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4 pontos para prestar atenção na greve geral de 28 de abril

Centrais sindicais e diversas categorias prometem parar o país em protesto contra as reformas. Atos podem ser relevantes para momento político do governo Temer

    Sindicatos e categorias das mais diversas prometem paralisações em massa nesta sexta-feira (28) em todo o país. Os organizadores falam em uma greve geral contra as reformas trabalhista e da Previdência, em discussão no Congresso. Há atos previstos nos 26 Estados, no Distrito Federal e em ao menos cem cidades do interior.

    Aprovar os projetos que mudam cem pontos da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) e as regras da aposentadoria é a prioridade do governo Temer para 2017. Reformas desse tipo já foram propostas em outros governos, mas em razão da falta de apoio popular, apenas pequenas mudanças foram adiante.

    Segundo a equipe econômica do Planalto, as mudanças são necessárias para sanear as contas públicas e dar condições para a economia voltar a crescer. Os projetos, entretanto, sofrem resistência até mesmo entre os partidos da base de apoio de Temer.

    Desde que as reformas avançaram no Congresso, atos isolados foram organizados pelo país. O mais recente ocorreu em 15 de março, promovido pela CUT (Central Única dos Trabalhadores). As últimas greves gerais, com adesão de milhões de trabalhadores, ocorreram em 1989 e em 1996, contra a política econômica e contra privatizações, respectivamente.

    Agora, as centrais envolvidas na convocação dos atos desta sexta-feira dizem ter apoio suficiente para repetir o feito daqueles anos. Do lado oposto, movimentos políticos que apoiam o governo, a exemplo do MBL (Movimento Brasil Livre), pedem a seus seguidores nas redes sociais que não participem da paralisação. “A greve do dia 28 de abril é coisa de vagabundo! Não vá”, diz uma das postagens do grupo.

    Diante do atual momento econômico e político, há alguns pontos em torno dessa movimentação que fazem dela um tema relevante. São eles:

    Para além do ‘Fora, Temer’

    As reações contrárias às reformas não vêm apenas dos partidos de oposição, como o PT, PCdoB e PSOL, e de movimentos sociais, grupos sabidamente contrários ao governo. Com exceção do PSDB, mais fiel por ora a Temer, legendas da base aliada e até o próprio partido do presidente, o PMDB, demonstram insatisfação com as propostas da equipe econômica.

    Para os líderes partidários, a percepção é de que as reformas são vistas com ressalvas pela maioria do eleitorado e defendê-las pode custar votos em 2018 – ainda mais num momento de desgaste da classe política em razão da Lava Jato. O cenário fica mais desfavorável quando se considera a popularidade de Temer, em queda desde que assumiu a Presidência, em maio de 2016.

    Além de movimentos sociais, como MST (Movimento dos trabalhadores Sem Terra) e MTST (Movimento dos trabalhadores Sem Teto), os organizadores afirmam que vão aderir à greve categorias numerosas, como rodoviários, metalúrgicos, servidores públicos, bancários, aeroviários e até professores de escolas particulares. Em São Paulo, funcionários do Metrô, da CPTM e dos dois aeroportos anunciaram paralisação.

    A união de centrais sindicais diversas

    Os atos desta sexta são organizados conjuntamente pela CUT e pela Força Sindical, que representam a maioria dos trabalhadores sindicalizados no país. No entanto, essas centrais são associadas a grupos políticos opostos e raramente atuam unidas.

    A CUT é ligada ao PT. Já a Força é presidida pelo deputado federal Paulo Pereira da Silva (SD-SP), que defendeu o impeachment de Dilma Rousseff e declarou apoio a Temer. Mas, quando o assunto envolve as reformas, o deputado e a Força ficaram do lado oposto, já que as propostas mexem justamente com direitos da sua principal base eleitoral.

    A reforma da Previdência é o motivo principal de resistência por ser considerada dura demais ao exigir, por exemplo, contribuição mínima de 49 anos para o trabalhador ter direito à aposentadoria integral. Outro ponto de divergência é o fim da contribuição obrigatória aos sindicatos, proposta na reforma trabalhista.

    Efeitos nas votações no Congresso

    A greve ocorre na semana em que a Câmara colocou a reforma trabalhista em votação, na quarta-feira (26). Foi o primeiro teste de Temer para medir a fidelidade de sua base. A depender da adesão à greve, os atos desta sexta podem influenciar o voto dos parlamentares nas votações seguintes.

    Para aprovar a reforma da Previdência, Temer precisará do “sim” de 308 deputados, o mesmo que três quintos da Câmara. O Planalto aceitou recuar em alguns pontos, como regras diferentes para mulheres e trabalhadores rurais, mas o apoio no Congresso ainda é incerto. Até o momento, apenas 76 parlamentares declaram publicamente que votarão a favor, segundo placar elaborado pelo “O Estado de S. Paulo”.

    O apoio de igrejas

    Representantes das igrejas católica e evangélica fizeram críticas públicas às reformas. O secretário-geral da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), dom Leonardo Steiner afirmou na quarta-feira (26) ser “fundamental” escutar a população na discussão sobre as reformas. Bispos de mais de uma diocese, como em Campos dos Goytacazes (RJ), chegaram a divulgar nota de apoio à greve.

    No fim de março, representantes de 11 igrejas evangélicas assinaram um manifesto contra a reforma da Previdência, entre elas a Convenção Batista Brasileira, as igreja Metodista e Presbiteriana. No texto, os autores dizem que as propostas são “injustas” e não condizem “com a realidade brasileira”.

     

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