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Qual o impacto da greve geral na tramitação das reformas, segundo estes cientistas políticos

Carlos Pereira e Cláudio Couto falam ao ‘Nexo’ sobre a dimensão da paralisação e de como ela impacta ou não as decisões do Congresso

     

    Os grevistas que se mobilizaram nesta sexta-feira (28) pretendem barrar o avanço das reformas trabalhista e previdenciária no Congresso Nacional. Para isso, apostaram na abrangência nacional do movimento como uma demonstração de força.

    Há avaliações desencontradas a respeito de qual foi a amplitude da paralisação. Para seus organizadores, foi um sucesso, dada a alta adesão de categorias em praticamente todo o país. O ministro da Justiça, Osmar Serraglio, chegou a dizer, durante o dia, que o movimento foi um fracasso.

    Quem vê um sucesso na greve geral

     

    A CUT (Central Única dos Trabalhadores) - uma das centrais sindicais que convocou a greve - postou fotos e vídeos de manifestações e paralisações em todos os Estados brasileiros. De acordo com ela, isso prova que o movimento foi abrangente e exitoso.

    Em São Paulo, todas as linhas de ônibus foram paralisadas, com exceção de algumas regionais, operadas por cooperativas. O metrô funcionou apenas parcialmente.

    Os ônibus também pararam de circular na região metropolitana de Porto Alegre. Em Brasília e em Belo Horizonte, além dos ônibus, o metrô também deixou de funcionar.

    No Rio, o metrô operou normalmente, mas usuários de ônibus reclamaram de escassez de veículos pela manhã. A ponte Rio-Niterói teve o trânsito interrompido pelos manifestantes na parte da manhã, assim como várias rodovias do país, sobretudo no sudeste.

    As hashtags #BrasilEmGreve e #GreveGeral ocuparam o primeiro e o segundo lugares dos “assuntos do momento” no Twitter na manhã de sexta-feira (28).

    Foi “um sucesso total”, disse o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Nem de domingo as cidades têm trânsito tão leve quanto eu vi hoje. O povo ficou em casa”, afirmou o petista, em entrevista à Rádio Brasil Atual.

    “Isso [apoio à greve] é uma clara demonstração que as pessoas resolveram paralisar em protesto contra a retirada de direitos que o governo vem fazendo. É uma satisfação saber que o povo brasileiro está tomando consciência”

    Luiz Inácio Lula da Silva

    Ex-presidente da República

    À noite, em São Paulo, os organizadores chegaram a dizer que 70 mil pessoas protestaram contra as reformas no Largo da Batata, na zona oeste - a Polícia Militar não divulgou estimativa.

    Quem vê um fracasso na greve geral

     

    O grosso das paralisações ocorreu na parte da manhã, se diluindo ao longo do dia. O movimento foi forte em São Paulo, no setor dos transportes, mas menos intenso em outras capitais.

    O governo considera que muitos trabalhadores não aderiram politicamente à greve. O que aconteceu é que eles foram simplesmente impedidos de chegar ao trabalho.

    A hashtag #EuVouTrabalhar também esteve entre as mais usadas no Twitter nesta sexta-feira (28), mas sempre atrás dos #BrasilEmGreve e #GreveGeral.

    “Não é uma greve nacional”, afirmou o ministro da Justiça, Osmar Serraglio em entrevista à Rádio Jovem Pan. “Estamos testemunhando piquetes, bloqueios, mas a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal e polícias estaduais estão sendo muito eficientes. Estão desobstruindo.”

    “Não temos greve. Não há greve. Há uma baderna generalizada, uma insatisfação daqueles que percebem que estão perdendo a fonte de recursos que os permitia manipular a vontade de nossos trabalhadores”

    Osmar Serraglio

    Ministro da Justiça

    Ao longo de todo o dia, grupos queimaram pneus e fizeram barricadas em rodovias. Houve confrontos violentos entre a polícia e manifestantes no Rio de Janeiro, onde ônibus foram incendiados. Em São Paulo, houve confronto entre PMs e black blocks depois do ato no Largo da Batata.

    Às 19h20, o presidente Michel Temer se pronunciou por meio de uma nota oficial. Das 182 palavras no texto, nenhuma era “greve”. Temer afirmou que “grupos bloquearam rodovias e avenidas para impedir o direito de ir e vir do cidadão, que acabou impossibilitado de chegar ao seu local de trabalho ou de transitar livremente”.

    O presidente disse ainda que o debate sobre as reformas “será realizado na arena adequada para essa discussão, que é o Congresso Nacional. De forma ordeira e obstinada”.

