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Os jardins verticais são uma opção viável para melhorar o ambiente urbano?

Engenheiro agrônomo presidente de ONG de compensação ambiental e urbanista fundador da empresa responsável pelo corredor verde da 23 de Maio falam sobre o impacto da prática

     

    Após apagar os grafites dos muros da avenida 23 de Maio, em São Paulo, o prefeito João Doria (PSDB) optou por colocar no lugar um jardim vertical. A nova opção é financiada pela construtora  TS3 Morumbi Desenvolvimento Imobiliários, como forma de compensação ambiental por um desmatamento constatado em um empreendimento no Morumbi em 2012.

    A instalação de jardins verticais na cidade não é unanimidade entre especialistas. Para alguns, ela não serve como compensação ambiental e tem um efeito limitado, além de necessitar de muitos cuidados, como irrigação permanente. Para outros, é uma opção para deixar a cidade mais verde, além de diminuir os efeitos da poluição e das ilhas de calor.

    Um jardim vertical é uma solução paisagística que cobre paredes com vegetação. Assim como um jardim, essa prática requer manutenção recorrente. Para manter um jardim vertical é necessário revisão regular do sistema de gotejadores para irrigação, fertilização e poda periódica.

    Segundo o botânico Ricardo Cardim, em entrevista ao jornal "Folha de S.Paulo", somando as folhas de uma parede verde, tem-se o “equivalente a uma árvore”. Ele afirma que “o custo de uma parede verde é de cerca de R$ 1,5 milhão”. E conclui: “o de uma árvore, como um Jequitibá branco, é de R$ 300”.

    Em nota da prefeitura de São Paulo, publicada em março de 2017, Doria explica que estendeu o tempo de manutenção do corredor verde, mas não explicita os custos da manutenção ou se a gestão assumirá os gastos de forma permanente. Devido à ausência de informações sobre os custos do projeto, o TCM (Tribunal de Contas do Município) está cobrando da prefeitura mais detalhes sobre as cláusulas do contrato de compensação.

    Compensação ambiental e a 23 de Maio

    A compensação ambiental deve ser feita por empreendedores que causem impacto com seus empreendimentos. Esse impacto pode ter sido previsto no projeto, antes das obras, ou ter acontecido após a autorização para início das obras.  A compensação pode ser feita financeiramente, entre outras formas. O dinheiro deve ser investido pelo município em unidades de conservação ambiental.

    Até março de 2015 não era possível compensar desmatamento com investimento em jardins verticais. O então prefeito Fernando Haddad (PT) e o secretário do Verde e Meio Ambiente à época, Wanderley Meira do Nascimento, reverteram então essa proibição com um decreto que previa a “conversão da compensação em obras e serviços, jardins verticais e coberturas verdes”.

    A ação do agora ex-prefeito tomou como base estudos como o publicado pela Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá. O texto aponta, por exemplo, que 1m² de plantas utilizadas em jardins verticais são capazes de absorver, em média, 6,5 kg de dióxido de carbono (CO²) por ano.

    Desde a edição do decreto por Haddad, a TS3 Morumbi Desenvolvimento Imobiliários começou a fazer compensação ambiental instalando jardins verticais no elevado Presidente João Goulart (Minhocão).

    Quando Doria assumiu, em 2017, parte dos jardins verticais já havia sido entregue. O prefeito, então, decidiu transferir a parte restante dos projetos de compensação para a 23 de Maio.

    A implantação do jardim vertical na avenida começou em março de 2017 e, na ocasião, a previsão era de que as obras fossem finalizadas em até 120 dias. Atualmente, o projeto está na segunda das suas três fases. Com 1500 m² já concluídos, faltam ainda cerca de 4.000 m², segundo empresa responsável.

    A discussão na Câmara e as avaliações do projeto

    A compensação ambiental por meio de jardins verticais foi até tema de uma CPI na Câmara Municipal, em 2016. O atual secretário do Meio Ambiente, Gilberto Natalini, então vereador pelo Partido Verde, foi o relator da comissão, que apresentou seu relatório final em 29 de novembro de 2016.

