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Como a onda ‘fitness’ do açaí nos EUA afeta o Brasil

Empresa americana lidera exportações da fruta. População local teme que produção, majoritariamente extrativista, migre para grandes plantações

    Depois dos grãos de quinoa e da couve-de-folhas (chamada em inglês de “kale”) terem seus momentos de glória como “supercomidas”, os americanos descobriram recentemente as benesses do açaí. 

    Esse “boom” do açaí nos EUA — no Brasil, a fruta já é largamente consumida desde a década de 1990 — tem conectado regiões e estilos de vida opostos, segundo uma reportagem publicada pelo jornal “The New York Times” no dia 2 de maio.

    Restaurantes de comida saudável na Califórnia e em outras partes do país, que hoje servem tigelas de açaí, passaram a “depender” dos ribeirinhos que colhem a fruta do alto das palmeiras, a mais de 8 mil quilômetros ao sul, na bacia do rio Amazonas.

    Como se estrutura hoje a economia do açaí

    Do Brasil para fora

    A empresa Sambazon, criada em 2000 pelos irmãos americanos Jeremy e Ryan Black, é hoje líder de exportação de sucos, polpa batida e “smoothies” feitos de açaí, segundo o “The New York Times”. 

    Os irmãos praticamente monopolizam o mercado de exportação da fruta, mas afirmam garantir sua exploração sustentável, ainda que verticalizada. Um preço mínimo a ser pago à mão de obra que colhe o açaí no Norte do país é estabelecido para evitar que os salários caiam muito conforme as oscilações do mercado. Segundo o “The New York Times”, a empresa também investe em educação voltada para a agrossilvicultura (prática de combinar espécies florestais com culturas agrícolas e/ou pecuária), creches e saúde na região.

    Nacionalmente

    Consumido desde tempos ancestrais pela população amazônica, o açaí permaneceu restrito à região até a década de 1970, quando era uma das bases da alimentação da população ribeirinha. A migração gradual dessa população para as cidades foi criando uma rede de distribuição que, na década de 1980, chegou a grandes centros urbanos do Brasil. Nos anos 1990, quando já havia lojas especializadas no tão apreciado açaí na tigela, o preço da fruta começou a subir.

    “Nos últimos dez anos, o produto passou a ser comercializado, além das batedeiras, por supermercados, academias e lojas de redes de fast food, com o propósito de atender a novos nichos de mercado, envolvendo consumidores de maior poder aquisitivo. A motivação para o consumo de açaí sobrepuja a necessidade alimentar, pois incorpora questões culturais e, recentemente, os aspectos da estética e saúde, em função de elementos que o tornam um alimento funcional”

    No estudo “A dinâmica do mercado de açaí fruto no Estado do Pará: de 1994 a 2009”

    Publicado em 2013 na Revista Ceres, da Universidade Federal de Viçosa

    O mercado doméstico de açaí funciona de maneira bem diferente da estrutura da Sambazon. Antes de ser processada, a fruta passa por vários intermediários em uma rede descentralizada que vai desde a mão de obra que colhe a fruta nas palmeiras amazônicas, passando por quem a transporta de barco, quem a processa e, finalmente distribui para as grandes cidades.

    Os trabalhadores dessa cadeia são desconectados entre si e não têm participação no lucro de quem comercializa o produto industrializado, etapa em que é mais valorizado, segundo o “The New York Times”. Além disso, a alta da demanda externa e interna fez com que o preço do açaí nas cidades, como em Belém, aumentasse muito.

    De acordo com o estudo “A dinâmica do mercado de açaí”, as exportações passaram de US$ 1,04 milhão, em 2002, para US$ 24 milhões, em 2009, e o crescimento da venda de polpas congeladas e pasteurizadas para outras regiões e países fez com que a oferta do fruto para o mercado local diminuísse, e, consequentemente, o preço subisse.

    Em 2012, segundo o Ministério da Agricultura, a cotação do açaí atingiu um recorde histórico. De janeiro a maio daquele ano, o produto teve alta de 25% e o valor médio do litro do açaí custava R$ 12,80.

    O crescimento continuou: no primeiro trimestre de 2016, o valor do litro aumentou 18,52%. Nas feiras, o preço do litro nessa época já estava entre R$ 17 e 23.

    Quais são os riscos e benefícios da valorização da fruta

    A renda gerada para a população que vive na região da foz do rio Amazonas com a valorização do açaí é bem-vinda. No entanto, caso a população local não tenha acesso às formas de exploração sustentável do açaí, o “boom” se resumirá a um ciclo econômico de vida curta, em vez de se reverter em uma fonte de renda a longo prazo.

    Em meio à mania do açaí, multinacionais como Coca-Cola e Pepsi já lançaram produtos com o sabor da fruta. A demanda crescente também preocupa, criando a possibilidade de que, em um futuro não tão distante, o extrativismo dê lugar a plantações de larga escala — atualmente, 80% da produção de açaí no Amazonas ocorre de maneira extrativista.

    O açaí

    Existem cerca de nove espécies da palmeira que dá a fruta no Brasil, mas ela também é encontrada em países vizinhos. O açaizeiro pode atingir até 25 metros de altura.

    Segundo um guia de alimentos regionais brasileiros divulgado pelo Ministério da Saúde em 2002, a planta dá frutos praticamente ao longo de todo o ano e protege o solo de regiões tropicais com grande incidência de chuvas. Os frutos redondos são de coloração roxa, quase preta quando ficam maduros.

    Ainda de acordo com o guia, tudo se aproveita do açaizeiro: frutos, folhas, raízes, palmito, tronco e cachos frutíferos. As populações ribeirinhas do baixo Amazonas, de Santarém até a Ilha de Marajó, utilizam a palmeira como fonte de renda e alimentação de suas famílias.

     

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