    A opinião de dois cientistas políticos

    Dois cientistas políticos, professores da FGV, Carlos Pereira e Cláudio Couto, falaram ao Nexo sobre a importância da paralisação desta sexta-feira (28) e seu possível impacto na tramitação das reformas.

    Qual a avaliação sobre a dimensão da greve?

    Carlos Pereira Ela não foi trivial. Mostrou capacidade de organização dos sindicatos, que se sentiram diretamente afetados e prejudicados pelas reformas de Temer. Foi uma resposta às reformas trabalhista e previdenciária, especialmente à iniciativa de extinguir a contribuição sindical obrigatória, o que vai gerar uma perda estimada pelo Tribunal de Contas em R$ 3 bilhões aos sindicatos. Esse talvez seja o preço que os sindicatos tenham que pagar se a reforma vir a ser aprovada na sua integralidade, o que colocaria o movimento sindical num choque sem precedentes. Então, o que vimos foi os sindicatos tentando mostrar força, dizendo que não vão aceitar a situação de braços cruzados, ou melhor, vão cruzar os braços com radicalidade para impedir que isso aconteça. Trata-se de algo normal, salutar e que demonstra a maturidade da democracia brasileira.

    Cláudio Couto Ele foi um movimento de sucesso relativo. Não foi um fracasso, mas também não foi um sucesso retumbante. Você não deve medir o sucesso de uma greve geral - ou mesmo de uma greve qualquer - pelo número de pessoas que participaram de manifestações de rua. Você mede pelo número de pessoas que não foram trabalhar. Há muita gente dizendo “ah, não havia tanta gente assim na rua”. Não é isso o que conta. Conta o quanto de gente não foi trabalhar. O número de pessoas que não foi trabalhar - seja por adesão à greve, seja porque não conseguiu chegar ao trabalho - indica um relativo sucesso.

    Que efeito concreto essa greve pode ter sobre os políticos responsáveis por votar as reformas?

    Carlos Pereira É um efeito muito baixo ou mesmo inexistente, porque se trata de um governo que tem vida curta e que já não desfruta de popularidade. A estratégia de reforma é a estratégia de um presidente que não se preocupa em se reeleger e é também a forma de sobrevivência de todos esses políticos que vivem essa enxurrada de denúncias, e que dão sustentação ao governo.

    É muito pouco provável que esse governo ofereça um candidato competitivo em 2018. Consequentemente, é pouco provável que essas resistências nas ruas afetem o compromisso do governo com essa agenda. São reformas impopulares cujos resultados positivos não serão percebidos no curto e no médio prazos, mas isso não parece ser um problema.

    Cláudio Couto Num cenário de reformas tão difíceis quanto essas, você ter um movimento que, de alguma forma, produz mais pressão sobre os parlamentares pode acabar provocando mudanças de posição.

    Está havendo um ziguezague nas votações, mais até no sentido de deserções do que de adesões às reformas. Então, um movimento como esse, de uma forma ou de outra, joga mais pressão e obriga o governo a, pelo menos, ter uma estratégia mais cautelosa, talvez até postergando votações para poder refazer a sua base.

    Os políticos estão sensíveis à pressão das ruas? Por quê?

    Carlos Pereira Sensíveis sempre estarão. Eles não podem ignorar. Mas os parlamentares, em sua maioria, não têm a sobrevivência política atrelada à insatisfação desses setores sociais. A principal variável que explica sucesso eleitoral na reeleição de parlamentares no Brasil é a capacidade de levar benefícios para seus eleitores locais. Como o presidente seleciona de forma discricionária como será a distribuição de recursos, os parlamentares mais fiéis recebem mais recursos e, em consequência, garantem mais sua sobrevivência parlamentar.

    Então, a despeito da pressão dos movimentos, a possibilidade de os parlamentares não mais apoiarem essa agenda do presidente é baixa. A não ser que realmente aconteçam mais e mais mobilizações, como ocorreu em 2013 e 2015, o que é improvável agora.

    Cláudio Couto As ruas são mais um elemento de pressão que será considerado na hora de tomar as decisões. Se o governo estivesse num cenário de céu de brigadeiro, se essas reformas não produzissem qualquer tipo de mobilização de rua, se votar nelas fosse tranquilo, tudo bem, não haveria problema. Mas quando você tem um movimento que catalisa um descontentamento, sai às ruas, ainda que com sucesso relativo, quando você tem adesão bastante razoável de segmentos da sociedade, você realmente produz alguma alteração. Como a decisão tende a ser apertada, isso tende a fazer alguma diferença. Talvez, obrigue o governo a ter uma estratégia mais cautelosa, mais prudente, que pode, por exemplo, adiar por algum tempo essa tomada de decisão.

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