Ir direto ao conteúdo

Como fraudes e irregularidades em pelo menos 11 confederações afetam o esporte no Brasil

Menos de um ano depois de Olimpíada no Rio de Janeiro, entidades que comandam as modalidades são investigadas e patrocinadores cortam recursos

     

    A pouco meses do aniversário de um ano do início dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro de 2016, o esporte brasileiro passa por uma grave crise que põe em xeque o legado do evento — e o futuro dos atletas no país. Além da falta crônica de recursos, as suspeitas de irregularidades nas confederações das modalidades ganham cada vez mais visibilidade.

    Na virada de 2017, o COB (Comitê Olímpico do Brasil) perdeu todos os patrocinadores privados e está no mercado em busca de novos financiadores, de olho na Olimpíada de 2020, em Tóquio. A escassez de recursos atinge até mesmo medalhistas olímpicos, como Isaquias Queiroz e Poliana Okimoto.

    E, agora, à seca de verbas, somam-se denúncias: ao menos 11 confederações entre as 32 modalidades olímpicas que integram o COB estão envolvidas em polêmicas e escândalos de corrupção — sem contar a Confederação Brasileira de Futebol, que também passa por problemas.

    Em janeiro, o site do canal esportivo ESPN publicou uma série de reportagens que mostram que 101 convênios firmados pelo Ministério do Esporte no valor de R$ 1,8 bilhão não têm prestação de contas — e há suspeitas de fraudes e privilégios para cartolas.

    Em 18 de abril, numa audiência pública na Comissão de Esportes da Câmara dos Deputados, em Brasília, o deputado Arnaldo Jordy (PPS-PA) pediu a criação de uma CPI para investigar as confederações esportivas.

    De onde vem o dinheiro para o esporte

    Atletas e equipes têm diferentes fontes de renda, provenientes tanto do setor privado quanto público. Governos, por exemplo, têm uma série de programas de repasses de verba, como o Plano Brasil Medalhas e o Bolsa Atleta, do Ministério do Esporte. Além disso, empresas estatais, como os Correios e a Petrobras, são grandes patrocinadoras.

    A outra principal fonte de dinheiro para o esporte vem das loterias federais. O repasse é previsto na lei n° 10.264, de 2001. Conhecida como Lei Agnelo/Piva, ela prevê que 2% da arrecadação bruta das loterias federais sejam destinadas ao COB e ao CPB (Comitê Paralímpico Brasileiro). O COB fica com 85% do valor total das arrecadações.

    As loterias federais tiveram queda de 14% de arrecadação em 2016. Para 2017, a previsão é que o comitê receba R$ 210 milhões — 15% disso vai, por lei, para esporte escolar e universitário. O restante é repassado às confederações (R$ 85 milhões) e investido pelo próprio COB  em determinadas modalidades, de acordo com o plano estratégico para as Olímpiadas de 2020, em Tóquio. As confederações têm que prestar contas do que fazem com o dinheiro repassado e estar em dia com as federações internacionais de suas modalidades.

    A realidade do Brasil hoje, no entanto, é bem diferente daquela de 2009, quando o Rio de Janeiro foi eleito como sede para os Jogos de 2016 e a euforia geral com a escolha impulsionou apostas no esporte nacional. Desde então, o país enfrentou uma severa crise política e econômica que afetou profundamente essas empresas e, como consequência, os patrocínios. E, por fim, as suspeitas sobre as confederações fizeram as empresas ficarem mais receosas em investir no esporte. 

    Três confederações têm seus presidentes questionados na Justiça

    Natação: presidente preso

    O caso da CBDA (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos) é o mais grave. O ex-presidente Coaracy Nunes e três diretores da entidade foram presos pela Polícia Federal no começo de abril. Eles são acusados de desvios que somam a R$ 40 milhões. A Operação Águas Claras é resultado de uma parceria da PF com o Ministério Público Federal e com o Ministério da Trasparência, Fiscalização e Controladoria-Geral da União. A Justiça nomeou um interventor, Gustavo Licks, para ocupar a presidência no lugar de Nunes, que desde 1988 exercia o cargo.

    Segundo a polícia, o dinheiro captado por meio de convênios e leis de fomento ao esporte pela CBDA, em vez de ir para apoio à atividade dos atletas, foi “mal gerido ou desviado para proveito pessoal dos investigados". Há indícios que licitações para compra de equipamentos e até passagens reservadas para atletas foram superfaturadas por agências de turismo.