    A proposta dessa CPI era julgar se a aplicação de jardins verticais é ou não uma medida compensatória de fins ambientais. Natalini, na época, defendia que não. Entretanto, em março de 2017, agora secretário do Verde e Meio Ambiente na gestão Doria, ele autorizou a compensação da TS3 via implantação de jardins verticais. Ele explicou, ao site “G1”, por que concedeu a autorização:

    “Não mudei opinião coisa nenhuma, eu recebi uma situação [...] As árvores fornecem um serviço ambiental muito maior do que qualquer outro tipo de compensação. Agora cada caso é um caso, nós vamos analisar, nós vamos nos basear nos indicativos técnicos”

    Gilberto Natalini

    Secretário do Verde e Meio Ambiente para o “G1

    A fim de ampliar a discussão, o Nexo ouviu dois nomes envolvidos no debate sobre jardins verticais e compensação ambiental:

    • Roberto Resende, engenheiro agrônomo, presidente da organização de terceiro setor Iniciativa Verde.
    • Guil Blanche, urbanista fundador do Movimento 90º, grupo responsável por instalar os jardins verticais na 23 de Maio.

     

    O jardim vertical é uma opção para melhorar o ambiente urbano?

    Roberto Resende Sim. Com certeza, em muitas situações, soluções como jardins verticais ou tetos verdes podem contribuir bastante para a melhoria da qualidade ambiental. Isso inclui aspectos como melhoria do conforto térmico, qualidade do ar, paisagem, dentre outros. Especialmente quando não há espaço para vegetação, para árvores, arbustos ou gramados e restrições orçamentárias para a implantação e manutenção, estas soluções ganham importância.

    Guil Blanche A cidade contemporânea, repleta de paredes, carece de áreas verdes. Com a grande presença de áreas impermeáveis, como prédios, promove o acúmulo de calor na cidade, gerando o efeito ilha de calor, além de acumular a poluição produzida na cidade. Os jardins verticais podem ocupar essas paredes, ajudando a controlar a temperatura e reduzir drasticamente a poluição. Em geral, os jardins verticais reduzem 70% da concentração de gases poluentes no seu entorno. As estruturas podem reduzir em até 10 ºC a temperatura da superfície em que estão instaladas e do entorno. Isso faz dos jardins verticais uma ferramenta de reabilitação urbana extremamente eficiente.

    O jardim vertical pode ser usado como compensação ambiental?

    Roberto Resende Em termos. Jardins verticais e tetos verdes devem, a princípio, fazer parte do projeto como uma medida de sustentabilidade interna ao empreendimento. A compensação ambiental pode ter diversos motivos, sendo voluntária ou não. Quando a compensação é obrigatória, em geral, ela é ligada a regularização de uma atividade que impactou o meio ambiente, como o corte de árvores. A compensação deve ser proporcional ao dano.

    É importante lembrar que o plantio de árvores, seja em ambientes urbanos, em áreas rurais ou unidades de conservação, favorece diversos serviços ambientais, mais amplos, como a biodiversidade, os recursos hídricos, a fixação de carbono, a regulação do clima e também a melhoria da paisagem. Ou seja, dependendo do impacto que se quer compensar, as opções serão mais ou menos adequadas.

    Guil Blanche A conclusão da CPI, em seu documento final, é de que os jardins verticais são bons para a cidade, mas não devem ser medida de compensação ambiental, porém, sem embasamento técnico. Naquele momento, levantamos mais de 30 pesquisas que sustentam a possibilidade de jardins verticais servirem como compensação ambiental. No corredor da 23 de Maio, estamos ocupando 10.000 m² de jardins verticais. Para que se conseguisse o mesmo impacto com árvores, seria necessário uma área permeável de 65.000 m². Essa dado é sustentado pelo estudo da Universidade de British Columbia. 

    O jardim vertical é uma ferramenta complementar. Acreditamos ser fundamental o plantio de árvores e o repensar da paisagem urbana. É inegável que o jardim vertical é uma alternativa como compensação ambiental eficiente.

     

    ESTAVA ERRADO: Na primeira versão deste texto, Ricardo Cardim foi creditado como biólogo. Na verdade, Cardim é formado em odontologia e fez mestrado em Botânica na Universidade de São Paulo. A informação foi corrigida às 12h15 de 2 de maio de 2017.

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