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Como a extrema direita dialoga com o feminismo na eleição francesa

Candidata Marine Le Pen assume o fato de ser mulher como ponto central de sua imagem, o que causa reações de movimentos

    Em sua segunda disputa presidencial, Marine Le Pen conseguiu levar o partido de extrema-direita Frente Nacional a um recorde de votos em um primeiro turno, ultrapassando a marca dos 20% pela primeira vez nos seus 45 anos de história.

    Os 21,3% de eleitores que apoiaram Le Pen foram suficientes para colocá-la no segundo turno, mas não na liderança. Seu opositor Emmanuel Macron conseguiu 24% dos votos e é o favorito para o pleito final, marcado para domingo (7).

    Ainda assim, a ascensão da Frente Nacional sob o comando de Marine é notável. Seu pai e fundador do partido, Jean-Marie Le Pen, também conseguiu chegar ao segundo turno em 2002. Naquela oportunidade, foi derrotado no segundo turno por Jacques Chirac: 82% a 17%.

    Boa parte do recente sucesso da Frente Nacional é creditado ao projeto de remodelamento de sua imagem, tocado por Marine Le Pen desde que assumiu seu comando em 2011, em um processo de “desdemonização” de partidos de extrema-direita na Europa.

    Nas eleições de 2017, o aspecto que ganhou maior evidência é a aproximação de seu discurso político ao feminismo.

    Ela promete lutar pela equiparação de salários entre gêneros, criar um sistema de combate à insegurança no emprego e a insegurança social das mulheres, além de trabalhar contra a violência e o assédio. A questão é que alguns dos principais movimentos feministas do país não acreditam que Le Pen seja uma representante legítima de suas pautas.

    O discurso de Le Pen

    A corrida eleitoral de 2017 marca a primeira vez que Le Pen coloca o fato de ser mulher como uma marca central de seus discursos. Quase sempre, aparece junto alguma pauta base de sua candidatura: a repulsa por imigrantes ou a desglobalização como remédio para os problemas econômicos franceses.

    Pela primeira vez, a Frente Nacional se propõe a falar diretamente com as mulheres, apresentar pautas específicas direcionadas a elas e representá-las em espaços de poder.

    “Eu sou uma mulher, e como mulher eu experimento a violência extrema, as restrições de liberdades que se multiplicam em todo o nosso país por meio do desenvolvimento do fundamentalismo islâmico”

    Marine Le Pen

    Candidata à presidência na França

    Em seu vídeo oficial de apresentação, Le Pen se define como mulher, mãe, advogada e “intensamente, orgulhosamente e fielmente francesa”. Aos 48 anos, ao longo de sua campanha lembrou também que já se divorciou duas vezes e teve três filhos em um ano.

    Uma ruptura para um partido conhecido pelo conservadorismo de seus políticos e eleitores, que historicamente contrariam pautas feministas como o direito ao aborto e o uso de contraceptivos. Não por acaso, a fonte de votos da Frente Nacional sempre foi majoritariamente masculina. Desde que Marine Le Pen assumiu, contudo, essa diferença vem diminuindo.

    48%

    do eleitorado atual de Le Pen é composto por mulheres, segundo estudo do Instituto Francês de Opinião Pública

    Ela desistiu, por exemplo, de tentar reverter a legalização do aborto, existente no país desde 1975 — pauta tradicional de seu partido.

    Ao se colocar como uma candidata mulher, moderna, trabalhadora e contra as elites em um país onde as mulheres ganham em média 30% a menos que homens com o mesmo nível de formação, Le Pen consegue, ao mesmo tempo, apagar a velha imagem da Frente Nacional e conquistar se comunicar com uma importante parte do eleitorado.

    A opinião dos grupos feministas

    Apesar dos esforços, Le Pen não conseguiu convencer os principais grupos feministas do país que sua candidatura representa um avanço para as mulheres. Foram várias as respostas de figuras importantes na França criticando o discurso da presidente da Frente Nacional.

    Rebecca Amsellem, fundadora da newsletter feminista “Les Glorieuses”, publicou um artigo no site Huffington Post em 2016 intitulado “Não, Marine Le Pen não é uma feminista”. No texto, Amsellem critica a associação automática feita por Le Pen entre assédio e imigração pontuando que em 90% dos casos a vítima conhece seu agressor.

    Na época, a festa de Ano-Novo de 2016 em Colônia, na Alemanha, foi marcada pelo assédio a milhares de mulheres em uma praça pública da cidade — os homens acusados eram quase todos imigrantes e muçulmanos. Na ocasião, Le Pen pediu o fim das políticas migratórias na Europa.

    Laurence Rossignol, ministra para os direitos das mulheres na França e integrante do Partido Socialista, também se posicionou contra Le Pen dizendo que, no segundo turno, Macron é “o único candidato que pode liderar a luta pela igualdade”.

    E é a questão da igualdade que mais pesa contra Le Pen quando ela é avaliada por feministas. Isso porque seu discurso extremo contra a imigração e o islamismo não contribui para a imagem de defensora da igualdade que ela tenta criar — mesmo que só igualdade de gênero.

    “Você pode ver claramente que o feminismo [de Le Pen] — embora realmente me doa usar essa palavra para ela — é profundamente racista. Ela fala de violência sexual apenas quando os agressores são estrangeiros”

    Claire Serre-Combe

    Porta-voz do Osez le Féminisme, associação feminista fundada em 1901, em entrevista ao BuzzFeed

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