    Diante das acusações, nomes importantes da modalidade, como Gustavo Borges, Cesar Cielo e Thiago Pereira se reuniram com o presidente dos Correios. A estatal havia anunciado a rescisão do contrato de patrocínio, mas acabou voltando atrás, com a exigência de mais transparência na gestão da CBDA. Uma das primeiras medidas do interventor Gustavo Licks foi convidar  o ex-atleta e dirigente Ricardo Prado para ser o novo gerente geral de esportes.

     

    Taekwondo: presidente afastado

    Assim como na natação, a CBTKD (Confederação Brasileira de Taekwondo) também é presidida por um interventor. Desde janeiro de 2017, Carlos Alberto de Carvalho ocupa o lugar que era de Carlos Fernandes, afastado em agosto de 2016 sob acusações de irregularidades que somam R$ 1,4 milhão de prejuízo.

    Os bens de Carlos Fernandes e de diretores da entidade foram bloqueados pelo Ministério Público do Rio de Janeiro. Eles são acusados criminalmente por fraude em licitações na compra de equipamento esportivo.

    Antes disso, enquanto a CBTKD ficou sem presidente entre agosto e dezembro de 2016, os recursos previstos para a entidade não foram repassados pela Lei Agnelo-Piva , já que a  prestação de contas dos aportes anteriores não havia sido apresentada. Agora, a CBTKD enfrenta novas dificuldades para conseguir recursos e terá que contar com a ajuda do COB para enviar atletas para o mundial da modalidade, em junho de 2017.

    Handebol: presidente sub judice

    Em 17 de abril, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva marcou o julgamento do presidente da CBHb (Confederação Brasileira de Handebol), Manoel Luiz Oliveira, mas ele não compareceu. Uma nova audiência foi marcada para 23 de abril. O julgamento trata da sua reeleição, ocorrida em fevereiro. O cartola está há 28 anos à frente da entidade.

    Pesa contra Oliveira a suspeita de fraudes em licitações que somam R$ 6 milhões, segundo apuração da ESPN. Manoel Oliveira questiona na Justiça Comum o poder do STJD de homologar sua reeleição e segue na presidência da confederação da modalidade.

    Outras suspeitas

    Na série de reportagens feitas pela ESPN, há indícios de irregularidades no uso de verbas em diversas confederações, como as de ginástica, ciclismo, tênis de mesa, rúgbi, tiro com arco e canoagem.

    A CBV (Confederação Brasileira de Vôlei) também passou a ser questionada recentemente. O blog do jornalista Juca Kfouri revelou que o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), que atua no combate a crimes financeiros, produziu relatório em que apresenta suspeitas sobre a empresa SG4, de Fabio Azevedo, braço-direito de Ary Graça, ex-presidente da CBV. A empresa tinha diversos contratos com a CBV, que segundo o Coaf têm “indícios de atipicidade” e apresentam “movimentação de recursos incompatível com o patrimônio do proprietário”. O site Sportlight, do jornalista Lucio de Castro, dá mais detalhes sobre esse relatório do Coaf.

    Já a CBE (Confederação Brasileira de Esgrima) é acusada pela ABE (Associação Brasileira de Esgrimistas) de fazer mau uso da verba destinada à entidade pela Lei Agnelo/Piva em 2015, no valor de R$ 1,9 milhão. Em 2016, a ABE, uma entidade independente composta por atletas, enviou denúncia ao Tribunal de Contas da União. A tramitação do caso corre em sigilo. Paralelamente, federações da modalidade no Rio, no Paraná e no Rio Grande do Sul travam disputa com o presidente da CBE, rejeitando sua escolha para um novo mandato, alegando supostas manobras eleitorais.

    Falta de verbas e crise

    Duas confederações de esportes com mais popularidades no Brasil também passam por crises, a de basquete e a de tênis.

    A CBB (Confederação Brasileira de Basquete) está impedida de receber dinheiro da Lei Agnelo/Piva por ter uma dívida, de valor não revelado, com a Fiba (Federação Internacional de Basquete). O patrocínio de R$ 8,5 milhões do Bradesco foi cortado no fim de 2016 e, atualmente, a CBB não é capaz nem de pagar os salários de seus funcionários. Ao mesmo tempo, com a suspensão da Fiba, as seleções e clubes brasileiros não podem participar de torneios internacionais.

    Já a CBT (Confederação Brasileira de Tênis) teve uma redução de 80% em seu patrocínio dos Correios para 2017. O corte drástico de sua principal fonte de renda resultou na suspensão de bolsas para atletas como Thomaz Bellucci, na demissão de funcionários da entidade e na mudança da sede de cidade. O presidente da CBT, no entanto, teve seu salário reajustado, de R$ 20 mil em 2016 para R$ 22 mil em 2017.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: