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Quem é Barbara Hammer, pioneira do cinema lésbico nos EUA

Com sua primeira retrospectiva no Brasil realizada em 2017, cineasta lida com o feminino, o feminismo e a sexualidade

    Temas

    Na década de 1960, a cidade de São Francisco, nos Estados Unidos, já era reconhecida como epicentro da cultura e do ativismo pelos direitos LGBT no país e no mundo. Entre os artistas e militantes da época, entre os quais o político Harvey Milk, homenageado pelo filme “Milk: A Voz da Igualdade” (2008), personagens lésbicas eram menos conhecidas.

    Entre elas estava a cineasta e artista visual Barbara Hammer, pioneira do cinema independente americano voltado ao tema. Seus filmes estão sendo exibidos no Brasil na primeira retrospectiva dedicada à ela no país: a mostra “Barbara Hammer — um cinema experimental lésbico”, em cartaz de 18 a 30 de abril na Caixa Cultural do Rio de Janeiro.

    Hammer, hoje com 77 anos, iniciou seus estudos em cinema na San Francisco State University, em meados dos anos 1960, bem em meio à efervescência da contracultura e da reivindicação de direitos das minorias. Dirigiu mais de 80 filmes, recebeu prêmios em festivais de cinema como os de Sundance e Berlim, foi tema de outras retrospectivas — uma delas, ainda na década de 1980, no Centro Pompidou, em Paris — e é reconhecida  por sua filmografia de vanguarda dedicada à vida das mulheres e à sexualidade lésbica.

    Mulheres filmando mulheres

    Apesar de dar destaque especial à questão lésbica, o cinema de Hammer fala basicamente de mulheres. Seja tratando da menstruação, como no curta de 1974 “Menses”, que lança um olhar bem-humorado sobre aspectos desagradáveis de sangrar mensalmente; ou exaltando mulheres que admira, como a cineasta Maya Deren, uma das primeiras mulheres do cinema experimental e sua grande referência, tema do filme “Maya Deren’s Sink” (A pia de Maya Deren).

    “É um cinema que respeita muito o cotidiano das mulheres”, define a curadora da mostra de Hammer na Caixa Cultural, Marina Pessanha. A cineasta documenta esse cotidiano, segundo Pessanha, o que “muda o objeto filmado e a forma como ele é filmado”.

    Muda também, segundo a pesquisadora de gênero e cinema Marina Fuser, a própria “receita” de uma parte significativa das narrativas cinematográficas: o encontro amoroso entre um homem e uma mulher. “O cinema lésbico muda essa premissa”, disse Fuser em entrevista ao Nexo.

    Mesmo nas (várias) cenas de sexo explícito presentes na obra de Hammer, o corpo das mulheres é representado de outra forma, segundo a pesquisadora. Não é fragmentado pela câmera, mas aparece inteiro, mostrando que “há uma pessoa que habita esse corpo”.

    A presença de mulheres lésbicas nas telas, diz Fuser, principalmente na pornografia, as objetifica e exotiza. Já a representação do sexo entre mulheres no cinema de Hammer “vem de dentro” e representa seus corpos sem “decepá-los”.

    “Como cineasta experimental e feminista lésbica, eu tenho defendido que conteúdo radical merece forma radical.”

    Barbara Hammer

    No ensaio “A Política da Abstração” 

    O foco nas mulheres não está só diante da câmera de Hammer. A cineasta tem como política convocar mulheres e pessoas de gênero não binário para fazer parte de sua equipe, na intenção de, como define a curadora Marina Pessanha “queerizar o mundo e o cinema”, em referência ao movimento e à teoria “queer”, que tratam de identidades de gênero que vão além de ser mulher ou homem.

    Destaques da filmografia de Barbara Hammer

    ‘Schizy’ (1968)

    Primeiro filme de Barbara Hammer. Explora a dualidade masculino/ feminino através de imagens filmadas com uma câmera Super 8.

    ‘Barbara Ward Will Never Die’ (1968)

    Hammer foi casada com um homem antes de se descobrir lésbica. O filme mostra a profanação do túmulo de Barbara Ward, nome de casada de Hammer.

    ‘Dyketatics’ (1974)

    Um dos primeiros filmes feitos por uma diretora lésbica assumida a explorar a identidade, o desejo e a sexualidade lésbica.

    ‘Superdyke’ (1975)

    Média-metragem documental acompanha, durante um dia, uma passeata de mulheres lésbicas. Elas tomaram as ruas de São Francisco vestindo camisetas com a palavra “superdyke” (Super Sapatão) e carregando escudos de amazonas.

    'Nitrate Kisses' (1992)

    Primeiro longa-metragem de Hammer, é um filme-ensaio que investiga registros perdidos da cultura LGBT.

    ‘Bem-vinda a esta casa (Welcome to This House)’ (2015)

    O documentário poético sobre as casas e os amores da poeta lésbica Elizabeth Bishop (1911-1979) é o filme mais recente de Hammer. Foi parcialmente filmado no Brasil, onde Bishop viveu.

    (Re)escrevendo a história LGBT pelo cinema

    Ressignificar arquivos de imagens para escrever a história das pessoas LGBT, muitas vezes apagada de registros históricos oficiais, é uma das práticas evidentes no cinema de Hammer.

    Ela o faz em “Nitrate Kisses” (Beijos de nitrato, em tradução livre, de 1992), seu primeiro longa-metragem e em “History Lessons” (Lições de História, de 2000), em que por meio de uma colagem de arquivos variados, ela “manipula este material de forma humorada a dar a impressão de que lésbicas estão por toda parte”, ficcionalizando a história lésbica a partir de arquivos de filmes, programas de TV antigos, anúncios, revistas, vídeos educativos, locuções anacrônicas, entre outros, como descreve a sinopse do filme no catálogo da mostra.

    “ ‘Nitrate Kisses’ (...) versa sobre a dificuldade em se traçar uma história gay e lésbica do século 20 diante do apagamento das narrativas homossexuais. Em contraste com a linearidade e a causalidade das políticas da memória oficial, Hammer emprega um método de reutilização fragmentária do passado (...) para construir um distinto mosaico de experiências e vivências hétero-desviantes”

    Susana Amaral 

    Artista-pesquisadora e cineasta no catálogo da mostra Barbara Hammer

    Hammer também registra personagens marginalizadas, como no filme “Lover/Other: the Story of Claude Cahun and Marcel Moore” (Amante/outro: a história de Claude Cahun e Marcel Moore, de 2006), uma homenagem às artistas surrealistas Claude Cahun e Marcel Moore, que foram amantes, lésbicas, viveram e trabalharam juntas durante toda a vida e foram parte da resistência ao nazismo na Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial, quando foram presas e condenadas à morte.

    Para a pesquisadora Marina Fuser, a contribuição de Hammer deve ser vista além do pioneirismo no cinema lésbico. “A maneira como ressignifica espaços e afetos são cinema com C maiúsculo, bem feito e sensível”, diz Fuser. “O olhar dela não é o olhar trivial masculino do cinema convencional. Ele foge de todas as formalidades e narrativas”.

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