Desde 23 de abril, quem digita errado o endereço de algum dos sites de conteúdo pornográfico mais famosos da internet é direcionado a um vídeo sobre a vulnerabilidade das mulheres que trabalham nessa indústria. Segundo a narradora do vídeo, essas atrizes vivem menos, contraem mais DSTs e são protagonistas da quase totalidade das cenas de agressão nos filmes.

A iniciativa faz parte de uma campanha de conscientização feita pelo Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, organização voltada à saúde das mulheres com mais de 30 anos de atuação, em parceria com a agência publicitária paulistana Purple Cow.

Os dados divulgados no vídeo são da Pink Cross Foundation, uma instituição americana voltada a apoiar profissionais da indústria pornográfica, fundada pela ex-atriz pornô Shelley Lubben. 

Como a campanha foi feita

Mais de cem urls - parecidas com as dos sites pornôs mais conhecidos, com uma troca de letra ou outra, como “www.xvidebos.com”, por exemplo -  foram compradas e ocupadas com o vídeo acima.

A ideia, segundo Giulia Silva, uma das idealizadoras da campanha na agência Purple Cow, é atingir principalmente o público masculino, que corresponde à maioria dos consumidores de pornografia no mundo.

A iniciativa pretende levantar a discussão de como a pornografia é produzida - um material que frequentemente reproduz a violência contra a mulher e sua subjugação, disse Giulia Silva ao Nexo, e que traz consequências para a saúde mental e física das mulheres envolvidas na indústria.

Os criadores da campanha têm monitorado o acesso às urls. Entre 23 de abril - quando o vídeo entrou no ar pela primeira vez nos endereços “falsos” adquiridos - e 26 de abril, quando a campanha foi divulgada pela primeira vez em um post na página do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, o vídeo recebeu acessos de 70 países diferentes. O país com o maior número de acessos foi a China.

A partir da primeira divulgação no dia 26, a quantidade de visualizações chegou a quatro mil em poucas horas, somente naquele dia. O investimento feito pela agência para a compra de uma centena de urls foi de cerca de R$ 3.000. “É um investimento baixo perto da quantidade de pessoas que [a campanha] pode atingir”, disse Leonardo Barbosa, redator da campanha, ao Nexo.  

Ao fechar o vídeo, o espectador é redirecionado automaticamente para uma busca no Google pelos termos “a verdade sobre a indústria pornografica”, um incentivo para que seus consumidores se informem.

Qual a situação das mulheres na indústria pornográfica

Mortalidade

A expectativa de uma atriz pornô, segundo o vídeo, é de 36 anos. De cerca de 2.000 estrelas pornô que estavam em atividade no polo pornográfico localizado no Vale de San Fernando, na Califórnia, EUA, 206 morreram de Aids, suicídio, homicídio e abuso de drogas entre 2003 e 2014, segundo a Pink Cross Foundation.  Essa estatística é representativa porque a região concentra 85% da produção mundial de filmes pornográficos.

DSTs

Há milhares de casos de contaminação de atores com doenças como herpes, clamídia, gonorreia e HIV registrados nos EUA, segundo a Pink Cross Foundation. 70% das DSTs na indústria ocorrem nas mulheres. 

Violência

Além da violência muitas vezes representadas em frente às câmeras - nas cenas de agressão, 94% dos atos são contra as atrizes -, há casos emblemáticos de violência e exploração sofridas por mulheres na indústria. Um dele é o da atriz Linda Lovelace, estrela pornô americana da década de 1970 explorada e agredida durante anos pelo marido para ganhar dinheiro como atriz pornô, como ela conta em sua autobiografia “Ordeal”.  

“Como é um mercado, a competição impera na indústria pornô, e o conteúdo ‘evolui’ para práticas cada vez mais ‘ousadas’. O gang bang de três caras com uma mulher de repente vira o ‘extreme gang bang’, com 10, 20, 150 caras. (...) Surgem canais especializados em surras e outras práticas cada vez mais extremas, ‘extreme isso’, ‘extreme aquilo’. E assim por diante, com atos cada vez mais violentos e mais destruidores de corpos femininos”

Gabriela Loureiro

Em um artigo publicado no site ‘Think Olga’

Em 2014, a TV universitária da USP produziu um vídeo sobre a situação das mulheres na indústria pornográfica, sobretudo a brasileira. “A gente é vista em set como um objeto. Tem que fazer, tem que ‘dar ângulo’, não importa se está doendo”, diz a atriz Patricia Kimberly.

Em entrevista à TV USP, Shelley Lubben, fundadora da Pink Cross Foundation, chama atenção para o fato de que as gravações são feitas em locais privados, sem supervisão, e que as equipes de filmagem são formadas majoritariamente por homens.

“Identificada uma situação de violência, ela poderia ser denunciada a qualquer órgão, por exemplo fiscal do trabalho, Ministério Público, delegacias”, diz, no vídeo, Tamara Amoroso Gonçalves, mestre em Direito pela USP. “Mas o que eu me pergunto é, caso chegasse uma denúncia dessas a um órgão público, como ela de fato seria vista por aquele servidor”. 

 

 

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