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Qual o limite para atletas grávidas praticarem atividades físicas

O ‘Nexo’ conversou com Tathiana Parmigiano, obstetra e ginecologista do Comitê Olímpico Brasileiro, sobre os limites para mulheres gestantes, atletas ou não, competirem

    Em janeiro de 2017, a americana Serena Williams venceu o Aberto da Austrália contra sua irmã, Venus Williams. Com a vitória, tornou-se a primeira tenista, entre homens e mulheres, a erguer pela 23ª vez um troféu do Grand Slam (que reúne os quatro principais torneios do esporte). O público não sabia na época, mas a tenista já estava grávida de oito semanas.

    Como a gravidez da tenista estava no início, só depois de publicar uma foto em seu snapchat que o público teve conhecimento da gestação. O fato levou a uma série de questionamentos sobre quais são os limites para uma atleta grávida competir. Há ainda quem se questione se a alteração hormonal típica do início de gestações poderia tê-la beneficiado.

    Um dos primeiros casos polêmicos de competidoras gestantes aconteceu em junho de 2014 com a atleta americana Alysia Montano. Ela participou da prova de corrida de 800 metros em Sacramento, na Califórnia. Com mais de sete meses de gravidez, foi a última colocada na categoria. Os médicos autorizam ela a participar na época.

    Fora do universo olímpico, muitas mulheres, que não são atletas, são incentivadas por seus obstetras a praticar atividades físicas leves, como yoga e pilates.

    O Nexo conversou com a médica Tathiana Parmigiano, especialista na área de Ginecologia do Esporte que atende atletas da CBJ (Confederação Brasileira de Judô), da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e do COB (Comitê Olímpico Brasileiro).

    Existe algum limite de tempo para mulheres grávidas competirem?

    Tathiana Parmigiano Esporte e exercício físico na gravidez estão muito bem estabelecidos. Todas devem ser incentivadas e isso vai muito além da hidroginástica. Às vezes há resistência de alguns médicos, mas a mulher deve ser incentivada a fazer exercícios na gravidez. O que muda, na verdade, é qual tipo de atividade, o tempo de duração e a intensidade. A Serena Williams, por exemplo, tem um condicionamento físico diferente da maioria das mulheres. Mas nem por isso a condição dela autoriza que ela participe de competições sem correr riscos. Ninguém incentiva uma gestante a competir. Ela ganhou aquele campeonato [o Aberto da Austrália] no início da gestação. Muitas mulheres sequer diagnosticam tão precocemente a gravidez e mantém suas condutas e atividades sem saber que estão grávidas. Uma vez que a gestação é diagnosticada, a partir de 8 semanas, o útero perde a proteção da pelve e da bacia e fica mais suscetível a traumas. A ideia é: pratique exercícios, mas de acordo com o que seu corpo estava acostumado antes da gravidez. Por exemplo, se você era acostumada a correr, você está autorizada a continuar essa atividade, mas sem esquecer que a atividade precisa ser adaptada. O que aconteceu com a Serena Williams é uma particularidade, mas não pode ser regra. Não é porque ela competiu grávida e não teve complicações que isso deve ser visto como algo normal.

    Uma mulher ciente da gravidez desde o início deve continuar a praticar atividades físicas? Quais os possíveis riscos?

    Tathiana Parmigiano Ela pode e deve continuar, mas com adaptação da frequência cardíaca. O ideal é que ela não chegue a praticar um exercício extenuante, que não é adequado para um embrião ou bebê que está se formando. Há sempre riscos. Uma vez que a mulher está grávida, o médico dela tem que avisá-la. E obviamente a decisão é dela. Quanto aos riscos, ela pode se desidratar ou ter uma queda que leve ao descolamento de placenta. É comum no início da gravidez que a pressão caia e ocorram desmaios. É claro que isso é muito individual. Também pode não acontecer nada. O próprio tênis, um esporte que tem muita mudança de direção, tem que ser praticado com muito cuidado, já que, durante a prática, o centro de gravidade da barriga das mulheres gestantes muda, tornando-a mais suscetível a queda, por exemplo, além das articulações ficarem mais frouxas. Existe uma coisa que chama embebição gravídica, que é uma alteração hormonal que aumenta o risco de torção do pé, por exemplo. O exercício em si não eleva o risco de aborto. Mas existem algumas adaptações para que a gestante não fique exposta.

    Quais são essas adaptações?

    Tathiana Parmigiano Nós usamos uma sigla para elencar essas adaptações. É o FITT (Frequência, Intensidade, Tipo e Tempo). A mulher, durante a gravidez, pode fazer atividade todos os dias em uma intensidade que a gente mede a partir da frequência máxima dela, que é calculada, geralmente, de acordo com a idade, mas que tem que levar em conta o condicionamento físico prévio. O tipo de atividade vai depender muito do que a gestante estava acostumada a fazer antes da gravidez. Por exemplo, uma mulher que nunca correu não vai começar a correr na gravidez, mas uma que já corria antes pode adaptar a corrida.

    Quais são os limites para uma mulher nos últimos meses de gestação?

    Tathiana Parmigiano Eu não limito minhas pacientes. Dentro do vínculo eu conto bastante com o bom senso delas. Acaba sendo quase que natural que elas percebam que em determinado momento da gravidez é necessário interromper algumas atividades. Já tive uma paciente que era uma maratonista e correu 10 km até o nono mês da gestação. Só que ela era acostumada a correr 100 km antes. Para ela aquilo era muito fácil, só que não posso indicar isso para todas. Para as mulheres que não são atletas de alto rendimento, uma alternativa boa é buscar exercícios pela água, como a natação e o deep running, que é uma corrida na água. Essas práticas melhoram o inchaço, diminuem impacto, sobrecarga, e não há risco de queda.

    Existe alguma atividade contraindicada?

    Tathiana Parmigiano Um exercício que é absolutamente proibido é o mergulho com cilindro, scuba diving pelo risco de descompressão e embolia. Os esportes com risco de queda também merecem atenção porque exigem que a mulher faça força, como o levantamento de peso. Outros exercícios que fazem a mulher prender a respiração ou causem aumento da pressão intra-abdominal também. Esses são exercícios contraindicados ou que devem ser feitos com supervisão. Caso contrário, existe, por exemplo, o risco de diminuição de fluxo sanguíneo para o útero. É claro que o processo tem que ser individualizado e existem algumas contraindicações absolutas, mas são raras. Por exemplo, uma mulher que tem uma doença cardíaca grave, uma doença pulmonar. O exercício deve ser incentivado, mas é importante que tenha liberação do médico obstetra.

    Por que a prática de esportes por grávidas é mal vista?

    Tathiana Parmigiano Acho que, em parte, porque existem mulheres grávidas que extrapolam e param na mídia, sendo julgadas. Às vezes uma foto não mostra o antecedente e a história daquela mulher. E muitas vezes o julgamento é feito da maneira que a informação aparece. O segundo ponto é que existem médicos conservadores que assustam muitas mulheres que são fisicamente ativas falando que ela só vai poder fazer caminhada e hidroginástica na gestação. As mulheres podem fazer muito mais, contanto que haja uma adaptação à sua prática. Tem muita mulher hoje em dia que posterga gravidez porque acha que vai ter que parar tudo. E não é assim. Mas também não é porque a Serena Williams fez o que fez que todo mundo pode fazer igual. É preciso saber dos riscos e defini-los. Quanto mais informação, melhor. Sempre é algo que tem que ser conversado no pré-natal.

    Enquanto as mulheres não-atletas são indicadas a praticar yoga, pilates e caminhadas leves, o que permite atletas de alto rendimento praticar esportes mais intensos?

    Tathiana Parmigiano Isso é algo que eu considero errado. Primeiro porque o yoga não deve ser totalmente liberado. Se você liberar toda a prática da yoga não será algo positivo também. Há observações a serem feitas dentro da yoga. Uma mulher deitada de barriga para cima depois do quinto mês de gravidez pode passar mal. E isso também pode acontecer caso ela faça jiu-jitsu, levantando 80kg de peso ou durante a yoga. O problema em si não é o que ela está fazendo, mas a posição do exercício que ela está fazendo. E o que permite essas mulheres de alto rendimento a praticar esses esportes é a memória muscular, uma adaptação ao exercício que ela já fazia antes.

    Também é indicado para mulheres grávidas evitar situações de stress. Isso não é uma questão para as atletas?

    Tathiana Parmigiano Isso não deve estar associado a competitividade. Nenhum médico vai ou deve incentivar a prática competitiva. O que pode acontecer é: existe uma corrida de rua, essa mulher consegue completar a prova? Então tudo bem. Mas esqueça o tempo e a performance. A prática será para a mulher sentir o prazer da atividade, da corrida e do fazer parte. O limiar é tênue no entendimento.

    Existe algum processo químico que favoreça a mulher grávida durante a prática esportiva?

    Tathiana Parmigiano Existe um hormônio que é produzido no início da gestação que é anabólico, e que teoricamente ajudaria as mulheres grávidas, mas a minha colocação é a seguinte: no início da gestação, na maioria das vezes, a mulher tem muito enjoo, sono e indisposição. Eu não acredito que isso aumenta a performance das mulheres.

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