setor empresarial. Presidiu o PT entre 1995 e 2002, conseguiu controlar as alas mais rebeldes e teve papel central na primeira vitória do partido na eleição presidencial.

    Com Lula na Presidência, assumiu a Casa Civil e se tornou o ministro mais forte do governo. O poder começou a diminuir quando o então deputado Roberto Jefferson denunciou o esquema de compra de votos na base aliada, que apelidou de mensalão. Dirceu deixou o ministério em 2005 e voltou à Câmara dos Deputados, mas foi cassado em seguida, perdendo seus direitos políticos por 10 anos.

    Fora do parlamento, atuou como consultor de empresas brasileiras no exterior até ser preso em 2013 por ordem do Supremo Tribunal Federal, em razão de sua condenação por corrupção no mensalão. Deixou a cadeia em 2014, mas logo em seguida virou alvo da Operação Lava Jato.

    Os procuradores da força-tarefa viam nos serviços de sua consultoria um dos meios para receber propina de empreiteiras com contratos na Petrobras. Apontado como um dos chefes do esquema de desvios da estatal, Dirceu foi preso preventivamente em agosto de 2015 e condenado em primeira instância pelo juiz Sergio Moro a 32 anos de detenção. Agora, quase dois anos depois, o Supremo concedeu ao petista o direito de recorrer em liberdade.

    Alvo de protestos

    Dirceu não ocupa cargos públicos há mais de dez anos. Desde que foi processado no mensalão, ele raramente participa de eventos abertos e desde a segunda prisão deixou de dar entrevistas, concentrando sua atuação nos bastidores.

    Mesmo assim, o ex-ministro de Lula continua sendo alvo de manifestações de opositores. Sua liberação da cadeia, por exemplo, foi a que mais causou reações públicas e mobilizações de protestos até agora.

    O Nexo conversou com o cientista político e professor da Universidade Federal do ABC Vitor Marchetti para entender porque, mesmo depois de prisões e o tempo de afastamento, a figura de José Dirceu continua forte entre apoiadores e opositores.

    Por que a figura de José Dirceu continua causando tanta reação?

    Vitor Marchetti O Dirceu talvez seja, depois do Lula, a figura mais associada ao PT. Pela capacidade de articulação, pelo histórico do fortalecimento do PT. Ficou muito marcada a ideia de que Dirceu era o grande estrategista do PT e o Lula a grande figura carismática. Na cabeça das pessoas, é a dupla que simboliza o PT. E a reação dessas pessoas é uma reação ao PT.

    Ele já foi considerado o primeiro-ministro do Brasil. Criou-se no imaginário público a imagem do homem forte, estrategista do mensalão, estrategista eleitoral. O próprio histórico da época da ditadura, um cara que conseguiu se esconder até da companheira com uma identidade secreta, a imagem criada de um homem teoricamente frio e calculista. É a soma dessas imagens que alimentam essa reação e ódio contra o José Dirceu.

    Surpreende essa reação durar tanto tempo?

    Vitor Marchetti  Sim, é resiliente. Ele, por exemplo, não teve papel nenhum no governo Dilma. Desde o mensalão, ele passa a imagem de um ator político frio que não se abala. Aquele cara que não aparece diante das câmeras com sinais de arrependimento e autocrítica. No imaginário popular, ele é o cara que não se arrepende de erros que as pessoas estão convencidas de que ele cometeu. Ele se apresenta como um sujeito duro.

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