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Como Elon Musk pretende fundir inteligência artificial com a consciência humana

Empreendedor bilionário criou uma nova empresa para expandir a capacidade do cérebro e conectá-lo a computadores

    No vácuo deixado por Steve Jobs, dono da Apple que morreu em 2011, Elon Musk se tornou um dos nomes mais associados à inovação tecnológica da atualidade. Dono da empresa de carros e energia elétrica Tesla e da fábrica de foguetes SpaceX, ele é incensado como o novo grande visionário do Vale do Silício, na Califórnia.

    A nova empreitada de Musk é fundir a inteligência artificial, dos robôs, ao cérebro humano. Para isso, criou a Neuralink. O site da nova empresa já está no ar e descreve em uma frase a que se propõe: “Neuralink está desenvolvendo interfaces de ultra-alta largura de banda (bandwidth) para conectar humanos e computadores”. Ou seja, Musk quer ligar nossos cérebros à nuvem por meio de eletrodos implantados, que funcionariam como uma extensão digital de nossa capacidade para ler e interpretar o mundo.

    A Neuralink havia sido fundada em julho de 2016 como uma empresa médica. Então, no fim de março de 2017, o jornal “The Wall Street Journal” informou que ela era a nova aposta de Musk. Como tudo que o bilionário faz ou diz atualmente, a notícia gerou conversa nas redes.

    Musk confirmou que a Neuralink era seu mais novo negócio, mas sem mais detalhes. Ele guardou as informações para o blog Wait, But Why, que publicou em 20 de abril uma extensa reportagem sobre como funciona a Neuralink. Como descreve Tim Urban, autor do blog, se a Tesla e a SpaceX têm como objetivo redefinir o que os humanos do futuro vão fazer, “a Neuralink quer redefinir o que os humanos do futuro vão ser”.

    O que é a Neuralink

    Interfaces que ligam cérebro a máquinas por meio de implantes já existem. Mas elas têm uso restrito atualmente ao tratamento de pacientes com doenças neurodegenerativas, como Parkinson. As interfaces começaram a ser pesquisadas nos anos 1970. O neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis é um dos mais conhecidos nomes que pesquisam o tema. Essas interfaces podem ajudar pacientes a recuperar movimentos dos braços e pernas.

    Inicialmente, a Neuralink pretende, num prazo de quatro anos, entregar essa tecnologia para pacientes afetados pelas doenças neurodegenerativas. Mas o que chama a atenção no novo negócio de Musk é que, em oito a dez anos, ele promete tornar a tecnologia de interface cérebro-máquina acessível a qualquer um.

    A tecnologia de redes neurais acoplada ao cérebro humano permitiria, assim, coisas como a comunicação telepática entre as pessoas. Com nossas mentes ligadas a um computador, não seria preciso falar, por exemplo.

    “Você não precisaria verbalizar, a menos que quisesse acrescentar um pequeno charme à conversa. Mas a conversa mesmo seria uma interação conceitual — em um nível que é difícil de conceber hoje”

    Elon Musk

    empresário da Tesla, SpaceX e Neuralink

    Assim, de forma geral, a conexão do cérebro a artífices ampliaria, segundo Musk, nossas capacidades cognitivas — fundindo inteligência biológica e digital.

    Se por um lado o negócio todo soa como ficção científica, por outro há um time de engenheiros e cientistas experientes que já estão trabalhando na Neuralink. Além de Musk, há, atualmente, oito pessoas no comando da empresa. Pessoas com experiências diversas, como o ex-líder de design de chips da IBM, uma pesquisadora de microfabricação e materiais biocompatíveis, um neurocirurgião professor do MIT (Massachusetts Institute of Technology) e até um ex-aluno do brasileiro Miguel Nicolelis na Universidade de Duke. Musk conta ao Wait, But Why ter se reunido com mais de mil pessoas para chegar aos seus oito escolhidos.

