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A chacina de Mato Grosso e os números da violência rural no país

Há décadas o Estado é palco de conflitos rurais, que só pioram, segundo levantamentos da Comissão Pastoral da Terra

    Nove homens foram assassinados a tiros e facadas na gleba Taquaruçu do Norte na quarta-feira (19). A chacina foi o mais recente episódio de um tipo de conflito recorrente no país que envolve fazendeiros, trabalhadores rurais, madeireiros, garimpeiros, indígenas e sem-terra.

    Taquaruçu do Norte é uma porção de terra não loteada do município de Colniza, Mato Grosso, a 250 km da área urbana. Cerca de 100 famílias viviam no terreno de difícil acesso: as estradas de terra são alagadas e em alguns pontos só é possível atravessar a pé ou de barco. As últimas famílias deixaram a região às pressas no domingo (23), temendo o retorno dos assassinos.

    A Secretaria Estadual de Segurança Pública de Mato Grosso confirmou as mortes e disse acreditar que o responsável pelos assassinatos é um grupo apelidado de “encapuzados” a serviço de fazendeiros da região — que querem expulsar as famílias da área.

    Como foi a chacina, segundo a polícia

    Segundo a polícia local, os “encapuzados” adentraram o terreno por volta do meio-dia, mataram sete homens a tiros de armas de calibre 12 e outros dois a golpes de facão. Antes, as vítimas foram amarradas e torturadas. Parte teve o rosto mutilado, dificultando reconhecimento pela perícia. Duas pessoas conseguiram fugir. 

    No dia seguinte, peritos foram enviados ao local de helicóptero. Todas as vítimas eram homens - entre eles, um pastor da Assembleia de Deus. Colniza não tem um IML (Instituto Médico Legal) e o processo de necropsia foi feito em uma sala improvisada do cemitério local. Os corpos foram enterrados no domingo (23).

    O clima de tensão em Mato Grosso

    O governo do Estado, sob gestão de Pedro Taques (PSDB), manifestou ser prioridade a resolução do caso. Mais policiais foram enviados à região e foi criada uma força-tarefa de cooperação entre polícia civil e militar. O histórico da região, no entanto, não é animador.

    O município de Colniza, a 1.018 km de Cuiabá, foi criado em 1986 como projeto da empresa de garimpo Colniza Colonização. Na época, a região concentrava três garimpos de ouro, segundo informações do jornal “O Estado de S. Paulo”, o que a levou a fazer parte do chamado “arco de fogo”, região de desmatamento na Amazônia.

    Em um comunicado, a Prelazia de São Félix do Araguaia (circunscrição da Igreja Católica em Cuiabá) disse que a comunidade de Taquaruçu do Norte é vítima de violência desde 2004 e lembrou outros conflitos da região — como os da fazenda Magali e o da gleba Terra Roxa. Os bispos dom Pedro Casaldáliga e dom Adriano Ciocca Vasino cobraram punições.

    “Diversos políticos expõem abertamente seus discursos de ódio e incitação à violência contra as comunidades que lutam pelos seus direitos. Vivemos um clima de ‘Terra sem lei’, uma verdadeira guerra civil em nosso país. [...] A consequente impunidade no campo, fruto da omissão dos órgãos públicos, perpetua a violência”

    trecho de nota da Prelazia de São Félix do Araguaia

    Os assassinatos no campo, segundo a Pastoral da Terra

    No dia 17 de abril, a CPT (Comissão Pastoral da Terra) divulgou um relatório com os dados de conflitos ocorridos no campo no Brasil em 2016 — e constatou ter sido esse o ano mais violento dos últimos tempos. A CPT foi criada em plena ditadura militar pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) com o objetivo de monitorar as condições de trabalhadores rurais, posseiros e peões.

    Foram 61 assassinados no campo em 2016, o equivalente a cinco assassinatos por mês — maior registro desde 2003, quando foram constatados 73 assassinatos. Segundo o documento, a chamada Amazônia Legal (região que compreende a região Norte mais partes do Maranhão e Mato Grosso), concentrou 79% dos assassinatos, tendo registrado 48 deles.

    Crimes no campo, segundo a CPT

    Mortes no campo em 2016

    13

    indígenas

    4

    quilombolas

    6

    mulheres

    16

    jovens de 15 a 29 anos

    Ao todo, a CPT constatou 1.295 conflitos por terra, número mais elevado desde que a organização passou a realizar a pesquisa, em 1985. Foram 2.639 famílias expulsas de algum território — número 232% maior que em 2015.

    São considerados conflitos por terra situações em que há ocupação de áreas privadas ou públicas por grupos de sem-terra, indígenas ou quilombolas, estabelecimento de acampamentos e posterior uso de alguma forma de violência contra a ocupação ou contra as pessoas dessa ocupação.

    Em Mato Grosso, especificamente, foram registrados 83 conflitos em 2016, ante 62 no ano anterior. Foram dois assassinatos, seis tentativas de assassinato, oito ameaças de morte, cinco agredidos fisicamente, dois presos e duas ameaças de prisão.

    A chacina de Taquaruçu do Norte aconteceu na semana do 17 de abril, quando é lembrado 21 anos desde o massacre de Eldorado dos Carajás, no Pará, quando 19 trabalhadores sem terra foram assassinados pela Polícia Militar.

    Cronologia

    2004

    Segundo a Pastoral da Terra, 185 famílias são expulsas da gleba de Taquaruçu do Norte por homens armados. Os suspeitos da ação dizem, segundo as famílias, terem comprado as terras. O juiz da Comarca de Colniza concede reintegração de posse em benefício à cooperativa que representa as famílias.

    2007

    Ainda de acordo com a CPT, dez trabalhadores da gleba são vítimas de torturas e cárcere privado. No mesmo ano, em janeiro, um agricultor é assassinado, e, em abril, outros dois.

    2014

    Um casal é morto a tiros, vítima de uma emboscada. O homem era presidente da Associação de Produtores Rurais Nova União e, 48 horas antes, havia denunciado ameaças que sofria à ouvidoria do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). O caso não foi solucionado até hoje.

    2017

    Nove homens da gleba são assassinados. Principais suspeitos, segundo a política, integram um grupo de pistoleiros ligado a fazendeiros que disputam o uso da área.

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