    Uma das razões que Musk diz ter motivado sua nova empreitada é o receio de que as tecnologias de inteligência artifical acabem dominando o homem — numa concretização da história de Frankenstein, ou como prefere o empresário, numa versão real do “Exterminador do Futuro”. “Nos filmes as coisas acabam mal. Temos que garantir que tudo termine bem”, disse Musk numa entrevista em 2014.

    Por que prestar atenção em Elon Musk

    Musk se fez relevante por ter criado empresas que já funcionam na fronteira da tecnologia. Ele já foi considerado o homem de negócios do ano pela revista “Businessweek” em 2013, uma das 100 pessoas que mudaram o mundo em 2010 pela revista “Time” e uma das 75 pessoas mais importantes do século pela revista “Esquire”.

    Musk alimenta o culto à sua personalidade. Já fez pontas em filmes como “Obrigado por fumar” (2005) e “Homem de Ferro 2” (2010). Também já apareceu nos seriados “Os Simpsons” e “The Big Bang Theory”. Carismático, sabe usar as redes sociais a seu favor. Ele faz questão de manter conversas e dar notícias em seus próprios perfis, personificando seus projetos.

    O jeito arrojado e algo espalhafatoso do empresário de 45 anos pode levantar dúvidas sobre a qualidade de seus negócios. O ex-bilionário brasileiro Eike Batista o tem como ídolo — e há no site Quora a pergunta: como investidores podem ter certeza de que Musk não é apenas mais um Eike?

    Não é possível garantir que os negócios de Musk não vão quebrar. Mas o empresário, que nasceu na África do Sul e se mudou para os Estados Unidos — onde se formou em economia e física —, vem realizando projetos ousados e, em alguns casos, exitosos. A fortuna que fez ainda jovem, vendendo uma empresa que produzia conteúdo para portais de internet e sendo um dos fundadores do PayPal, o permitiu investir em duas companhias que o fazem estar entre as figuras mais proeminentes do mercado de tecnologia no mundo.

    Principais empresas

    Tesla

    A empresa de carros elétricos foi fundada em 2003 e, no ano seguinte, teve Musk como um de seus principais investidores. O empresário acabou se envolvendo completamente no negócio. Até 2017, a empresa já tinha entregado três modelos de carros — o Roadster e o S, esportivos, e o X, um utilitário. Mas o principal produto da empresa foi anunciado em abril de 2016. Na ocasião, com uma apresentação que gerou muita expectativa — de forma parecida à dos lançamentos de produtos da Apple feitos por Steve Jobs — o Tesla 3 foi um sucesso quase imediato: em 72 horas já tinha 276 mil compradores, faturando US$ 10 bilhões na pré-venda. As primeiras unidades do carro elétrico devem chegar ao mercado em 2018. Além de produzir veículos elétricos, a empresa tem sistema que faz seus carros serem 100% autônomos, isto é, prescindem da direção humana.

    SpaceX

    A empresa nasceu em 2002. E tem como objetivo declarado colonizar Marte. Em dezembro de 2015, quebrou uma importante barreira da exploração espacial: testou com sucesso a tecnologia de lançamento e pouso de foguetes que vão e voltam da órbita terrestre. A tecnologia reduz muito os custos das viagens, já que o foguete é inteiramente reaproveitado. Em fevereiro de 2017, a SpaceX comunicou que já tem dois tripulantes confirmados para embarcar em 2018 num voo rumo à Lua. Segundo a empresa, eles já pagaram boa parte da passagem. O valor não foi divulgado. O Dragon 2 vai dar uma volta no satélite natural, mas não vai pousar nele. A nave passará por um voo de teste não tripulado em 2017 e por um segundo voo teste, desta vez com tripulação, no primeiro semestre de 2018. O lançamento será feito do Kennedy Space Center, na Flórida, na mesma base usada para lançar as missões do projeto Apollo rumo à Lua.

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